Ludmilla Rossi
Texto porLudmilla Rossi
38 anos - Santos

Economia criativa santista, a Unesco e uma câmera no bolso

Esse post é pra você: cineasta, aspirante a cineasta, publicitário, roteirista, desenhista, humorista, ator, escritor, escultor, ilustrador, músico, artesão, contador de histórias, historiador, jornalista, livreiro, designer, animador de festas, blogueiro e folião da Internet. Se você já produziu qualquer conteúdo e postou em algum lugar, SIM, esse post é pra você também.

Estive hoje na Prefeitura de Santos para ouvir (e inevitavelmente falar) sobre um assunto que permeia minha vida há bastante tempo: a economia criativa.

Cheguei na PMS por volta de 15:10. A reunião que estava marcada para as 15:00 começou com um atraso silencioso de 40 minutos. O chefe de gabinete Rogério dos Santos apresentou uma série de dados sobre a cidade, a definição básica de economia criativa e o projeto Inova Santos.

E o que eu estava fazendo lá, afinal?

Minha história com a economia criativa começou em 1996 quando comecei a fazer sites. Eu transformava o pouco conhecimento que tinha em pequenos projetos onde as pessoas me pagavam por isso. E comecei a entender isso como fonte de gerar riqueza. Em 2001 comecei a empreender e abri minha primeira aventura no mundo do empreendedorismo: a Mkt Virtual, que sempre viveu da economia criativa. A Mkt Virtual cresceu e precisávamos de mais gente. Precisávamos criar cultura local, afinal optamos por ficar em Santos e desenvolver a (nossa) economia.

Por mais desafiador que isso fosse, entendemos que era importante, necessário e principalmente era o que queríamos. Com a nossa expansão passamos a pensar mais no que circundava nossas iniciativas e motivações. Criamos o TIP, desde o início pensado para estimular a economia criativa local (aliás, o único projeto de Santos no prêmio Brasil Criativo). E o nascimento do Juicy Santos, esse cafofo digital no qual você está nesse momento, foi o desdobramento inevitável de toda essa ansiedade por fazer informações da economia criativa circularem.

Acho que fui convidada por insistir loucamente em Santos.

E hoje, o evento começou com a seguinte introdução:  Santos é a cidade mais verticalizada do Brasil.

Nesses bloquinhos de concreto dorme uma população de aproximadamente 180 mil holerites (número de empregos formais da cidade).

Formando assim a décima sétima maior economia desse Brasil que cicatriza.

Vou pular a parte que falou-se do Neymar, Pelé & cia e focar em fatos curiosos colocados pela prefeitura na reunião. Santos é naturalmente criativa porque foi:

  • 1a Santa Casa do Brasil
  • 1a cidade a ter VLT (isso é real?)
  • 2a cidade a ter bonde.

(São apenas fatos legais e históricamente pioneiros, lembrando que vanguarda e economia criativa não necessariamente coexistem)

O conceito de economia criativa surgiu na Austrália na década de 90, se popularizou após a normatização inglesa dos 13 setores e ganhou o mundo após o lançamento do livro The Creative Economy: How People Make Money from Ideas em 2001.

Do ponto de vista da prefeitura, Santos já tem um enorme legado para se transformar em uma cidade que realmente seja reconhecida como economicamente criativa. Já possuímos um bom portifólio de cinema na região, sem contar inúmeros exemplos de outras atividades que temos aqui. Infelizmente muitos profissionais santistas precisam “sair de Santos” pra crescer. Permanecer por aqui, especialmente na área criativa era impossível se pensarmos em uma perspectiva de uma década para a frente. Hoje a situação começa a mudar… devagarzinho.

Temos alguns pontos de atenção:

  • Com a limitação de espaços físicos na cidade, a economia criativa acaba sendo mesmo a única saída;
  • O empresariado local sem cultura de serviços, combinado ao número de alunos despejados anualmente pelas universidades culminam em uma política de preços leiloeira – todo mundo precisa de oportunidade e sempre vai ter gente querendo pagar menos;
  • O cinema santista e a publicidade santista não se abraçam (até hoje não entendi o motivo);
  • Lá fora, Santos é porto e futebol.

O Rogério citou Barcelona como exemplo reconhecido pela arquitetura, pelo porto, pelas praias, pelo design e pela produção cultural. O poder da cidade está disseminado. O mesmo acontece com Buenos Aires, que mesmo com todas as crises é reconhecida por uma cidade de alta performance criativa. Quem conhece a publicidade porteña ou já teve oportunidade de assistir longas de diretores hermanos sabe do que estou falando.

Dois exemplos que citei por lá e que são o topo da cadeia da economia criativa santista: o Chorão, sim, o músico que levou e cantou Santos, além de ter filmado parte de O Magnata aqui. E o Afonso Poyart, diretor santista que é referência em direção e pós-produção.

Vários profissionais que atuam na PMS já diagnosticaram as dores da economia criativa local, e apesar disso detectaram que a área do cinema é a que tem mais potencial para que a cidade entre no radar das cidades criativas do mundo.

A ideia (extremamente interessante) é pleitear o selo Unesco Creative Cities. São 40 cidades no mundo que já receberam. Na área de cinema são apenas duas, sendo elas Sidney, Austrália e Bradford, Inglaterra. Santos será avaliada em 69 quesitos para obter esse selo. Como uma eterna otimista, acredito que será fantástico para todos que atuam na área.

Mas, o que precisa ser feito para isso?

É uma grande dúvida que ficou para mim depois de concluída essa primeira conversa.

Alguns itens que eu gostaria de ter visto hoje na reunião (expectativa gerada para uma próxima oportunidade):

  • Qual porcentagem do PIB de Santos corresponde a economia criativa atualmente? No Brasil corresponde entre 16 e 17%. E em Santos?
  • Qual a meta de crescimento desse percentual e em quanto tempo?
  • Quantos profissionais estão formalmente empregados na economia criativa santista?
  • Qual a estimativa de profissionais que estão informalmente alocados / flutuantes?
  • Qual a instituição de ensino/projetos que fomentam a economia criativa local?
  • Quais serão as iniciativas para educar o empresariado local sobre cultura de serviços?
  • Quais empresas e profissionais conseguiram uma posição de destaque nacionalmente e internacionalmente?
  • Quais empresas/instituições de outras indústrias possuem aderência ao tema economia criativa?
  • Quais são as medidas pragmáticas da Prefeitura Municipal para que essa cultura se desenvolva?
  • Em quanto tempo?
  • Quem está disposto a assinar cheques e viabilizar projetos?
  • What’s next?

PS.: Esse é o post inaugural da categoria Economia Criativa do Juicy Santos. Espero que tenhamos muitas razões para que ele seja populado em breve com boas notícias.

Um pequeno passo foi dado. E desejo, com todo o otimimimismo que me cabe que as coisas aconteçam e rapidamente.

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Dilemas da economia criativa: manter a essência sem ser hippie