Ludmilla Rossi
Texto porLudmilla Rossi
38 anos - Santos
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Arte Urbana em Paris

Quando pensamos em Paris vem à cabeça aquela monocromia e constância arquitetônica. Os detalhes vermelhos do Pompidou ou a escuridão da Torre de Montparnasse são excessões no mar de off-white da cidade. Eu amo olhar Paris de um ponto bem alto e ver todo esse conjunto tão harmônico ao olhar. Só que eu amei ainda mais saber que a cidade luz não é só isso e possui suas gemas preciosas de cor em alguns bairros específicos. Um deles é Belleville.

O bairro de imigrantes, especialmente de origem árabe e chinesa, começa a ganhar ares ainda mais descolados

Os parisienses palpitam que Belleville é “a nova Montmartre“. É lá que fica um grande museu a céu aberto de arte contemporânea onde artistas parisienses e do mundo podem fazer arte nos muros, nos cantos e nas empenas – essa última palavra aprendi lá.

Paris tem ares daquela cultura academicista e certas vezes elitizada, mas descobrir Belleville me provocou a acreditar ainda mais que a arte é democrática, gratuita e para todos. E principalmente ela sempre será o meio mais interessante de entendermos os sentimentos e mazelas humanas. A arte urbana, em seus múltiplos meios, técnicas e formatos nos mostra isso desde a década de 70, inicialmente como um movimento marginal, mas hoje amplamente apreciado e aceito – menos pelo ex-prefeitop de São Paulo.

Eu tive o privilégio de passar uma manhã com a Fernanda Hinke, brasileira que mora em Paris desde 2011. A Fê é cicloativista e estudiosa da arte urbana (ou street art). Além de uma imersão histórica no assunto ela já entrevistou mais de 100 artistas, entre eles os maiores nomes em atividade da arte urbana mundial. Ela me deu uma verdadeira aula onde caminhamos deliciosamente por Belleville conhecendo as obras, seus autores e contextos.

Eu resumi (bem) esse rolê num vídeo. Dá o play para saber como foi:

O mais divertido do passeio é ver como, junto comigo a Fernanda descobria novas obras e contextos. Acho que isso é o mais legal desse rolê: andar com quem consegue ao mesmo tempo descobrir, reconhecer as obras e a identidade dos artistas, fazer conexões entre elas – e se encantar continuamente com cada criação nos espaços comuns da cidade.

Ainda acha que arte urbana é maginal?

Apesar dessa ser a origem do movimento – e muitas vezes a motivação de alguns artistas – é surpreendente saber que em Paris a arte urbana é um movimento que começa de maneira acadêmica e a cidade tem um museu dedicado ao tema. Além disso, o 13.º arrondissement de Paris tem um subprefeito entusiasta da arte urbana que liberou mais de trinta empenas para artistas criarem. Além de Belleville, claro.

Para “não fazer o Dória” indo na contramão da humanidade, é importante conhecer as bases do movimento de arte urbana pelo mundo. A gente sabe que o homem se manifestar através do muro é uma arte milenar, desde os homens mais primatas.

Porém a arte urbana só ganhou fama a partir de 1971, quando o artista Taki 183 foi capa do New York Times. De lá para cá a força do movimento só aumentou e podemos dizer que a arte urbana está em sua terceira geração de artistas.

arte-urbana-em-paris-no-rules-copNo rules cop, em Belleville

Quem foi ou vê cenas de Nova York nas décadas de 70 e 80 sabe o quanto a arte urbana dominava cada canto da cidade, principalmente os trens.

Em Paris não foi muito diferente. É óbvio pensar porque os artistas escolhiam os trens como seus principais meios, mas antes da Fê fazer esse comentário eu não havia me atentado. Como o grafitti (e a arte urbana no geral) era uma forma desses artistas “existirem na sociedade” e criarem sua própria voz, os trens eram as formas de maior visibilidade pois circulavam entre vários pontos. Assim esses artistas e mensagens poderiam ser conhecidos por mais pessoas e em mais lugares.

Era o que interessava naquela época.

Hoje é instigante pensar que a Internet cumpre o papel desses trens, fazendo a criação de cada artista ir ainda mais longe, só que com uma diferença: a Internet e a inclusão digital mexeu com a efemeridade característica dos muros e empenas, imortalizando as obras dos artistas através da fotografia e distribuição digital. Antes da expansão digital essas obras tinham um tempo de vida limitado.

Em Paris uma das técnicas mais usadas é a colagem. Mas o stêncil e os rolos também estão presentes, além das  outras várias formas de se fazer arte urbana. O mosaico  e as esculturas são outras variações. O mais importante é entender que a efemeridade e a repetição estão quase sempre presentes no DNA desses artistas.

E quanto “mais de raiz”, mais rápidas precisam ser as técnicas de criação (o artista precisa aplicar/pintar e sair rápido – seja pelo perigo do local ou da polícia). Quanto mais institucionalizadas, há mais detalhes porque não há pressa.

fred-le-chevalier
Fred Le Chevalier

La Vie en Le Mur

Jean Faucheur é um dos precursores da arte urbana em Paris. Nos anos 90, quando uma espécie de tolerância zero foi aplicada para “limpar a cidade”, os artistas perderam todos os seus espaços de expressão – e claro se revoltaram. Foi Jean que organizou um protesto usando a técnica de colagem, onde vários artistas saíram por Paris colando lambe-lambes em cima de painéis publicitários. Essa ação se chamou Un Nuit (uma noite, em Francês) e foi repetida em 1999, 2002 e em 2003 – e marca essa nova fase da arte urbana em Paris.

Mas foi só em 2007 que a cidade luz ganhou um grande muro institucionalizado – o Le M.U.R (Modulab Urban Reactif). A cada quize dias um artista é chamado para criar no espaço do Le M.U.R, sempre com obras muito impressionantes.

Até hoje quatro brasileiros fizeram obras por lá. No total existem mais de 10 Le M.U.R espalhados pela França, mas esse de Belleville vale ser visto porque é o pioneiro, o mais relevante e principalmente, o que mais leva a sério a questão da efemeridade.

Os artistas que conheci em Belleville

Durante o meu passeio com a Fê pude conhecer as obras de vários artistas cuja maioria ainda não estava em meu repertório. São eles:

  • 1Up
  • Shepard Fairey (Obey)
  • Fred Le Chevalier
  • John Hamon
  • Diamond
  • BMX
  • Gz’Up
  • Nemo
  • Space Invaders
  • No rules cop
  • Ludo
  • Julien Malland (Seth)
  • Gregos
  • Philippe Herard
  • Clet Abraham
  • Berns
  • Jérôme Mesnager
  • Studio Pedro
  • e a Rue Denoyez, que tem tanta expressão por lá que nem dá pra listar os artistas. É a meca da street art em Paris.

Fechamos o passeio na rua onde morou Edith Piaf, tomando um chá de menta em no Aux Folies, bar favorito de uma das principais vozes francesas, residente ilustre de Belleville. Uma delícia.

> Se você quiser saber mais sobre esse e outros passeios do site Meia-Noite em Paris, criados pela Fernanda Hinke, veja este link.



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Para fechar esse post, não deixe de ouvir a versão da ZAZ de Sous le ciel de Paris, que é originalmente de interpretada por Piaf. O clipe é lindo e mostra intervenções digitais nas paredes hegemônicas da cidade luz.

Amei!