Texto porVictória Silva
Jornalista, 28 anos - Santos

Apenas 3,8% das ruas de Santos são batizadas com nomes femininos

Homens. Santos católicos. Cidades brasileiras. Mais homens. Essa é uma maneira simples de resumir o mapa de ruas de Santos.

Em 290.674 km², a cidade é cortada por 1383 vias públicas. Das quais, 1306 são consideradas oficiais pela Prefeitura. Nelas, a maioria tem nome de homens, santos católicos e cidades brasileiras.

Apenas 3,8% das ruas de Santos homenageiam mulheres

Em outras palavras, são 52 ruas da cidade. Que, aliás, é o município brasileiro com o maior percentual de mulheres. De acordo com dados do IBGE, elas são 54,2% dos santistas.

Mas, calma, esse fenômeno não é uma exclusividade #zerotreze.

www.juicysantos.com.br - avenida ana costa ruas com nomes de mulheres em santos

Por todo Brasil e mesmo no exterior, a desigualdade de gênero é evidente entre ruas, praças e avenidas. Em São Paulo, por exemplo, elas são 16% e na Paris de 2015, apenas 2,6% do mapa trazia mulheres. Desde então, algumas ruas foram renomeadas por lá.

“Ainda somos uma sociedade muito machista, patriarcal e androcêntrica, ou seja, que tem o homem no centro”, explica Simone Batista, pedagoga, historiadora e doutora em educação.

Ainda segundo explica, a ausência de homenagem às mulheres é um reflexo disso. E também do fato de que, até algum tempo atrás, mulheres não tinham lugar de fala. E, consecutivamente, eram invisibilizadas. Fazendo com que homens tivessem mais destaque e homenagens por seus feitos.

Como funciona a nomeação de ruas

Em Santos, de acordo com informações oficiais, a nomeação de logradouros pode acontecer por três motivos:

  • Pedido de vereadores;
  • Vontade popular;
  • Pedido do próprio prefeito.

A maioria dos casos, no entanto, se enquadra na primeira opção. No decorrer da história, vereadores sugeriram às homenagens – em geral, a figuras históricas ou de relevância regional do sexo masculino.

Vale lembrar que, atualmente (2023), a Câmara de Santos tem 21 vereadores. Entre os quais estão três mulheres. Em ordem alfabética, são elas: Audrey Kleys (PP), Débora Camilo (PSOL) e Telma de Souza (PT).

Em duas outras ocasiões, a cidade também teve três mulheres na câmara. Nunca mais do que isso. Aliás, em seus 475 anos de história. Apenas quatro foram de administração feminina, o que aconteceu em 1988, com Telma de Souza. Na última eleição, elas não foram sequer candidatas ao cargo.

Homenagem negada

Hoje, a cidade tem mais ruas sem nome do que com nomes de mulheres.

Cerca de 10% do mapa de Santos, ou seja, 133 ruas, não tem um nome oficial. No geral, são chamadas de “rua aprovada”, “servidão de passagem” ou então têm um número para distingui-las.

Também é comum que tais ruas fiquem em regiões periféricas e morros.

“Para ter nome, é mesma coisa: é necessário que tenha uma importância social. E o bairro periférico ainda sofre desse mesmo processo de invisibilidade que as mulheres passaram. Esse olhar para a periferia ainda precisa ser muito ampliado no Brasil”.

No Ilheu Alto, morro localizado no Bom Retiro, Zona Noroeste, por exemplo, grande parte dos endereços levam esse tipo de identificação.

A Travessa Aprovada 1103 fica entre a Rua Manoel Martins e a Arquiteto Lúcio Costa. Em duas ocasiões, a nomeação foi discutida na Câmara de Vereadores. Numa delas, o objetivo era que se tornasse Rua Valéria Alvarez Cruz. Porém, a proposta de homenagear a advogada, Mestra em direito e psicóloga não foi aprovada.

De acordo com a Prefeitura de Santos, a última vez que houve grandes alterações de nomenclaturas na cidade foi em dezembro de 2019, através do Plano de Mobilidade Urbana.

Os homens em destaque em Santos

No total, 968 homens foram considerados importantes o suficiente para receber uma rua em sua homenagem em Santos. Sérgio Willians, jornalista e pesquisador da história de Santos, destaca que, em grande maioria, eles são figuras com um nome conhecido a nível nacional.

Outra parte é formada por pessoas importantes em caráter regional. Tais como, por exemplo, juízes e arquitetos.

Títulos são, realmente, frequentes nas ruas da cidade. Além dos citados por Willians, são comuns:

  • Doutores
  • Políticos
  • Patentes do exército brasileiro

No último caso, o historiador alerta: após a revolução de 32, que contou com grande participação santista, várias ruas ganharam o nome de soldados que perderam a vida na luta pela queda do governo Getúlio Vargas.

No entanto, o próprio Vargas é homenageado numa avenida no Valongo.

Para além das ruas, os números não mudam quando andamos por entre os monumentos de Santos. Renato Frosch, professor universitário e responsável pelo projeto Santos às Cegas, fez um levantamento de todos os monumentos da cidade. Em apenas 4 deles a homenagem é voltada para mulheres.

Quem são as mulheres nas ruas de Santos

Entre elas, os títulos são menos frequentes.

Mais da metade, 53,8% do total de ruas com nome de mulher, não têm registro histórico. O que significa que não é possível saber nem desde quando são homenageadas nem a razão pela qual seus nomes foram escolhidos.

Entre as 24 restantes, estão nomes que faziam parte da elite santista.

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Como Ana Costa, cujo esposo arcou com os custos da construção da avenida e, por isso, solicitou a homenagem. E também pertencentes a famílias como, por exemplo, os Macuco. Três imperatrizes e a própria Princesa Isabel também fazem parte da lista.

Por outro lado, é possível encontrar também nomes que participaram ativamente do dia-a-dia da cidade. Só para ilustrar, a primeira professora da cidade, Dona Afonsina Proost de Souza, está na lista. Outra homenageada é a vítima de um feminicídio que aconteceu em Santos e chocou o Brasil inteiro.

Já ouviu falar no crime da mala, que aconteceu em 1928? Maria Féa foi assassinada pelo esposo, que ocultou seu corpo numa mala. José Pistone, o assassino, foi condenado a 31 anos. E ela foi eternizada com uma rua.

Para além destas mulheres, outras tantas fizeram e ainda fazem muito por Santos. E, por isso, poderiam ser eternizadas nas ruas da cidade.

Afinal, a cidade mais feminina do Brasil não aconteceu e acontece todos os dias apenas graças à força de trabalho masculina.