Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 24 anos - Santos

A nova normalidade: como estão as vidas em quarentena em Santos

Já passa de 8h30 quando o despertador toca.

Leandro Lemella, acostumado a estar na academia às 7 horas, levanta.

Toma banho, prepara uma xícara de café e senta para trabalhar na mesa em frente à janela, com vista para o morro Santa Terezinha.

A rotina tem sido essa há quase três semanas, desde que começou o isolamento voluntário em Santos.

No início, tudo era novidade e, talvez, até legal.

Mas agora essa é a nova normalidade

Inicialmente, ficar em casa era uma questão de escolha. Mas, assim como em outras partes do Brasil e do mundo, a região metropolitana da Baixada Santista decretou a quarentena. E, desde 20 de março, escolas, shoppings, academias e outros serviços foram suspensos até segunda ordem. Com o passar dos dias, ganhamos uma nova rotina.

“Parece que os dias são sempre iguais e que passam mais rápido”, comenta Leandro.

Leandro começou a trabalhar e, às vezes, se exercitar em casa. É neste mesmo ambiente que ele lê, estuda inglês e assiste às aulas das pós-graduação – que já eram feitas à distância.

www.juicysantos.com.br - a nova normalidade durante a quarentena em santos

Para outros alunos, estudar de casa é uma novidade trazida pelo coronavírus e o isolamento social. Mas não foram só os estudantes que precisaram se adaptar, viu? Professores também tiveram um grande desafio com essa mudança repentina de ambiente de trabalho.

É uma criança ali atrás, professor?

Nathália Donato, por exemplo, dá aulas de inglês para turmas de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Em resumo, sua rotina consistia em sair de casa pela manhã e voltar apenas no final da tarde – já que trabalha em uma escola em São Vicente e outra em Praia Grande, mas mora em Santos.

Assim como Leandro, ela sente que os dias têm menos horas nessa quarentena. Mesmo sem  o deslocamento que estava acostumada.

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“Tenho trabalhado além do período, pois o EAD exigiu toda uma mudança de planejamento. Quando me dou conta, o dia já terminou”, comenta.

Em uma das escolas, a rotina envolve desenvolvimento de material com slides, vídeo-aulas e folhas de exercícios. Enquanto na outra são feitas aulas no Google Classroom, atividades e lives curtas pelo Zoom. Para as turmas da In-Fluent Kids, programa santista de educação bilíngue, as aulas também foram levadas para o ambiente digital. Algo até então não cogitado, principalmente para as turmas de crianças.

A adaptação, no entanto, foi vista com bons olhos. E, inclusive, mudou a forma como o EAD era visto.

“Tem dado tão certo e sido tão divertido que eu passei a considerar essa possibilidade… Talvez não para todas as crianças, mas para casos específicos”, comenta Sylvia Soler, criadora da metodologia In-fluent Kids.

Outra novidade trazida pela quarentena foi o fato de trabalhar ao lado dos filhos.

Nathalia é mãe da Gabi, de 8 anos. Exatamente como seus alunos, a filha está sem aulas na escola. Mãe e filha têm lives com aulas no mesmo horário, então os alunos da teacher Nath não vão assistir à mesma cena que a Ingrid, aluna de Engenharia Química de uma faculdade da região.

“Logo nos primeiros dias, uma menininha puxou a camisa do professor no meio da aula e pediu para ele descascar uma goiaba. Ele ficou todo sem reação, mas todos entenderam e fizemos um intervalo pra ele ajudar a filha”, comenta Ingrid Souza.

Apesar de não interromper as lives da mãe, Gabi sempre aparece durante as gravações das vídeo aulas da Nathália. O que, de acordo com ela, acaba aumentando o tempo das gravações.

Cadê o meu ônibus?

Enquanto as pausas que as visitas de Gabi ao escritório da mãe aumentam seu tempo de trabalho, o menor número de ônibus nas ruas faz Joaquim Souza ficar mais exposto ao vírus.

O porteiro não foi dispensado do prédio onde trabalha e diz que o ônibus que pega para ir trabalhar não tem mais um horário fixo, como de costume.

Antes ele ia para o ponto de ônibus 5 minutos antes do coletivo passar. Agora já chegou a ficar 40 minutos aguardando.

“Não posso chegar atrasado no trabalho, então estou saindo mais cedo de casa e ainda assim, às vezes, o ônibus passa depois do horário. Eu fico longe das pessoas e tenho álcool gel na mochila, para passar nas mãos depois de entrar no ônibus. Mas dá medo, né?”.

Quando o ônibus finalmente vem e ele consegue chegar ao trabalho, cruza uma esquina que sempre chama sua atenção. Uma turma de entregadores de aplicativos está sentada na sombra, as motos e bicicletas logo em frente e os celulares nas mãos. Ali fica uma das docerias mais famosas da cidade e de onde, de acordo com os rapazes, saem o maior número de pedidos.

Não há distância entre eles. Joaquim, que não teve direito ao isolamento social, diz se sentir privilegiado por ficar sozinho em sua guarita.

“Antes de irmos embora, a gente limpa tudo. Temos luvas e máscaras, caso tenhamos vontade de usar. Esses meninos ignoram totalmente as orientações. Mas não por rebeldia. É uma pena”.

Ficar em casa ainda é necessário

Enquanto os entregadores se acumulam em busca de sombra, a orla da cidade ficou repleta de gente na última semana. De um lado a necessidade. Do outro a gente nem sabe com qual palavra descrever o comportamento.

O fato é que se você pode ficar em casa, deve fazer como Leandro, Sylvia, Ingrid, Nathália e o time do Juicy Santos.

Caso tenha uma equipe, busque maneiras de adaptar o trabalho para o home office. Talvez você até descubra que estava perdendo tempo de não ter feito isso antes.

De acordo com estimativas, o pico do coronavírus aqui na região será na segunda semana de abril. Ou seja, ainda não é tempo de ir à praia. Já são mais de 90 casos confirmados em Santos e 4 mortes confirmadas (números de sexta-feira, 3 de abril). Se adaptar a essa nova normalidade momentaneamente é essencial.

Fique em casa e conte para gente nos comentários: como os seus dias têm sido?