Texto porLeandro Marçal
Escritor e jornalista, Santos - SP

Um agiota do bem

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Ele vive de quê?, perguntavam em sua ausência.

Tinha carro do ano, casa reformada, só pagava no débito: garrafas de uísques caros, pizzas da segunda folha do cardápio, corridas de táxi para os infelizes sem transporte individual. Não havia desculpa para faltar a um rolê com ele.

Ele bancava, ele era amigo, ele não tinha problemas de cobrir os desempregados ou assalariados que não podiam arcar com nada além dos boletos de casa. E saía de uma hora para outra, depois de olhar o celular e ir atrás de resolver uns probleminhas.

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Mas ninguém conseguia explicar seu ofício. Algo a ver com comércio e transações bancárias, diziam uns. Facilitador de empréstimos, cogitavam outros. Eu não dava atenção, só me importava com a amizade.

Às segundas-feiras pela manhã, ele curtia a ressaca, enquanto às 11 horas eu procurava um restaurante barato para o almoço. Meu vale-refeição não dura muito.

Em uma quarta-feira cinzenta, tirei folga para compensar os excessos do banco de horas. O celular tocou e ele me chamou para ir ao shopping. Queria renovar o guarda-roupa. Fomos em seu carro novo. Ele não chegava à metade dos boletos. Ele desconhecia a cara dos boletos.

Na loja de letras miúdas na vitrine, ele não hesitou em escolher os “panos novos”. Roupas caras para o meu padrão. Eram dígitos demais. Depois das compras, fomos tomar uma cerveja no boteco em frente ao shopping. Lá, a cerveja é mais cara, o petisco é mais caro, respirar é mais caro.

Falamos da vida, perguntei como andavam os negócios. Bem, bem. Nessa época de crise, emprestar dinheiro rende até mais, muita gente desesperada permite aumentar o preço, disse.

Fui ao banheiro, já alterado. Não sou acostumado ao álcool no meio da semana.

Emprestar dinheiro rende, lembrava sem parar. Ele é agiota, claro, mas estava tão óbvio: o jeito de falar, a maneira de se vestir, aquele monte de peças desconexas quando separadas.

Que outros vínculos tinha nosso amigo de rolês, bares, baladas, conversas ao pé do ouvido, encontros de casais, batizados de crianças e festas de família? Ele nos cobraria com ameaças?

Voltei a tempo de não permitir que meus pensamentos me atordoassem. A tempo de não gerar suspeitas de desmaios ou diarreias. Não conseguia mais disfarçar quando perguntavam de que ele vivia. Pensava em juros extorsivos, crime contra a economia e outros termos que aprendi nas faculdades de Direito e Ciências Econômicas. Foi a primeira vez que me arrependi de ter largado os cursos no meio do caminho.

Ligações, visitas inesperadas, reputações manchadas. Outras situações constrangedoras vieram à mente. E foi constrangedor ouvir, na mesa do bar, seu interesse por novos investimentos. Algo relativo a apostas em jogos e um mercado paralelo. Perguntei se isso era permitido por lei, ele sorriu.

A conta estava paga, disse. Conversaria em detalhes outra hora, queria nos envolver em seu novo empreendimento. Mas precisava ir embora, tinha uma pendência urgente a resolver.

– A essa hora? – perguntei, olhando para o céu escuro do começo da madrugada.
– A essa hora. Rolou um imprevisto daqueles, depois chamo vocês no grupo.

Ele é um cara do bem, comentaram.

Eu balancei a cabeça. Ele é um cara do bem.

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*Leandro Marçal é jornalista e autor dos livros De Letra: O futebol é só um detalhe e No caminho do nada (2ª edição). Escreve crônicas no Tirei da Gaveta