Helena da Costa carregava uma memória da escravidão que Santos e o Brasil esqueceram
Filha de um homem escravizado vindo de Angola, Helena atravessou um século em Santos carregando uma história que o país tentou apagar, mas que ainda ecoa nas ruas, no porto e nas desigualdades da cidade
Na Rua da Liberdade, no Embaré, viveu uma mulher que parecia desafiar o tempo. Não só pela idade. Mas pelo que ela representava.
Enquanto Santos acelerava entre prédios, VLTs, cafeterias e obras no Centro, Helena Monteiro da Costa seguia regando plantas, andando pelas ruas e carregando uma história que o Brasil quase deixou escapar.
Helena era filha direta de um homem escravizado.
Fotos: Karime Xavier/Folhapress
Sim, parece distante. Coisas que só vemos nos livros de escola ou filme de época. Mas essa história atravessou o século e chegou viva até uma em Santos.
Dona Helena nasceu em 1925, apenas 37 anos depois da assinatura da Lei Áurea. Seu pai, Anízio José da Costa, conhecido como Maninho, nasceu em Angola e foi sequestrado ainda criança. Depois disso, atravessou o Atlântico em um navio negreiro até desembarcar no Brasil.
Helena não herdou essa memória pelos livros, mas sim dentro de casa.
Uma vida inteira entre a resistência e o silêncio
Existe algo brutal na história da escravidão brasileira que raramente aparece nas conversas do dia a dia: ela não acabou há tanto tempo assim.
O Brasil foi o último país das Américas a abolir oficialmente a escravidão. Cerca de 5 milhões de africanos escravizados foram trazidos à força para o país. O maior número do continente.
Ainda assim, o país escolheu esquecer rápido demais.
Helena cresceu ouvindo fragmentos de uma dor que o pai quase não verbalizava. Segundo relatos publicados ao longo dos anos, Maninho falava pouco sobre Angola. Preferia o samba, a rotina e o trabalho pesado no Porto de Santos.
Helena começou a trabalhar cedo. Aos 14 anos, já cozinhava para famílias da elite santista. Passou décadas trabalhando como empregada doméstica. Nunca casou ou teve filhos. Dizia que trabalhou tanto que não houve tempo para construir outra vida.
A cidade do maior porto da América Latina, que construiu parte da própria riqueza sobre o café e sobre o trabalho negro, conviveu durante décadas com o apagamento dessas histórias.
Não por acaso, iniciativas recentes de afroturismo e memória negra começaram justamente a revisitar lugares que estavam invisíveis para muita gente. Entre eles, o antigo Quilombo do Jabaquara, um dos maiores do Brasil.
O curioso é perceber que Helena sempre esteve aqui. Mas o Brasil demorou para enxergá-la.
Ponte entre séculos
Quando pesquisadores, jornalistas e historiadores começaram a contar sua trajetória, veio o espanto coletivo. Como uma filha direta de um homem escravizado ainda estava viva em Santos?
A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz classificou a história de Helena como extremamente singular. Segundo registros, seu pai viveu até os 110 anos e teve filhos já idoso. Helena, por sua vez, ultrapassou os 100 anos.
Na prática, ela virou uma espécie de elo humano entre o Brasil escravista e o Brasil contemporâneo.
Fotos: Karime Xavier/Folhapress
Enquanto muita gente tratava a escravidão como um passado remoto, Helena lembrava que o trauma atravessa gerações. Ele molda renda, território, acesso e oportunidades até hoje.
Em Santos, isso aparece nos morros, nas periferias, nas ocupações históricas e até no modo como a cidade distribuiu investimentos ao longo das décadas.
Por isso, a história dela não fala apenas sobre uma mulher centenária. Fala sobre memória e quem tem o direito de permanecer visível na história oficial da cidade.
O retorno simbólico para Angola
Em 2024, Helena voltou ao noticiário internacional por outro motivo emocionante.
Aos 99 anos, ela manifestou o desejo de participar de um cruzeiro transatlântico que faria o caminho inverso dos navios negreiros: sair do Brasil em direção a Angola.
O projeto, chamado “A Grande Travessia”, nasceu com a proposta de transformar o oceano em espaço de memória e reparação histórica.
O mesmo Atlântico que separou famílias, apagou nomes e sequestrou identidades poderia, séculos depois, servir como ponte de reencontro. Helena não representava apenas o passado.
Ela representava a urgência de lembrar.
Santos também precisa decidir o que quer preservar
Nos últimos anos, a Baixada Santista começou a revisitar personagens negros que foram esquecidos pela narrativa oficial da cidade. Helena virou símbolo desse movimento. Seu nome passou a aparecer em roteiros históricos, reportagens e ações de valorização da memória afro-brasileira.
E, em um grande gesto de reparação histórica, em 2025, seu pai passou dar nome para uma rua no Centro Histórico que antes carregava a alcunha de um escravocrata.
Mas ainda existe um desafio desconfortável.
Santos gosta de celebrar o futuro. Porém, ainda fala pouco sobre as estruturas que construíram esse futuro. O porto impulsionou riqueza, o café movimentou fortunas e a cidade prosperou.
Só que nada disso aconteceu sem o trabalho de pessoas negras escravizadas e de trabalhadores que sobreviveram depois da abolição sem acesso real a direitos.
Helena lembrava disso apenas existindo. Seu corpo era documento histórico. Sua casa era arquivo.
Sua presença desmontava a falsa ideia de que a escravidão pertence a um passado distante demais para afetar o presente e é aí que mora a força dessa história. Ela obriga Santos a olhar para trás sem romantização.
E talvez nenhuma cidade madura consiga construir futuro sem encarar primeiro aquilo que escolheu esquecer.