Texto porLeandro Marçal
Escritor e jornalista, Santos - SP

Era só dor de cabeça

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Acordo baleado.

Uma dor de cabeça e a garganta dando sinal de vida, como se tivesse acabado de engolir uma lâmina de barbear. Respiro fundo e percebo um congestionamento nasal.

Não como a entrada de Santos numa véspera de feriado. Parece o fim da tarde na avenida da praia, quando os ônibus se enfileiram na saída de cada ponto, muita gente sobe e não há mais lugar para viajar sentado.

www.juicysantos.com.br - era só dor de cabeça - grafite de um homem com dor de cabeça

Fico preocupado, sou hipocondríaco.

Se tenho os primeiros sintomas, estou no oitavo dia, segundo todos os textos que li, me fazendo dormir mais tarde que o usual para um insone incurável, acordando antes do despertador.

Com quem tive contato? Precisei sair, que merda.

Poderia ter infectado ainda mais gente se não estivesse enfurnado em meu apartamento, trabalhando em frente ao computador, sem uma prateleira cheia de livros ao fundo porque organização não é meu forte.

Penso na previdência privada que pago há alguns anos, que dará uma força para meus familiares. No mês passado, paguei o plano funerário da família e ninguém terá despesas com um enterro rápido e sem velório. Por mais que eu deseje a cremação ao som de “O que é o que é”, do Gonzaguinha.

Nesses tempos, não há muito o que escolher. Não tenho dívidas, ainda bem. Nem seguro de vida, paciência aos que ficam.

Uso o termômetro três vezes para ter a certeza de que não estou com febre. Dou graças aos céus por não ter de usar os mesmos métodos veterinários para medir a temperatura corporal.

Controlo a respiração. Antes de começar a trabalhar, coloco uma playlist de meditação, fecho os olhos. Não resisto e recorro à Neusa, velha companheira para dias de dor de cabeça. Posiciono o nariz perto do sovaco, sinto seu cheiro. Meu cheiro. Coloco sal, açúcar e até um restinho de canela da geladeira na língua. Ainda há paladar.

Durante o horário de trabalho, colegas me perguntam por videoconferência se estou tudo bem. Notam que tusso mais de cinco vezes durante o dia. Avisei os colegas e me pedem calma, porque aparentemente estou assintomático.

Fim do expediente.

Dá vontade de tomar uma cervejinha, no bar onde eu e meus amigos nos reunimos com frequência. Puta merda! Ontem tive uma reunião para um novo projeto, trabalho extra. Tomei uma taça de vinho. Minto, duas. Aliás, cinco. Vinho me dá uma ressaca brutal.

Respiro fundo, trânsito livre. É ressaca. Amanhã vou melhorar. Melhor dormir.

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*Leandro Marçal é jornalista e autor dos livros De Letra: O futebol é só um detalhe e No caminho do nada (2ª edição). Escreve crônicas no Tirei da Gaveta