Cidinha Santiago: a cozinha ancestral e o seu valor
Uma guardiã de memórias e sabores, ela dividiu a bancada de A Cozinha Maravilhosa com Ofélia Anunciato por mais de 30 anos
Ela fez o primeiro arroz aos cinco anos, em cima de um banquinho, num fogão a lenha em Belmiro Braga, no interior de Minas Gerais. Seis décadas depois, Cidinha Santiago é um dos nomes mais importantes da gastronomia brasileira — e segue firme na defesa de algo que nunca deixou de acreditar.
Quando publicamos a história de Ofélia Anunciato aqui no Juicy, muita gente se lembrou com carinho de sua assistente, Cidinha.
Foto: Arquivo pessoal/reprodução instagram
Culinarista, personal chef, palestrante, escritora e criadora de conteúdo, essa mulher de fibra construiu uma trajetória que é, ao mesmo tempo, história da gastronomia e retrato da resiliência de mulheres negras no Brasil. Parceira do chef Edu Guedes há quase 20 anos no programa The Chef, da Band, ela é hoje uma guardiã de memórias e sabores.
De Belmiro Braga para o Brasil
Ninguém vira referência sem uma boa história de origem. A de Cidinha começa antes mesmo de aprender a ler. Com a mãe doceira e o pai padeiro, a gastronomia entrou na sua vida pelo DNA — e se consolidou na prática antes de qualquer teoria.
Aos dez anos, já trabalhava como babá. Aos 18, se mudou para Juiz de Fora para tentar cursar enfermagem e acabou cozinhando para famílias portuguesas, francesas e italianas. Nessa troca de sabores, surgiu seu primeiro livro de receitas, lançado no início dos anos 1980. O projeto chamou atenção e foi assim que Cidinha apareceu pela primeira vez na televisão.
O convite de Ofélia
A mudança definitiva para São Paulo abriu novas portas. Em cursos de gastronomia que fazia paralelamente ao trabalho, Cidinha conheceu o chef e professor Benjamin Abrahão, que a apresentou para Ofélia Anunciato, pioneira dos programas culinários no Brasil e um dos maiores ícones da televisão brasileira.
A convite de Ofélia, Cidinha entrou nos bastidores da Cozinha Maravilhosa, na Band, como assistente. Seis meses depois, a diretora Márcia Saad decidiu colocá-la na frente das câmeras. Cidinha ficou ao lado de Ofélia por nove anos, até o falecimento da apresentadora. No total, acumulou 35 anos de televisão brasileira.
Em 2017, Cidinha foi reconhecida como membro honorário da Federação Italiana de Cozinheiros no Brasil. Em 2021, recebeu o Prêmio Nacional Dólmã. No ano seguinte, venceu o troféu de Micro Influenciadora Digital em Gastronomia.
Atualmente, depois de mais de 3 décadas de TV, ela voltou para a cidade natal, em Minas Gerais, onde compartilha seus conhecimentos sobre cultura ancestral.
A Baixada Santista também tem sabor
Quem visita os mercados da orla de Santos, percorre as feiras da Zona Noroeste ou frequenta os botecos da Vila Mathias sabe que a gastronomia da Baixada Santista carrega muito do que Cidinha defende. A influência africana, nordestina e caiçara se mistura nos tabuleiros de quitutes, nas moquecas de banana-da-terra e nos caldos de pescado que não precisam de cardápio em francês para encantar.
Assim como Cidinha faz em MG, há cozinheiras anônimas em Santos que guardam receitas de gerações, usam ingredientes do mar e do mangue, e sustentam uma memória gastronômica que merece mais luz. Cidinha continua fazendo o que sempre fez: alimentar pessoas de formas que vão muito além do prato.
O resgate ancestral que ela defende não é exclusividade do interior mineiro — é uma urgência que vale para toda cidade portuária, plural e miscigenada como a nossa.