Texto porLudmilla Rossi
42 anos - Santos
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Santos precisa de um Parque Tecnológico?

Um Parque Tecnológico é um ambiente geográfico onde várias organizações e empresas de segmentos diferentes estão juntas para fomentar inovação e, por consequência, o desenvolvimento econômico de uma região. Geralmente a tecnologia é o elo de ligação entre quem está presente no parque.

Logo aviso: este texto é tão longo quanto a espera dos cidadãos pelo projeto do Parque Tecnológico em Santos. Você pode ler aqui ou ouvir no Spotify através do player acima ou deste link.

Estou acompanhando a narrativa do governo municipal de Santos desde 2013 e acho que chegou a hora, mais do que nunca, de termos algumas respostas para essa pergunta: Santos precisa de um Parque Tecnológico?

Em alguns momentos com mais intensidade, outros menos, eu estava lá, fazendo reuniões com as equipes da Fundação Parque Tecnológico de Santos, ouvindo os sonhos e as histórias que estavam no papel. No momento em que escrevo esse texto, no início de 2023, estamos falando de mais de uma década de espera.

Deitamos em várias justificativas de bastidores e a fala “o poder público é assim mesmo” talvez seja a mais recorrente. Minha intenção com esse texto não é desqualificar nenhum profissional que esteve, está ou estará envolvido nessa história. Muito menos construir um discurso antagônico sobre esse projeto finalmente decolar. É algo que interessa não apenas a mim, mas a você e as próximas gerações que escolherem morar em Santos.

Meu objetivo é compilar algumas informações para quem talvez nem saiba que Santos tem essa iniciativa. Além de entendermos como estamos sendo impactados(as) com coisas que acontecem na política. E também com as coisas que não acontecem.

Para que ninguém acredite que há uma agenda oculta nesse texto, preciso me apresentar. Sou empreendedora na área de tecnologia desde 2001. Fiz meu primeiro site aos 14 anos de idade e fundei meu primeiro negócio aos 19 anos anos junto com meu parceiro de vida Mauricio Matias. Falar de tecnologia em Santos era basicamente falar de “manutenção de informática” e não de Internet e produção de tecnologia para ela. Foi uma fase divertida, porque nós explicamos para os empresários mais experientes todas as maravilhas daquele novo mundo.

Dez anos depois, eu fundei o Juicy Santos com a jornalista Flávia Saad. Começamos com uma motivação parecida, a gente entendia bem como era criar conteúdo para os canais digitais (hoje todo mundo faz isso, mas não era a realidade em 2011) e achávamos que Santos merecia um canal novo, que apresentasse novas vozes para a cidade.

Em 2018, por conta de uma extensa colaboração com um projeto voltado à oncologia, ganhei um um prêmio de impacto social e tecnologia em Viena, na Áustria. Nessa ocasião visitei hubs, eventos e me conectei com inovadores sociais que usavam a tecnologia para gerar impacto. Minha vida mudou aí. Em 2020, minha carreira já havia me levado para o lado da inovação. Afinal, sempre usei o lucro líquido dos meus negócios para que novos projetos emergissem. Juicy Santos, TIP, Alpha Beat Cancer, Fruits’n Tails são apenas nomes de projetos assim, feitos em Santos e que ganharam visibilidade na mídia local, nacional e internacional.

Quando a pandemia estourou, comecei a estudar o que Santos estava oferecendo em termos de ambientes de inovação porque minha própria empresa e meu time iriam demandar mais ecossistema, tanto para ocuparem fisicamente, como para se plugarem.

Não havia solução em Santos naquele momento para atender a uma equipe de aproximadamente 50 pessoas que já não viam tanto brilho em trabalhar isoladas. E como não havia algo pronto, eu hoje sou CEO do Juicyhub, iniciativa que lidero e fundei. Mas essa conversa não é sobre mim ou sobre a minha carreira.

Precisei contextualizar porque sou uma mulher empreendendo em tecnologia e inovação.

E como já estou bastante acostumada com tentativas de descredibilização ao longo das minhas duas décadas de trajetória, é melhor eu me antecipar: o Parque Tecnológico teria sido bom para todos os meus negócios, inclusive antes da pandemia. Hoje eu sigo com a pergunta: Santos precisa de um Parque Tecnológico?

Como tudo começa

Foi em julho de 2012 que o estado colocou dinheiro no que deveria ser o Parque Tecnológico de Santos. Segundo informações do Desenvolve SP, o convênio entre o Governo do Estado de São Paulo e a Prefeitura Municipal de Santos aportou R$ 10 milhões de reais para a obra de construção do prédio do Parque Tecnológico de Santos. Além desse dinheiro, a Prefeitura de Santos ficou responsável por colocar mais R$ 4 milhões, segundo o site do Desenvolve SP. O site da Prefeitura de São Paulo aponta para R$ 6 milhões.

Em 2020, a prefeitura de Santos noticiou em seu site que a obra “contou com investimento de R$ 7,9 milhões provenientes de convênio com a Secretaria Estadual Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Outros R$11,9 milhões foram viabilizados por meio de um Termo de Responsabilidade de Implantação de Medidas Mitigadoras e/ou Compensatórias (Trimmc) firmado entre a Prefeitura e a empresa Ecoporto”.

Pergunta de pessoa leiga: esses valores são somados ou a estratégia de financiamento foi ajustada no meio do caminho?

Em 2022, mais um investimento via Trimmc foi anunciado, desta vez em parceria com a Bracell. Para quem nunca ouviu falar de Trimmc, esse conjunto de letras significa Termo de Responsabilidade de Implantação de Medidas Mitigadoras e/ou Compensatórias. É usado para que grandes empresas entreguem contrapartidas referentes a grandes empreendimentos para o poder público. Vale dizer que esses acordos não se limitam à questão do Parque Tecnológico. Em Santos, parcerias desse tipo já foram usadas para a construção de escolas e policlínicas, por exemplo.

Isabela Carreri - Obra do Parque Tecnológico de SantosCrédito da imagem: Site ds Prefeitura Municipal de Santos – Isabela Carrari

No caso do Parque Tecnológico, um novo Trimmc foi assinado em 25 de março de 2022. São R$ 3,9 milhões de reais que serão utilizados para “rechear” o empreendimento público.

Até o início de 2023, o prédio possui apenas um dos andares em funcionamento. Nos demais ainda não há climatização ou a parte elétrica pronta, e essa é a principal razão do acordo. Climatizar, mobiliar, instalar iluminação e eletricidade, equipamentos, entre outros elementos essenciais para, finalmente, podermos dizer que temos aqui um Parque Tecnológico vivo e público.

A linha do tempo é sinuosa e confusa. Mas, simplificando as informações que estão disponíveis nos sites oficiais, as datas são as seguintes:

4 de julho de 2014 – Início da obra
5 de agosto de 2019 – Cinco anos depois, a prefeitura anuncia que a obra está em 70%
5 de outubro de 2020 – Seis anos e três meses depois, a prefeitura anuncia a entrega

Em 2022, o novo Trimmc e programas focados em startups aconteceram, como o Startup Marine Lab do Sebrae-SP – uma iniciativa importante para desenvolver o ecossistema além da obra. Mas falaremos disso mais para a frente.

Cidades e seus parques

Em 2012, quando o acordo do Parque Tecnológico de Santos foi firmado, outras 28 cidades estavam com projetos de desenvolvimento de parques tecnológicos, cinco delas com credenciamento definitivo. Santos está nessa lista junto com São José dos Campos, Sorocaba, Ribeirão Preto e Piracicaba.

Como mencionei anteriormente, a obra de Santos ficou pronta depois do início da pandemia, em outubro de 2020.

Mas vale olharmos para a situação das outras cidades:

São José dos Campos começou seu movimento de inovação em 2005, iniciando a operação do parque tecnológico em 2006. O projeto ganhou novas perspectivas a cada ano, com muitas empresas e universidades associadas ao projeto. Desde 2018, há por lá o Nexus, ambiente para conexão de startups, pequenas, médias e grandes empresas, investidores e instituições de ensino, com programas de aceleração e incubação.

Sorocaba inaugurou seu parque tecnológico em 2012, totalizando 12 mil metros quadrados que ficaram prontos em um ano e meio, com um investimento polpudo de dinheiro público. Um dos acertos do ecossistema de Sorocaba foi conectar indústrias pesadas, ciência e ao mesmo tempo fomentar eventos para educar quem investia em imóveis na cidade para também investir em empresas de tecnologia. Porém, isso demorou a acontecer e o parque de lá também “foi só um prédio” por algum tempo. É gerido pela Inova Sorocaba.

Piracicaba tem seu parque tecnológico funcionando desde 2012. Em 2016, se firmou como ecossistema de inovação do agronegócio com o lançamento do movimento Agtech Valley – Vale do Piracicaba. Em 20 de outubro de 2022 a SEMDETTUR – Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo inaugurou o Hub Piracicaba, uma plataforma pública municipal de apoio à inovação e empreendedorismo. O foco é abrigar negócios em estágio inicial, estimulando a maturidade e fortalecimento do ecossistema local e regional em verticais estratégicas para expansão contínua de seu Parque Tecnológico. Piracicaba, no interior de São Paulo, sem dúvidas, já é um ecossistema consolidado, diversificado, vivo e pujante. E outro grande acerto: o entorno é pensado para usos mistos também.

Ribeirão Preto inaugurou o Supera (nome do seu parque tecnológico) em 2014. Com a chegada do ONOVOLAB por lá o ecossistema da cidade ficou ainda mais vibrante. O Supera também mapeia e gera o histórico da evolução do ecossistema de inovação local.

Todas essas cidades avançaram substancialmente nos últimos anos.

Claro que cada cidade tem sua característica e os investimentos são diferentes. Mas, toda vez que eu penso no ecossistema de inovação de Santos e no nosso Parque Tecnológico, questiono: por que ainda estamos nessa situação?

Por que chamamos de Parque Tecnológico de Santos o que deveria ser o Parque Tecnológico da Baixada Santista, já que a maior parte do dinheiro veio do Estado?

Por que estamos tão preocupados em ostentar obras e metros quadrados e menos em investir no desenvolvimento do que é “invisível”, que é o que mais importa na nova economia?

Por que não fizemos como as outras cidades que mantiveram de maneira robusta iniciativas tão importantes como a Incubadora de empresas de Santos, iniciada em Santos em 26 de setembro de 2002? Que você pode ver nesse vídeo:

O prédio do Parque Tecnológico de Santos

Em 5 de fevereiro de 2021, a prefeitura de Santos publicou o vídeo abaixo destacando a metragem quadrada e um número impressionante de andares. Mas, conforme as imagens mostram, ainda é um prédio pouco ocupado, onde não se tangibiliza a inovação.

Uma das cenas desse vídeo me chamou a atenção, no sexto andar há uma frase simpática: “Olá, como podemos ajudar?”.

Logo abaixo dela vemos um clássico: o sincretismo dos móveis que sobraram de outros lugares.

Parque Tecnológico de Santos

Essa é uma metáfora que precisamos explorar: ideias velhas dentro de um prédio novo.

Colocar num ambiente de inovação algo que “sobrou” é dizer que não estamos correndo riscos ou tentando achar novas soluções e sistemas. Apenas estamos reaproveitando algo que não estava sendo usado, sem nem ao menos nos dar o trabalho de tentar atualizá-lo para ele poder se adequar melhor ao novo espaço. Esse detalhe é pequeno mas é muito simbólico.

Nós temos o prédio e a vontade. Só não temos o mais importante, o recheio que é forte o suficiente para atrair os talentos. Eu não sou ingênua de acreditar que móveis novos farão as pessoas quererem trabalhar ali. Mas eu tenho certeza que um ambiente pode inspirar muitas coisas, boas ou ruins. Sabe o que realmente funciona para o sucesso no desenvolvimento de uma cidade? Pensar em arquitetura e desenvolvimento de ecossistema.

Em 2023, o cenário ainda é de esperança

Das 5 cidades cujo convênio foi firmado com o governo do Estado de São Paulo, não há dúvidas que Santos e a Baixada Santista estão atrasadas.

O Parque Tecnológico por vezes é apelidado de “elefante branco” e olhado com descrença por alguns empreendedores na área de tecnologia. Outros seguem esperançosos com o desejo de apagar o passado moroso e contar com um movimento de aceleração em 2023.

Nesse momento é inadmissível que nada aconteça.

E aqui coloco a minha linha do tempo com esse projeto.

Em 2013 fui procurada pelo time do projeto. As obras ainda não haviam sido iniciadas, mas vi o projeto com excelentes olhos. Minha objeção era que eu havia recém reformado meu escritório, um espaço de 450m2 na Rua. Carvalho de Mendonça, na Vila Matias. A conversa basicamente era mostrar que poderíamos usufruir de um benefício fiscal caso quiséssemos nos instalar no parque. A ideia era assinar um termo de interesse. Perguntei quando as obras ficariam prontas e a previsão era 2014.

Porém, as obras só começaram no dia 4 de julho de 2014. Na época, o governador Geraldo Alckmin, eleito vice-presidente do país em 2022, disse o seguinte:

“Estamos olhando para o futuro com o início do Parque Tecnológico, que unirá universidades, empresas e institutos de pesquisa. Santos estará na vanguarda da inovação tecnológica, do avanço e da ciência para o desenvolvimento”, afirmou o governador Geraldo Alckmin.

Escrevendo aqui, direto de 2023, garanto que isso não aconteceu – e olha que eu fui uma das pessoas que trabalhou bastante pra isso, gerando dezenas de postos de trabalho na área de tecnologia, audiovisual, games e comunicação digital.

Em setembro de 2014, estive na prefeitura junto com outras pessoas da área criativa a convite de Rogério Santos. Na época, Rogério era Secretário de Governo e convocou algumas “mentes criativas” da cidade para apresentar o Inova Santos. O foco da conversa era que a prefeitura iniciaria o pleito para o Selo da Unesco de Cidades Criativas. Eu escrevi sobre essa reunião e as perguntas que ficaram neste post.

Aqui vale dizer que a Prefeitura Municipal de Santos fez muitos avanços no tema da economia criativa. O cenário do audiovisual também caminhou, com editais de maior porte sendo lançados para fomentar na prática esse vetor criativo da cidade.

Em 2015, mesmo ano que Santos foi nomeada pela Unesco como cidade criativa na área de cinema, fiz mais uma reunião.

Em 2016 também.

Em 2017, abriram um edital permanente para credenciamento das empresas. Esse é o documento que define a visão daquela época sobre o que seria o Parque Tecnológico de Santos.

Depois disso, não lembro exatamente quando parei de abrir agenda para essa pauta por uma simples razão: nunca foi fácil manter um negócio na área da nova economia aqui em Santos. E, com sérias limitações de tempo e tendo que definir prioridades, não engajei no tema.

Em 2019, atores importantes do ecossistema de inovação se reuniram na antiga sede da Spacemoon, que chegou a ser um dos primeiros clusters de startups da cidade. Os primeiros encontros do Caiçara Valley aconteceram por lá.

Voltei a mergulhar no tema em 2020, quando de fato precisei entender o que estava acontecendo. Nesse mesmo ano, não fosse a pandemia, Santos teria recebido o Encontro Mundial das Cidades Criativas da UNESCO, fruto da reunião de 2014. Em 2022, quando foi possível realizar o evento, o time da prefeitura entregou um evento impecável.

Em 2021, foi realizado o programa Start, também em parceria com o Sebrae-SP. As startups selecionadas foram X-Training Brasil, SOS Plantão, Menzani Chapas Ecológicas, GMEI, Prissi Lab, Primeiro Minuto, TRASHTECH, Venha e Faça, SomaHelp, Unievento, LAFES, TIDALWATT, MayDay, Pump Produtora Digital, Portfolio Ideal, Contemplare Imóveis, LUA, Xchange Club, Larissa Karan, Porto Pra Mim, Vêndola, PatuVê, Dum Aprendiz, Octocon, EDS Consultoria, Pagcar Online, GO Rede, Fair&Sale, Hexagon Pro, Gravata Online e FIGHT METER, segundo site da Prefeitura Municipal de Santos.

Em 2022 foram várias conversas e atividades. O grupo Caiçara Valley e alguns interessados em articular o ecossistema chegaram a fazer reuniões no Juicyhub, que abriu espaço para essas pessoas e para eventos como o Dia Mundial da Criatividade, Startup ON (ABStartups) e StartupON (Sebrae).

Dia Mundial da Criatividade no Juicyhub - foto por Yara TomeiDia Mundial da Criatividade 2022 aconteceu no Juicyhub – Foto por Yara Tomei

Em paralelo, no andar em funcionamento do parque aconteceram iniciativas espaçadas. A mais interessante sob a ótica cidadã foi a parceria com a ISGame (International School of Game) do professor Fabio Ota através do projeto Cérebro Ativo, em que pessoas 60+ aprenderam metodologias para o desenvolvimento de games. A ideia não é transformá-los em desenvolvedores, mas estimular a cognição através da tecnologia.

A narrativa

Até agora não falamos de algo importante: algumas pessoas justificam a falta de decolagem do Parque Tecnológico de Santos por conta do pré-sal, o suposto milagre econômico que a cidade viveu entre 2009 e 2013.

Essa foi a narrativa de 2009, quando o Parque Tecnológico de Santos era um plano remoto, até 2013, quando era um plano mais concreto. Ele seria um “empreendimento voltado aos setores de petróleo, gás natural e TIs”.

Com toda a narrativa envolvendo o pré-sal, na qual meu lugar de fala é inexistente, investimentos foram cancelados na cidade, o centro histórico de Santos não cumpriu sua previsão, torres da Petrobrás que subiriam não levantaram, além de várias outras profecias não se cumpriram. Na época, falava-se que 20 mil postos de trabalho seriam abertos por aqui e o crescimento imobiliário foi gigantesco. Mas, assim como a capa da The Economist com o Cristo Redentor decolando e depois em queda livre, a imprensa falou de Santos chamando-a de “bola da vez” e depois de “decadência à beira-mar”.

Capas Revista Veja Santos A Bola da Vez

Ainda há ressentimento sobre o pré-sal manifestado em coisas que não aconteceram. Tenho pouco a dizer sobre a ligação dos fatos, mas muito a dizer sobre os millennials (pessoas nascidas aproximadamente entre 1980 e 1999) que foram basicamente expulsos da cidade.

Sem oportunidades de emprego compatíveis com o custo de vida, esses santistas tinham duas opções: morar na estrada em longas horas de deslocamento através dos fretados ou sair daqui e viver uma relação platônica com a cidade, consumando o amor só nos finais de semana. Muitos profissionais da área de tecnologia e da área de conhecimento tiveram essa experiência, tornando-se expatriados econômicos de Santos.

O pré-sal tornou a relação dos “jovens” com a cidade ainda mais agridoce, valorizando os imóveis de maneira radical e deixando muitos millennials nascidos em Santos fora do jogo da casa própria.

Alguns dados preliminares do Censo apontam que Santos foi a única cidade da Baixada Santista que perdeu habitantes. Já Praia Grande ultrapassou São Vicente no número de habitantes. No total a Baixada Santista ganhou mais do que uma Cubatão em população.

Ainda é cedo para conclusões, mas algo já aponta para que o aumento do custo de vida expulse ainda mais famílias de Santos em direção a outras cidades da região. Ou mesmo outras cidades do estado.

Esse processo de trânsito e mobilidade urbana prejudicada, vida cada vez mais cara, comércio local desaparecendo e afastamento da população das áreas centrais podem ser resumidos na palavra gentrificação. Gentrificação é a transformação dos ambientes urbanos causado, entre outros fatores, pelo aumento no custo de vida da região e a especulação imobiliária.

Esse não é o tema central deste texto, mas quando falamos de Parque Tecnológico de Santos, há uma relação direta entre como pensamos a cidade e o como o nosso olhar metropolitano se desenvolve.

Sempre que pensei no parque eu pensava no entorno. Lembro que em 2013, em uma das reuniões que tive, meu comentário foi: “mas eu gostaria de trabalhar em um lugar onde eu possa ir de bicicleta”. Pode parecer um comentário juvenil demais, e garanto para você que há uma década atrás eu não sabia 1% do que sei hoje sobre o tema, mas eu já manifestava ali a importância do acesso para um lugar que transbordasse inovação.

Essa é uma discussão profunda sobre a localização do espaço e a sua necessidade. A esperança é que ele melhore o entorno da região. Mas sabemos que um único empreendimento não é capaz de fazer isso, e essa é uma história recorrente no centro de Santos. Hoje, infelizmente, a área enfrenta um de seus piores momentos em termos de vacância.

Existe uma premissa bastante complicada atualmente quanto à acessibilidade do parque: para que as pessoas se tornem habitués do local é necessário ir de carro, aplicativo de mobilidade ou linhas de transporte público. Em 2020, estava prevista que a segunda fase da obra do VLT ficaria pronta em 30 meses, seria entregue em 2023. Porém, isso deve acontecer apenas em 2025. Ou seja, por pelo menos dois anos, poucas pessoas terão acesso fácil e rápido ao projeto.

Outro desafio é não termos um entorno caminhável e os “olhos na rua”, teoria popularizada por Jane Jacobs, uma das vozes mais influentes do pensamento urbanístico mundial. Jane sempre defendeu vizinhanças com usos mistos, para que a rua tenha movimento em todos os períodos do dia. Com ruas vivas, reduz-se a insegurança. Essa conversa pode ser algo banal para quem vive dentro de seus próprios carros. Mas ela é essencial para mulheres, para jovens, empreendedores em início de carreira, para nômades digitais e uma infinidade de pessoas que compõem 64% da força de trabalho global atualmente: os millenials e genZs.

Discutir o Parque Tecnológico e os usos do seu entorno é uma das prioridades em um mundo que está bem diferente daquele idealizado em 2014. As relações de trabalho mudaram, a escalada da tecnologia é diferente e Santos também está diferente.

A pandemia abriu uma janela importante para a cidade, para repatriarmos nossos talentos e, principalmente, para implantarmos estratégias para que migrar de Santos seja uma escolha e não uma necessidade.

E, para isso, precisamos ir além do óbvio.

Um parque do Porto?

Mais uma vez um alerta crucial: não estou aqui para negar a importância, relevância e protagonismo do Porto de Santos. Eu tenho certeza absoluta que o maior porto da América Latina é um ator essencial para que o ecossistema de inovação da nossa região se desenvolva.

Porém, aqui é fundamental resgatarmos um dos principais autores da área de inovação: o professor de Harvard Clayton Christensen, autor do consagrado livro O Dilema da Inovação.

A tese de Clayton, que influenciou nomes como Steve Jobs e Jeff Bezos, afirma que empresas são vítimas do próprio sucesso. Elas acabam não inovando porque, afinal, tudo está dando certo. E acabam não assumindo os riscos e erros necessários para a criação de algo novo e melhor. Clayton também escreveu o livro O Paradoxo da Prosperidade: Como a Inovação é Capaz de Tirar Nações da Pobreza, que em suma defende uma nova estrutura para o crescimento econômico baseado no empreendedorismo e na inovação criadora de mercado.

Parece que o parque tecnológico migrou sua narrativa do óleo e gás para a questão logística e portuária. Digo isso porque o primeiro programa dele, realizado em conjunto com o Sebrae e a ABStartups, foi o Startup Marine Lab, realizado em 2022 para startups nos segmentos de logística e soluções portuárias ou de impacto ambiental destas operações.

As startups selecionadas foram MauiTech, Sisgrain, QTH, Tidalwatt, Vanhall, Branqs, SOS Plantão, Botslab, Neokohm, Menzani, FrotaFlex, DocsApp, Infinito Mare, SmartDry, Hexagon Pro, Pag.car Online, Delta Ambiental, iGO Logística, M2DI Biossegurança e Obra Lean.

Para que Santos tenha um parque tecnológico relevante, é fundamental a criação de um ambiente que vá além da “única” narrativa econômica que Santos tem. Reforçadas pela mídia, como nas capas da Veja São Paulo sobre o porto.

Essa é uma narrativa hegemônica, que vai seguir perpetuando a imagem de uma Santos elitista, masculina, branca e 45+. Se você acabou de revirar os olhos, busque imagens desses eventos e veja com os seus próprios.

Estamos em 2023 e criar um ambiente favorável, acolhedor, diverso e inclusivo não é um diferencial. É questão de sobrevivência para os negócios e para a cidade.

Nosso ecossistema ainda é frágil demais. Por isso, é preciso desenvolvermos uma visão abrangente sobre o entorno e incluir novos atores capazes de trazer inovação, como uma prática econômica transversal, e não uma caixa fechada para solucionar os problemas do porto.

Ainda temos que resolver a relação porto-cidade. Conversando sobre isso, eu descobri uma palavra que expressa esse sentimento: o termo hinterlândia, que significa “atrás do porto”. Acho que a gente precisa ser uma cidade que vá além do porto, visto o nosso potencial de atrair talentos.

Duas teses econômicas especulam sobre o que é mais decisivo para atrair talentos. Empregos ou apelo cultural? Esse debate hoje é dominado por estudiosos americanos e eles apresentam o seguinte dilema: de um lado temos a atratividade e competitividade das cidades através da economia cognitiva-cultural em geral e sua atratividade para os trabalhadores do conhecimento. Do outro temos a competitividade das cidades através de grandes oportunidades de emprego (economia dos empregos), lideradas pelas corporações. Em Santos, essa narrativa é do porto.

É uma discussão eterna saber se as pessoas seguem os empregos, ou se os empregos seguem os talentos. Acho que aqui em Santos nós já aprendemos a lição dos “empregos do pré-sal” e do volume de cérebros que seguimos exportando.

Como o Parque Tecnológico de Santos pode mudar esse jogo?

O parque, na minha ótica, pode reajustar a régua profissional da cidade. Eu não tenho todas as soluções, não tenho formação em gestão pública e nem sou uma grande apreciadora do jogo político. Mas coloco aqui, como profissional da área de tecnologia e inovação trabalhando em Santos há mais de duas décadas, a minha visão explícita.

Basicamente da seguinte forma, em ordem de prioridades, Santos e o parque tecnológico precisam de:

  1. Diversidade socioeconômica
  2. Governança forte e diversa
  3. Formação para a nova economia
  4. Redesenho e integração do entorno
  5. Leis
  6. Investimento direto

Diversidade socioeconômica

Não podemos depender de uma só vertical, muito menos da vertical portuária, logística, seja lá qual for. Esse é um fato. Lembra das cinco cidades que comentei no começo do texto? Todas estão buscando a narrativa da diversidade para não serem conhecidas por uma única vertical. Aqui na região temos cidades que têm pouca relação com o porto. Se for confirmado que a maior parte do dinheiro que construiu os metros quadrados do Parque Tecnológico “de Santos” é do Estado de São Paulo, a Baixada Santista precisa fazer parte da narrativa de inovação. Então o descolamento da narrativa do porto é ouvir o chamado dos talentos e de todas as regiões.

Governança forte e diversa

Para que um projeto como um parque tecnológico não sofra agressões quando governos mudarem de mãos. Parques tecnológicos que dão certo não podem ser projetos 100% ancorados em políticos e suas agendas. Não podem ter em suas lideranças pessoas que não vivem o contexto. Precisam de representantes da sociedade, que tenham experiência em inovação e tenham nascido profissionalmente na nova economia. Preferencialmente que já tenham track record na área. Critérios claros de tomada de decisão, composição, regras que minimizem a burocracia. E tenha a composição de um conselho não hegemônico, já que as zonas mais criativas do mundo são repletas de diversidade de gênero, sociais, culturais, raciais, entre outras. Não acredita? É só olhar a história do Vale do Silício, nos Estados Unidos.

Formação para a nova economia

Desde o primeiro negócio que fundei até o primeiro esboço do Juicyhub, eu vejo que essa deveria ser uma prioridade da cidade. Como cidadã, puxei uma parte dessa responsabilidade para mim. Entre 2011 e 2019 treinei, através do TIP, mais de 2000 pessoas em assuntos relacionados à nova economia e economia criativa. De maneira bootstrap, sem patrocínio ou apoio, foram mais de 130 eventos e efeitos que perduram até hoje. Isso me deu muita base para desenhar o Juicyhub, mas ao mesmo tempo é possível ver uma lacuna imensa.

Redesenho e integração do entorno

Não sou urbanista e nem gestora pública, como já apontei. Aqui precisamos de ajuda profissional e batalhar por essa agenda. Sem um entorno rico de fora pra dentro e de dentro pra fora, o tamanho do esforço para a ocupação do parque será imenso. O VLT é uma das prioridades da Prefeitura Municipal, já está claro. E o que mais? A minha aposta aqui seria trabalhar o prédio do Parque Tecnológico de Santos como uso misto. Quase todo mundo com quem comentei reagiu da seguinte forma: “isso é impossível”. Aqui eu posso engatar uma frase de uma música que os caiçaras conhecem bem: “o impossível é só questão de opinião”. De opinião e de mexer onde ninguém quer mexer, Chorão.

Leis

Que leis precisam ser desenhadas e ajustadas para que o ambiente de inovação da região metropolitana da Baixada Santista passe a existir no mapa brasileiro? Que leis e benefícios precisam ser aplicados? Quais áreas devem ser realmente cobertas por benefícios tributários? Esse ponto é zero meu lugar de fala: mas sempre que uma nova ideia surge existe automaticamente uma lei que justifica o seu não acontecimento.

Investimento direto

Será que é possível se criar um fundo municipal para se investir em startups? Assim como Santos tem seu Promifae e seu Promicult, além de outros programas, será que é possível desenhar modelos municipais que sirvam para investir em ideias com potencial? Devido à fragilidade do ecossistema local, esse deveria ser um dos caminhos. Os programas de aceleração não vão mexer os ponteiros só com formação e sem investimento.

Como trazer visibilidade para os programas que já existem e talvez a comunidade local não saiba? Organizar as informações e propor o surgimento de linhas que invistam direto em startups em fase embrionária deveria ser uma prioridade. Formar investidores também. Hoje, por conta de uma cultura patrimonialista, tem muita gente com o dinheiro imobilizado em Santos.

O próprio prédio do parque tecnológico segue essa lógica, mesmo que de forma involuntária. Boa parte dos milhões investidos pelos governantes foi para a infraestrutura dele e poucos, bem poucos, para o desenvolvimento do ecossistema responsável pelo seu futuro.

Uma experiência que vivi em novembro de 2022 quando fui fazer o pitch do Juicyhub no TechDay, o maior evento de startups dos EUA. Durante a semana em que estive lá, participei de uma agenda organizada pelo Consulado Brasileiro em Nova York. Vi iniciativas sensacionais e quero destacar uma delas aqui. O Estado de Nova York, há alguns anos, criou o New York Ventures, em que o próprio Estado investe ou co-investe em startups de base tecnológica. O fundo foi tão bem sucedido que já fez até exits. A startup Artemis foi adquirida pela iUNU, a GiveGab foi adquirida pela EveryAction, a Seamless Docs pela Kofile, entre outros exemplos.

Enfim

Santos precisa de um Parque Tecnológico?

Santos e a região metropolitana precisam de um parque tecnológico que não seja somente verticalizado no porto. A narrativa de inovação precisa ser diversificada.

Santos e as cidades da Baixada Santista, sendo Santos quem vai puxar esse bonde, precisam de uma visão ampliada sobre inovação. E precisam deixar essa agenda clara para todos os aliados que queiram trabalhar para esse futuro.

Nós sabemos que esse capitalismo extrativista e de curto prazo não faz a conta fechar mais. Se só tivermos ele, não alcançaremos o futuro que a cidade tanto deseja.

E esse futuro precisa atracar logo.