Texto porFlávia Saad
42 anos - Santos (SP)

Não deixe o mar te engolir: e se uma parte de Santos sumir debaixo das ondas?

Esse 2023 não está fácil pra quem mora no Brasil. Foi o ano em que mais sentimos os efeitos das mudanças climáticas até agora. Teve onda de calor, ventos, enchentes e o ano nem acabou ainda. E, antes de encerrar mais esse ciclo, fomos impactados pela notícia de que um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que uma parte de Santos pode simplesmente desaparecer em torno de 2050 graças ao avanço do mar.

De acordo com a publicação da ONU, juntamente com agências especializadas, Santos arrisca ter parte da sua área próxima à costa submersa nos próximos 25 anos. E isso aconteceria também com outras centenas de cidades próximas ao mar, como o Rio de Janeiro.

A expectativa é de que 5% da população que vive em locais de costa seja afetada. Se Santos tem 418.608 habitantes (CENSO 2022), mais de 20 mil pessoas sofreriam DIRETAMENTE as consequências da elevação do nível do mar. Isso sem contar os danos colaterais, que incluiriam não apenas toda a cidade, mas a região metropolitana da Baixada Santista.

www.juicysantos.com.br - nível do mar subindo em santos

Santos pode sentir o nível do mar crescer 27,74 cm até 2050. E até 72,85 cm em 2100. Ou seja, entre 5 a 7,57% do nosso tão amado território pode ficar completamente submerso pela água, por conta do aquecimento global.

“Os efeitos da subida do nível do mar colocarão em risco décadas de progresso do desenvolvimento humano em zonas costeiras densamente povoadas, onde vivem uma em cada sete pessoas no mundo”, afirmou Pedro Conceição, Diretor do Gabinete do Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD.

Sabe aquele que está mexendo com as estações do ano? Sim, ele mesmo! Aquele que os negacionistas dizem que não existe. A saber: as ondas de calor aumentaram 84% no litoral de SP nos últimos 40 anos e tivemos o mês de julho mais quente dos últimos 62 anos em 2023.

Veio aí

No entanto, a previsão de riscos de inundação não é nova. Surpreende apenas quem não acompanha o noticiário com atenção ou não vive, de fato, a cidade.

Como bem lembrou a jornalista, professora e advogada Lidia Maria de Melo:

“Quando a ONU alerta que Santos ficará embaixo d’água até 2050, todo mundo presta atenção. Mas é triste ver jornalismo e autoridades sem memória. Essa notícia é velha e nós já perdemos muito tempo. Faço essas afirmações sem qualquer medo de errar. Em 2008 e 2009, a jornalista Andrea Rifer publicou três grandes reportagens no jornal A Tribuna sobre esse assunto. Lembro-me muito bem, porque eu era editora responsável pelas matérias. Ela entrevistou pesquisadores ligados a universidades santistas, como o oceanógrafo André Belém, Gilberto Berzin e Renan Braga Ribeiro. Além de alertar para o problema, os três apontavam medidas que precisavam ser adotadas pelas autoridades” 

No Instagram do Juicy Santos, publicamos o vídeo a seguir:

E a nossa audiência respondeu com preocupação…

Conversamos com Adriano Liziero, geógrafo e idealizador do projeto Geopanoramas, sobre essa notícia. Se prepara, pois vai piorar…

“Esse é um cenário que considera o nível atual de emissões. Porém, não temos conseguido diminuir o ritmo dessas emissões. Pelo contrário, elas só aumentam. O mundo, na forma de corporações em especial de combustíveis fósseis, tem feito pouquíssimo para isso não acontecer”, explica. 

Cidades submersas

Como já falamos, Santos não será a única cidade a sofrer as consequências de uma política ambiental negacionista e atrasada na contingência do problema.

Guayaquil (Equador ), Barranquilla (Colômbia), Rio de Janeiro (Brasil), Kingston, (Jamaica), Cotonou (Benin), Calcutá (Índia), Perth, Newcastle e Sydney (Austrália) correm o mesmo risco. E não podemos nos esquecer da vizinha São Vicente, que também será afetada. Segundo Liziero, as duas localidades compartilham a mesma bacia e com características muito semelhantes, ou seja, estão em perigo da mesma forma.

E, como sempre falamos aqui, cidades não existem sem as pessoas. O que acontecerá com essas populações nos próximos anos? Alguém se importa? O candidato que você elegeu está mobilizado nesse tema? A empresa para a qual você escolhe dar o seu dinheiro tem essa visão?

Liziero lembra que quem já está sofrendo e sofrerá ainda mais são as populações mais pobres, que vivem em áreas de risco.

Um outro debate que levantamos no Juicy Santos é sobre a questão da economia em Santos, tão dependente do porto. Na nossa visão, uma maior diversidade econômica na cidade é, sim, uma pauta de sustentabilidade urgente. Especialistas já prevêem outros portos pelo Brasil, em latitudes mais baixas, se tornando mais competitivos do que o porto de Santos a médio prazo.

“(A subida do nível do mar) vai afogar as infraestruturas que sustentam o porto de Santos e inviabilizar essa atividade econômica. Claro que isso não é uma novidade. Podem existir tecnologias para minimizar os impactos, mas não são baratas e são difíceis de implementar. Já tem outras questões preocupantes, como o assoreamento dos canais do porto. A partir do momento que essas operações ficam muito caras, qual será a solução econômica para isso? Para o capital, ele deixa de existir e vai se buscar competitividade em outra área”, alerta Liziero. 

Além disso, a questão econômica deve levar a um empobrecimento da população e à fuga dessas pessoas para outros locais. Vale mencionar: as tragédias de deslizamentos, enchentes e alagamentos afetam muito mais quem reside nesses espaços.

O nome disso é racismo ambiental.

Para Liziero, alinhar o zoneamento e o plano diretor das cidades pode ser um caminho emergencial. É preciso retirar pessoas de áreas de risco e proteger a população como prioridade.

O que a cidade está fazendo para evitar isso?

Obviamente, esse não é apenas um esforço municipal. O buraco é, quase que literalmente, muito mais embaixo.

Porém, a Prefeitura de Santos tem algumas ações ligadas aos impactos climáticos, como o Plano de Ação Climática de Santos (PACS), que traz 50 metas até 2030.

A história de Secretaria de Meio Ambiente com as mudanças climáticas começou em 2014. Em contato com pesquisadores da USP, em busca de parcerias, a cidade passou a participar, sem custos, de projeto internacional que possibilitaria capacitação em resiliência climática para municípios. O Projeto Belmont, que agora atende por Projeto Metrópole, envolve 5 universidades: duas no Brasil e havia um início de negociação com o Rio de Janeiro.

Em 2015, Santos, Broward (EUA) e Selsey, na Inglaterra, foram as cidades escolhidas para essa iniciativa.

Santos cedeu servidores, dados e espaços públicos para debate sobre o assunto. O Teatro Guarany sediou a primeira oficina pública no país sobre a percepção da sociedade sobre mudanças climáticas.

Em 2023, Marcos Libório, secretário do meio-ambiente, integra a comitiva do Brasil na COP28. Além da conferência dese ano, ele têm feito apresentações em outros encontros internacionais, como o Fórum pelo Fim da Poluição Plástica no Oceano (Paris – 2021). e a Conferência dos Oceanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em Lisboa (2022), Portugal. Santos, por exemplo, é o único município no Brasil a desenvolver oficinas de adaptação às mudanças climáticas em área de morro. Também desenvolve um projeto de educação ambiental em área de manguezal.

Entre 2016 e 2022, começaram a surgir órgãos e planejamentos nesse sentido. São desse período a Comissão de Mudanças Climáticas, a Comissão Consultiva Acadêmica, o primeiro Plano de Mudanças Climáticas, a Seção de Mudanças Climáticas e o Índice de Risco Climático e Vulnerabilidade Socioambiental. Também  houve a instalação dos geobags na Ponta da Praia – quem lembra? Em 2022, tem início o Plano de Ação Climática de Santos (PACS), uma lei que estabelece 50 metas a serem cumpridas de 2030 a 2050.

Resta saber se até 2050 dá tempo…