As mentiras de Santos que viraram patrimônio
Vulcão que não era vulcão, leoa que não era leoa, ator morto que deu entrevista num cemitério. Bem-vindo a Santos, a cidade das fake news com sotaque caiçara.
Santos tem praia, café, porto e uma coisa que poucos lugares têm em dose tão generosa: mentiras bem contadas.
Algumas vieram do tempo dos bondes. Outras saíram direto de um blog de um santista que nasceu no dia da mentira. Mas todas elas dizem muito sobre quem somos, sobre como a cidade foi se inventando ao longo do tempo, e sobre a habilidade quase artística que o santista tem de transformar qualquer equívoco num patrimônio afetivo.

Foto: Criada com IA
É isso: aqui a gente não mente por mal. A gente mente com carinho, com criatividade, e às vezes, só pelo esporte mesmo.
No Dia da Mentira, a gente não vai fingir que está tudo bem. A gente vai celebrar cada uma delas com o merecido respeito.
O pão de cará que nunca teve cará
Todo mundo come. Ninguém sabe exatamente o que é.
O pão de cará é, talvez, o maior símbolo gastronômico de Santos. Gente que mora aqui há décadas compra um todo dia na padaria. E a maioria não sabe que a receita atual não leva cará, aquele tubérculo primo do inhame que dá nome ao pão e que aparece muito mais no título do que dentro da massa.

Hoje, a receita da maior parte das padarias da cidade mistura farinha, açúcar, margarina, fermento, água e emulsificantes. Pincelada de ovo por cima para o dourado característico. Cará? Nem o cheiro.
Uma matéria antiga do Juicy Santos entrevistou Carlão, padeiro com décadas de ofício, que disse afirmou que o tubérculo saiu da receita há cerca de 30 anos. O motivo foi simplesmente a praticidade, afinal, descascar e cozinhar o cará antes de tudo demandava horas extras às já madrugadas de trabalho. Em algum momento, alguém decidiu que o nome era bom demais para perder, mesmo que o ingrediente fosse embora.
Mas a professora Maria de Fátima Duarte Gonçalves, coordenadora de Gastronomia da São Judas Campus Unimonte na época, foi além. Ela pesquisou fundo, comprou até um livro com esse título esperando encontrar a receita histórica, e não achou registro algum que provasse que o pão de cará um dia teve cará de verdade.
A hipótese dela foi que oo nome pode ter nascido da semelhança visual entre a casca dourada do pão e a textura do tubérculo. Uma origem espontânea, popular, sem documentação. Uma mentira que nem quis ser mentira, simplesmente aconteceu.
O que ela garante é que pão de cará não é pão de leite. Os sabores têm nuances diferentes, mesmo que as texturas se pareçam. São primos próximos. Como cará e inhame.
O leão da praia que não é leão
Toda criança de Santos já tirou foto sentada no leão do Gonzaga. E quase toda criança cresceu achando que a segunda estátua, logo ali pertinho, é a “leoa”, companheira fiel do leão, formando um casalzinho romântico de cimento na orla.
Mas é 1º de abril, então para a surpresa de todos, não é leoa nenhuma.

O leão original foi esculpido pelo artista espanhol Sigismundo Fernandez e encomendado pela prefeitura durante a construção dos jardins da orla na década de 1950. Com 1,20 metro de altura, ele é fiel ao tamanho real de um leão. A confecção foi simples: cimento mole, molde e pintura branca. Sem trabalho manual de entalhe, sem valor artístico convencional. Mas com muito valor afetivo, esse é inegável.
A segunda estátua veio depois, feita na Oficina de Fundição Artística do Colégio Escolástica Rosa. Os nomes dos alunos envolvidos nunca foram registrados. E, por algum motivo que a história também não preservou, ela foi parar na orla ao lado do leão.
Aí começou o equívoco coletivo que dura décadas.
Em 2008, o veterinário Eduardo Filetti analisou a escultura e bateu o martelo: o rabo da peça mede 1,20 metro. O rabo de uma leoa real não passa de 30 a 50 centímetros. Somando isso às características do focinho e das patas, a conclusão foi clara: a “leoa” é, na verdade, um jaguar.
O mar escuro não é sinal de sujeira
Quem vem de fora, e alguns que moram aqui também, olha para o mar de Santos e tira conclusões rápidas demais. “Que praia suja.” “Que água escura.” “Deve ser tudo poluição.” O julgamento já veio formado antes mesmo de tirar o chinelo.
Porém, a cor escura da areia e da água em Santos tem explicação científica. A areia local é extremamente fina e retém muita umidade, fora que qualquer areia escurece quando molhada. Além disso, ela contém alta concentração de minerais pesados, especialmente a biotita, uma mica escura e completamente inofensiva à saúde que brilha como lantejoulas espalhadas pelo chão. Glamour mineral, basicamente.

Foto: Prefeitura de Santos/Ronaldo Andrade
O mar, por sua vez, recebe influência direta da posição geográfica da cidade: Santos está no fundo de uma baía e na foz de um estuário. Isso significa fluxo constante de sedimentos e matéria orgânica natural vinda dos mangues da região. Depois de períodos longos sem chuva, a água fica visivelmente mais clara, o que é prova de que a escuridão é temporária e natural.
A poluição existe e precisa ser combatida. Mas ela aparece no lixo flutuante e na qualidade bacteriológica da água, não na cor. Defender Santos dessa mentira preguiçosas é uma missão para todos os santistas!
Santos teve um “vulcão” por um mês
Em 28 de dezembro de 1896, operários da Comissão de Saneamento trabalhavam no bairro do Macuco, então recém-criado, instalando estacas para um sistema de esgoto. Depois de afundarem um tubo de cerca de 17 metros, saiu pela tubulação uma corrente forte de ar frio.
Mas o que veio a seguir ninguém esperava.
Um bolsão de gás subterrâneo foi rompido. O gás entrou em contato com o ar, pegou fogo, e começou a jorrar lama avermelhada, fumaças e chamas a mais de dez metros de altura. Os trabalhadores não entenderam o que estava acontecendo e fizeram a coisa mais racional possível, fugiram.

Imagem: desenhista Ulisses Veneziano
A notícia se espalhou com a velocidade do boca a boca de uma cidade portuária em fim de ano: havia um vulcão em erupção no Macuco.
As companhias de bondes criaram linhas especiais até o bairro. Embarcações traziam curiosos pelo canal do porto. Vendedores ambulantes aproveitaram o fluxo para vender amendoim, pastéis, limonada e pamonha no caminho. Mais de oito mil pessoas foram até o local. A imprensa do estado inteiro cobriu o fenômeno. Santos havia inventado, sem querer, sua primeira atração turística.
O “Vulcão do Macuco” ficou em “erupção” por aproximadamente um mês, até o gás se esgotar naturalmente. Só depois ficou claro que era um bolsão de gás natural acumulado em solo rico em matéria orgânica, como é típico nas regiões litorâneas. Muito menos dramático que um vulcão, mas com muito mais pastel envolvido.
A noite em que Santos “matou” Nuno Leal Maia
Era uma quarta-feira comum, 10 de abril de 1991. Nas ruas, uma notícia tomava forma no boca a boca: o ator Nuno Leal Maia havia morrido, e o corpo estava no Hospital Guilherme Álvaro, no Boqueirão.

Os telefones fixos da cidade não pararam. As pessoas ligavam umas para as outras tentando confirmar a informação. A Rádio Cultura FM, que dedicava mais de 90% da programação à música e quase não transmitia notícias, enviou um repórter na viatura de frequência modulada para a porta do hospital. A emissora interrompeu a programação para a cobertura ao vivo.
O repórter entrevistou um segurança do hospital, que negou a presença do corpo. Mas aí surgiu uma segunda versão: Nuno estava vivo, porém internado em uma ala especializada no atendimento a pessoas com HIV. Em 1991, isso era praticamente uma sentença de morte.
A confusão durou pouco mais de 24 horas. Na manhã de sexta-feira, 12 de abril, os jornais da cidade tiveram que publicar que a doença não passava de boato.
Nuno chegou em Santos no dia 15. Concedeu entrevista uma entrevista e mostrou saúde e bom humor, brincou muito com o fato de que a entrevista foi dada na Memorial Necrópole Ecumênica.
Isso mesmo, Nuno Leal Maia provou que estava vivo dentro de um cemitério depois de um boato conspiratório surgiu do mais absoluto nada.
Santos não é só cidade de idoso
Todo mundo já ouviu que “Santos é ótima para se aposentar”, “lá só tem velho”, “não tem nada para jovem”. Meia verdade que virou reputação inteira.
Sim, Santos tem uma população idosa expressiva. Segundo o Censo 2022 do IBGE, os moradores com mais de 60 anos representam cerca de 25% da população, 106 mil pessoas. Número real e significativo. Mas isso significa que outras 312 mil pessoas não são idosas. Mais de três quartos da cidade, um detalhe que a narrativa costuma engolir sem mastigar.
A fama de “paraíso para aposentados” tem raízes históricas legítimas: entre as décadas de 1920 e 1950, uma elite paulistana vinha para tratamentos de saúde e veraneio, e muitos voltaram para se aposentar à beira-mar. O problema é que esse clichê apaga tudo o mais, inclusive contradições sérias. Envelhecer bem em Santos depende muito de poder aquisitivo, e a cidade mais vertical do país concentra ilhas de calor intensas justamente onde mora a população mais vulnerável.
O dado mais preocupante nem é a quantidade de idosos: é o saldo vegetativo negativo desde 2020, com mais mortes do que nascimentos, e o saldo migratório também negativo. A população caiu de 422 mil habitantes em 2018 para 417 mil em 2023.
Santos precisa conversar com seus jovens tanto quanto cuida dos seus aposentados. As duas coisas não são excludentes. A mentira está em fingir que só uma delas existe.
Cid Cidoso: o santista que mentiu para o mundo
Santos produziu um dos maiores profissionais da mentira da internet brasileira. Maurício Cid, o Cid Cidoso, é o criador do Não Salvo, marco histórico da internet mundial. Ele é tão bom em mentir que nasceu no dia 1º de abril (parabéns).
Uma de suas trollagens mais famosas envolveu o Santos FC. Um leitor avisou Cid sobre uma brecha no site do clube que permitia publicar notícias. Ele resolveu postar uma matéria afirmando que Paulo Henrique Ganso havia sido vendido para o Corinthians. O print viralizou. A grande mídia noticiou, não a suposta transferência, mas a ação do “hacker”.
Mas a maior obra veio em 2014, durante a Copa do Mundo no Brasil.
A Coreia do Norte que ganhou a Copa
Meses antes do torneio, Cid foi alimentando discretamente um canal no YouTube que fingia ser um noticiário oficial da Coreia do Norte. Os vídeos mostravam a seleção norte-coreana goleando todo mundo, 4 a 0 contra os EUA, 7 a 0 contra o Japão, avançando para a final contra Portugal com uma tranquilidade desconcertante.
A produção era cuidadosa o suficiente para confundir. Veículos de imprensa do mundo inteiro noticiaram o conteúdo como se fosse real. A trollagem chegou tão longe que Cid recebeu uma correspondência da embaixada norte-coreana. Uma experiência que ele descreveu com bom humor, mas que deve ter gerado alguns minutos de suor frio e de reavaliação de escolhas de vida.
O Não Salvo já não está no ar, mas Cid Cidoso permanece como prova de que Santos tem vocação histórica para a mentira bem-feita. Nasceu aqui, no dia certo, com o talento exato.
Dia da mentira
Santos mente desde 1896, quando transformou um vazamento de gás em vulcão turístico com direito a bonde especial e pamonha. Mente na padaria toda manhã, com um pão que não tem o ingrediente do nome. Mente na orla, com um jaguar que passou décadas fingindo ser leoa sem que ninguém se importasse muito.
Mas talvez a mentira mais perigosa seja a que a cidade conta sobre si mesma: que é só praia, só aposentados, só passado.
Santos é muito mais do que isso. E quem mora aqui já sabe.