Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 23 anos - Santos

Casa das Anas

Quando me vêem, os olhares desconfiados alertam: tem gente nova na casa. A desconfiança é de que seja uma nova psicóloga ou assistente social. “Mas ela não está de branco. Estranho, né?”, dizem entre sussurros.

As moradoras da casa rosa não estão acostumadas a receber visitas. Suspeitam de estranhos, demoram para se abrir, limitam-se a respostas curtinhas. Elas têm medo de se expor.

Para quem não conhece, a Casa das Anas é um equipamento da Prefeitura de Santos, em parceria com a ONG Vidas Recicladas.

O objetivo é reinserir na sociedade mulheres que viviam em situação de rua.

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“Essa é a quarta vez que eu venho parar em um abrigo”, diz Priscila, com olhar cauteloso. Depois de questionar algumas vezes o motivo das perguntas e se certificar que tudo bem responde-las (com a psicóloga da casa), a mãe de três filhos finalmente abre o sorriso que mostra a esperança de um futuro melhor.

Assim como ela, outros 18 moradores – entre mulheres e seus filhos – encontram no abrigo a possibilidade de voltar ao mercado de trabalho e, quem sabe, realizar o sonho de uma casa própria.

Para isso, elas têm exatos 12 meses de estadia garantidos.

“É como uma casa normal. Nós temos uma cozinheira e auxiliar de limpeza que ajudam no geral. Mas elas que fazem tudo, não queremos que pareça um hotel”, explica a coordenadora Cristina Coninck.

Por que Casa das Anas?

Durante todo o tempo, as moradoras da casa se chamam de Ana, já que estão na casa das Anas. O nome da instituição vem de uma passagem bíblica que conta a vida de uma mulher sofrida e humilhada que tem como maior sonho ter um filho e poder cuidar dele da melhor forma possível.

A casa conta com 6 quartos, cada um deles com 4 camas. Para conseguir uma vaga é preciso passar pelo Centro POP, onde acontecem os primeiros atendimentos (em caso de situação de rua) ou pelo CREA, em situações de despejo, como a da Priscila por exemplo.

Diferenças

Antes de chegar à casa rosa, a Pri – como é carinhosamente chamada na casa – esteve em outros abrigos com seu filho mais novo e o bebê de 1 ano e meio. Pequenas coisas, como ter um guarda-roupa, são valorizadas por ela que, com os olhos brilhando, afirma: “Para mim, isso aqui é vida de rico”.

Um dia antes de nossa visita, as residentes fizeram um chá de bebê para Isaura, que espera seu primeiro filho, aos 24 anos.

“Esses dias, eu me senti um diva, princesa mesmo, ou melhor, me senti uma rainha”, diz, com sorriso que vai de canto a canto do rosto, a passadeira de roupas Priscila.

Tamanho entusiasmo apareceu porque, no Dia Internacional da Mulher (8 de março), o café da manhã foi na padaria Bela Villa. “Nunca tinha comido tanto na vida, vou me lembrar desse dia para sempre”.

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A equipe acredita que pequenos detalhes como esses fazem a diferença no atendimento.

“O espaço é pequeno, atendemos no máximo 24 pessoas e temos 14 funcionários no total. Então podemos garantir um atendimento mais pessoal, sentar e conversar. Para quem acabou de sair de uma situação difícil, isso é muito importante, é mais fácil mostrar que queremos o bem delas, criar um vinculo”, esclarece a coordenadora.

Sonhos

Ao chegar à casa, as internas contam com a ajuda de profissionais para criar um plano individual. A ideia é traçar objetivos para o ano seguinte e, durante este período, trabalhar para torna-los possíveis.

É claro que nem tudo são flores e há dificuldades pelo caminho. Uma delas é o passado com as drogas, que faz parte da vida de algumas delas.

Casa das Anas (1)

“Nesses casos a gente encaminha para o pessoal da Saúde. Quando elas percebem que isso está prejudicando o andamento das coisas, que conseguiram um trabalho e gastaram o primeiro salário em uma noite, por exemplo, as coisas ficam mais fáceis (de compreender). Temos três que no momento estão fazendo reabilitação. Fazemos visitas a elas, para mostrar que sim, alguém se importa e torce pela melhora”.

Voltar a estudar, alugar uma casa para viver com os filhos, arrumar um emprego e futuramente empreender são algumas das metas da Priscila. “Eu sonho grande. Nada é impossível para Deus, né? Chega de sofrer”, diz. Um dos obstáculos para conquistar suas metas é um problema de saúde, uma hérnia no umbigo que não para de crescer. “Estou presa, enquanto não operar não vou conseguir nada”.

“Se Deus ajudou aquela Ana, há de ajudar essa aqui também, né?”, finaliza, esperançosa.