Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 23 anos - Santos

Dores de amores: como agir em casos de violência doméstica em Santos

Sentada em um banco gelado na rodoviária de São Paulo, Lúcia (nome fictício) olhava o celular incansavelmente. Eram quase 21 horas e o ônibus ainda não estava na plataforma indicada na passagem. Naquela noite, ela saiu de casa com a roupa que estava no corpo, os documentos no bolso e uma certeza: nunca mais passaria por aquela porta.

Era sábado e, por isso, seu dia foi dedicado às aulas práticas do curso técnico que por anos sonhou em fazer. E só agora, com os filhos criados, estava realizando.

Pela manhã, antes de sair de casa, ela passou a roupa social que filho mais velho vestiria para trabalhar e tirou a carne do congelador. Além disso, deixou um bilhete na porta da geladeira. Tinha o endereço do local da aula e o horário que terminaria.

Quando finalmente chegou em casa nem teve tempo de tirar os sapatos, que há horas incomodavam. Lúcia foi recepcionada por vassouradas e ofensas que se recusa a lembrar.

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Não há lugar seguro

A história que abre essa matéria conta apenas um dos muitos de casos de violência doméstica que acontecem diariamente.

De acordo com dados levantados pelo Datafolha, entre os meses de fevereiro de 2018 e 2019, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil. Também segundo esse levantamento, 22 milhões de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Dos casos relatados, 42% aconteceram dentro de casa.

Um caso de violência doméstica em Santos é registrado a cada 17 horas.

Como agir em casos de violência doméstica em Santos

Assim que chegou em seu destino, na Baixada Santista, Lúcia buscou o amparo necessário para recomeçar sua vida. Assim como ela, as mulheres que vivem situações de violência doméstica em Santos também encontram o amparo necessário – desde atendimento psicológico até judiciário.

Se você ou alguém próximo está passando por uma situação parecida, existem alguns locais onde é possível conseguir ajuda. Antes de mais nada, saiba que, em casos de emergência, primeiramente entre em contato com a polícia no 190. Mas, se a denúncia não tiver caráter emergencial, você pode ligar no 180. Esse é o número da Central de Atendimento à Mulher.

Além disso, desde de março, Santos possui uma Delegacia de Defesa da Mulher que funciona 24 horas. Então esse também pode ser um destino em casos de necessidade. Para completar a lista, existem as frentes de atendimento oferecidas pela Prefeitura de Santos e também iniciativas diversas que estão instaladas na cidade.

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Chega!

Neste sentido, uma das iniciativas mais recentes se chama Observatório Chega!.

Em resumo, trata-se de um grupo de professoras, alunas e ex-alunas do cursos de Comunicação da Unisanta. Semanalmente, essa mulherada, e quem mais tiver interesse, se reúne com o objetivo de construir uma nova narrativa em relação a violência contra a mulher em Santos.

“Iniciativas como essa são de muito importantes. Eu, por exemplo, vivi um relacionamento abusivo durante meses. Mas só me dei conta disso anos após o termino. Quando li o TCC de um grupo de amigas que abordava o assunto, me encontrei em várias situações de chantagens e tentativas de diminuir minha autoestima”, comenta a jornalista Jane Freitas, uma das participantes ativas do grupo.

De acordo com Nara Assunção que, junto a Márcia Okida e Raquel Alves, organiza os encontro do observatório, situações como a de Jane são comuns. Muitas mulheres não percebem que estão dentro de um relacionamento abusivo, pois não sabem que isso vai além de agressões físicas.

“O projeto surgiu de uma demanda das universitárias. Uma aluna relatou um relacionamento abusivo que ela viveu e decidimos criar o observatório e trazer este debate para dentro da universidade”, explica a professora e jornalista.

Nas reuniões, o grupo (formado majoritariamente por mulheres) reflete sobre o tema e também busca formas de influenciar em políticas públicas. As jornalistas produzem reportagens, podcasts e colunas sobre a questão. E, além disso, indicam locais para encontrar ajuda em casos de casos de violência doméstica em Santos.

Casa das Anas e Casa Abrigo

Além dos Centros de Referência Especializados da Assistência Social (Creas) – onde há uma rede de serviços para orientação e apoio especializado e continuado -, existem duas casas que abrigam mulheres que passaram por casos de relacionamento abusivo em Santos: a Casa das Anas e a Casa Abrigo.

A primeira se dedica a ajudar mulheres em vulnerabilidade social (com ou sem filhos) e tem hoje 24 pessoas residentes. As mulheres atendidas podem ficar por até um ano no equipamento, tempo utilizado para conseguir um emprego e estabilidade financeira. Isso além de receberem atendimento psicológico e outros auxílios. Já a Casa Abrigo acolhe mãe e filhos em risco iminente de morte. Entre outras coisas, oferece acompanhamento social e de saúde.

Os endereços são sigilosos por motivos de segurança.

Serviço de atendimento jurídico gratuito

Um convênio entre Prefeitura e OAB-Santos disponibiliza o serviço de atendimento jurídico gratuito (Cadoj) para mulheres vítimas de violência doméstica.

Em resumo, os advogados prestam orientações legais às mulheres vítimas de violência. Outros assuntos relacionados à mulher estão disponíveis, como:

  • Investigação de paternidade;
  • Ações de divórcio;
  • Execução de alimentos;
  • Regulamentação de visitas;
  • Adoção;
  • Guarda;
  • Orientações gerais;

Somado ao atendimento oferecido pelo Cadoj, também é possível conseguir advogado de graça em Santos nas universidades Católica de Santos e Santa Cecília. Em ambas, o atendimento é feito por alunos, sob supervisão de professores.

ONG Hella

Assim como o Observatório Chega!, a Hella tem como objetivo acolher mulheres que viveram em um relacionamento abusivo. Todo o trabalho desenvolvido busca garantir a informação, orientação e acolhimento.

Desde 2017, a ong faz um trabalho incessante em mobilizar diversos setores da sociedade para os perigos da violência contra a mulher. E isso acontece a partir de eventos e debates, além de ações prática.s

Como identificar um relacionamento abusivo

Quando Lúcia chegou à Baixada Santista, sua irmã já estava a esperando no terminal rodoviário. Elas foram diretamente à Delegacia da Mulher fazer um B.O e garantir que o (agora) ex-marido não iria incomoda-la no novo lar. O casamento durou mais de duas décadas e só após a agressividade do companheiro ela se deu conta. Viveu em um relacionamento abusivo desde o tempo em que namoravam.

Também foi assim com Jane, que faz parte do Observatório Chega! e só se deu conta dos abusos sofridos quando leu o TCC de Karina Costa. Que, adivinha só? Percebeu que também tinha um histórico de abuso fazendo o livro-reportagem.

“As histórias que eu ouvi me envolveram muito. Uma delas tinha muitas semelhanças com um relacionamento do meu passado. Eu nunca tinha me dado conta disso, apesar de estudar sobre o tema há anos”, comenta a jornalista.

Essas três experiências dão um alerta: não são apenas os gritos, socos e outras agressões físicas que fazem um relacionamento ser abusivo. A mulher pode viver violência psicológica, sexual ou financeira. De acordo com especialistas, trata-se de uma situação de poder e você pode ficar atenta a sinais como, por exemplo:

  • Ciúmes excessivo
  • Controle das suas escolhas
  • Invasão de privacidade
  • Tentar te afastar de amigos e família
  • Chantagem
  • Frases como “o que seria da sua vida sem mim” e outras que buscam destruir sua autoestima

O Instagram Mas Ele Nunca Me Bateu ilustra muitas dessas situações de forma bem contundente.

Se você presencia ou vive algo semelhante, tente se afastar. E, se precisar de ajuda, busque os órgãos competentes ou então uma das instituições citadas nessa matéria.

Acima de tudo, lembre-se: você não está sozinha!