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Débora Camilo x Eduarda Campopiano: como será o embate entre as deputadas eleitas?

Tempo de leitura: 16 minutos

No plenário da Câmara de Santos, a vereadora mais votada em Santos nas eleições de 2024 discursa segurando uma garrafa de vidro transparente, com um líquido sujo em seu interior. Essa a água é aquela fornecida pela Sabesp na Baixada Santista após a privatização da estatal paulista de saneamento básico pelo governador Tarcísio de Freitas.

O vídeo desse momento teve relativa repercussão em tempo real no Instagram, mas ganhou mais tração nesta e em outras redes depois de algum tempo, compartilhado por canais progressistas no Instagram, quando cidades da região passaram por dias críticos de falta de água.

Em outro vídeo, assistido por 1.3 milhão de pessoas em seu perfil, ela mostra a rotina com torneiras e chuveiros secos em sua própria casa.

Do outro lado da internet, no canal REDCAST no YouTube, uma jovem de 23 anos que se autodefine como “a maior inimiga das feministas de São Paulo” debate com 25 pessoas LGBT+ no formato popular de arena em um vídeo de 1h45 minutos e que, em 15 dias, chegou a 1.8 milhão de visualizações. Em uma sequência belicosa de argumentos, ela questiona o caráter humanitário do movimento LGBT e contesta a interpretação dos dados de violência contra pessoas trans, no país que mais mata essas pessoas no mundo. Para os fortes de estômago, quem conseguir chegar a meados do víde assiste à sua defesa da continuidade da gestação de uma criança e faz afirmações sobre aptidão reprodutiva e riscos do parto, o que exige checagem médica e jurídica antes de serem reproduzidas como fatos.

Mas talvez a sua posição mais “polêmica”, para usar um termo que seus próprios apoiadores consideram uma virtude, rejeita a existência do crime de feminicídio.

As antagonistas

A Baixada Santista elegeu oito representantes em 2026. São dois federais e seis estaduais. Duas das deputadas estreiam em cargo estadual e ocupam pontas opostas do espectro político.

Mulher de óculos e vestido estampado ao lado de mulher sorridente de cabelos cacheados em telhado urbano com fundo rosa

Débora Camilo (PSOL) é feminista e progressista. Ela é a primeira personagem citada nesta matéria.

A outra é Eduarda Campopiano (PL), conservadora e antifeminista.

Ela foi a candidata mais votada do estado de São Paulo, com 1.956.238 de eleitores. Débora Camilo recebeu 94.895 votos.

A posse na Assembleia Legislativa (Alesp) está prevista para 1º de fevereiro de 2027. E os próximos 4 anos prometem uma disputa qualitativa bem mais acirrada do que nas urnas.

É difícil prever o futuro, mas, por serem propostas tão distintas, vale a pena olhar para o que cada uma fez nos últimos anos e tentar entender o que vão levar para a Alesp.

Por isso, o Juicy Santos reuniu os projetos que cada uma apresentou como vereadora, cada qual em sua cidade, entre 2025 e 2026.

São 25 de Débora, em Santos, e 20 de Eduarda, em Praia Grande. A leitura mostra onde elas se encontram, onde devem brigar e o que cabe, de fato, a um deputado estadual.

Do Macuco ao Instagram

Débora Camilo é mulher negra, mãe e avó solo, advogada e dirigente do PSOL. Mora no Macuco e foi criada na periferia de Santos. Entrou na política em 2014 e foi reeleita a vereadora mais votada da cidade, com 8.016 votos.

Eduarda Campopiano nasceu em Campinas, tem 23 anos. Começou a falar de política no YouTube e no Instagram em 2021 e soma mais de 300 mil seguidores. Comentou política como comentarista na Jovem Pan em 2022. Em 2024, elegeu-se vereadora de Praia Grande aos 21 anos, com 3.583 votos. Será a deputada estadual mais jovem da legislatura. O lema dela é “Deus, Pátria, Família e Liberdade”.

Em setembro de 2026, antes das eleições, o Juicy Santos convidou as duas (juntamente com os outros candidatos e candidatas ao Legislativo baseados na região) a responderem ao guia Voto é Voz. Débora respondeu e detalhou suas propostas para a Alesp. Eduarda não respondeu.

www.juicysantos.com.br - Quem é Débora Camilo, vereadora mais votada da Câmara de Santos em 2024Foto: divulgação

O placar de projetos

Débora apresentou 25 projetos no recorte analisado. Quatro foram aprovados. Três viraram outras proposições, e um deles, o programa de enfrentamento às emergências climáticas, aguarda sanção ou veto. Os 18 restantes esperam votação.

Eduarda apresentou 20 projetos. Três viraram lei. Quatro seguem em tramitação. Os outros 13 foram vetados por inconstitucionalidade. Vale dizer que, segundo reportagem da BBC Brasil, vários de seus projetos foram “copia e cola” de outras câmaras, citando outras cidades que não Praia Grande.

A taxa de aprovação das duas é praticamente a mesma. A diferença está no destino do resto.

Na pilha de Débora, quase tudo aguarda. Na de Eduarda, a maior parte esbarrou em uma barreira jurídica.

Treze vetos e uma lição de competência

Os motivos dos vetos se repetem. Segundo o levantamento sobre os projetos de Eduarda, o principal é a falta de competência da Câmara Municipal para tratar do tema. Em alguns casos, o assunto pertence à União. Em outros, ao estado ou ao prefeito.

Entre os projetos barrados, estão a multa para consumo de maconha perto de crianças e escolas e a restrição à presença de crianças em eventos culturais, carnavalescos e LGBTQIA+ com conteúdo incompatível com a classificação indicativa. Também foram vetadas a proibição de contratar shows com apologia ao crime ou às drogas e a apreensão de bens ligados ao tráfico.

A lista segue com a conversão de multas leves de trânsito em doação de sangue ou medula, a equiparação da fibromialgia à deficiência e o boletim médico diário nos hospitais públicos. Caíram ainda o incentivo a nanocervejarias, a capacitação física da Guarda Civil e as sanções por maus-tratos a animais. Três programas também ficaram pelo caminho: prevenção à violência doméstica contra crianças, Meninos Fortes e educação financeira.

Três propostas viraram lei, sancionadas pelo prefeito Alberto Mourão (MDB). Uma garante prioridade de matrícula para irmãos na mesma escola. Outra proíbe a contratação de condenados por crimes sexuais contra crianças e adolescentes em cargos públicos. A terceira cria o Dia de Conscientização da Saúde Mental Masculina.

Quatro projetos ainda tramitam: o Cantinho do Acolhimento para pessoas neurodivergentes, o programa contra a ludopatia, a utilidade pública da ONG Formiguinhas da Praia e as placas de alerta em áreas com alto índice de assaltos.

O mesmo erro pode se repetir na Alesp

Um tropeço jurídico no município vira um problema maior no estado. A Alesp também tem limites claros, e vários deles coincidem com os temas dos projetos barrados em Praia Grande.

Direito penal, processo penal, trânsito e regras sobre drogas pertencem à União. O consumo de maconha também, já que a legislação sobre drogas é federal.

O mesmo vale para as promessas de campanha. Eduarda citou três prioridades: a terceira pista da Imigrantes, o VLT em Praia Grande e o túnel entre Santos e Guarujá. Nenhuma é obra que um deputado executa. São projetos do governo estadual.

O parlamentar pode cobrar, destinar emendas e fiscalizar, mas quem constrói é o Executivo. E essas obras já estão em andamento, com ou sem Eduarda.

Young woman in yellow shirt smiling, glasses, in front of a large crowd wearing yellow/green, holding Brazilian flags and protest signs.Foto: Wikipedia/Eduarda Campopiano

Ela também disse que pretende barrar propostas de “esquerda radical”. Isso cabe a um deputado, mas ele tem um voto entre 94. Para bloquear qualquer coisa, precisa de maioria.

O recado serve também para os temas de segurança pública. Eduarda diz que vai buscar recursos para as polícias. Essa parte funciona, porque emenda parlamentar é ferramenta de deputado. Mudar regra penal, não.

Mesmo problema, remédios opostos

As duas mexeram nos mesmos assuntos e chegaram a propostas bem diferentes.

Apostas online

Eduarda apresentou o Programa Municipal de Combate à Ludopatia. O texto prevê ações educativas nas escolas e atendimento multidisciplinar aos dependentes. Está em tramitação como anteprojeto.

Débora apresentou a proibição de propaganda de apostas em espaços públicos municipais, com campanhas educativas. O projeto virou o Projeto de Lei Complementar nº 14/2026 e aguarda votação.

Drogas

Débora propôs a criação da categoria de agente redutor de danos, para reforçar as equipes de saúde mental e a atenção a usuários de álcool e outras drogas. Aguarda votação.

Eduarda propôs a multa para o consumo de maconha em locais públicos e familiares, num raio de 100 metros de escolas e hospitais. Também tentou impedir o apoio público a shows com apologia ao drogas ou ao crime em eventos infantojuvenis. Os dois projetos foram vetados.

Transparência na saúde

Débora propôs a divulgação das escalas de plantão médico, com nome, especialidade e horário, no Portal da Transparência e em painéis digitais. O projeto foi aprovado.

Eduarda propôs o boletim médico diário nos hospitais públicos para os familiares de internados. Foi vetado.

Crianças, eventos e diversidade

Aqui está o choque mais direto. O Projeto 009/2026 de Eduarda restringe a presença de crianças em eventos carnavalescos, culturais, artísticos ou LGBTQIA+ com conteúdo incompatível com a classificação indicativa. Os organizadores teriam de divulgar a faixa etária de forma ostensiva. A Câmara vetou o texto por inconstitucionalidade.

Débora propôs vedar repasses de dinheiro público a empresas e organizações condenadas por discriminar por orientação sexual ou identidade de gênero, ou que promovam essa discriminação. O projeto aguarda votação. Os dois textos tratam do mesmo campo, a diversidade, a partir de lados opostos.

Segurança pública

Débora propôs, em 21 de outubro de 2025, câmeras corporais para os agentes da CET de Santos. Para a Alesp, ela promete uma política de segurança que rompa com operações policiais letais e dê controle e participação popular sobre as forças de segurança.

Eduarda concentrou a agenda nas guardas e na prevenção: capacitação física para a Guarda Civil, uso de bens apreendidos e placas de alerta em áreas com alto índice de assaltos. As placas seguem em tramitação. Os outros dois projetos foram barrados.

Juventude e educação

Débora propôs que professores e servidores das escolas possam comer a merenda e isentou crianças de até 5 anos nos programas de alimentação popular. Para a Alesp, defende o programa Jovem da Cultura Solidária, que contrataria jovens de 16 a 28 anos por dois anos em produção cultural nos próprios territórios.

Eduarda emplacou a prioridade de matrícula para irmãos. Propôs ainda o Jovem Capitalista, de educação financeira, e o Meninos Fortes, voltado a meninos vítimas de bullying e violência escolar. Os dois foram vetados.

O que cada uma endossou?

A produção de Eduarda se concentra em poucas frentes. Saúde e saúde mental somam seis projetos. Segurança e trânsito somam quatro, e educação e infância, outros quatro. Pelo menos sete dos 20 projetos têm crianças e adolescentes como foco central.

Débora espalha os 25 projetos por mais áreas. Direitos humanos e mulheres reúnem cinco: licença-gestante de 180 dias em contratos terceirizados, sanções para misoginia no serviço público, reserva de vagas para mulheres vítimas de violência doméstica, vedação de verba a entidades LGBTfóbicas e memória do Navio-Presídio Raul Soares.

A cultura aparece em quatro: batalhas de rima e saraus como patrimônio, Samba do B.B. do Estuário, a Praça Esmeraldo Tarquínio e a Praça Jornalistas Palestinos. Os servidores também têm quatro projetos, entre eles o pagamento retroativo de direitos congelados na pandemia. Habitação e meio ambiente completam o quadro, com a Secretaria de Habitação, o Cinturão Verde e a descanalização de rios.

O que cada uma leva para a Alesp

A prioridade número 1 de Débora é o Pacote Revogaço, contra as privatizações da Sabesp, da CPTM e do Metrô. Na economia, ela defende crédito subsidiado para pequenas empresas e cooperativas da Baixada, compras públicas direcionadas a negócios locais e mais tributação sobre grandes fortunas e heranças. Propõe ainda um Centro Regional de Formação para o cooperativismo e um Fundo Estadual para a área.

Eduarda diz que vai trabalhar saúde, segurança e mobilidade e defender o eleitorado conservador que a elegeu. Como vereadora, destinou emendas à saúde e promete repetir a estratégia. Nada muito específico. Na verdade, até vago demais.

A régua vale para as duas

É preciso fazer uma leitura crítica da competência para qualquer proposta.

Débora também carrega ideias que dependem de outras esferas. A Renda Básica Universal é pauta federal. A desoneração de pequenas empresas esbarra na reforma tributária nacional. Ela mesma reconhece, na resposta ao Juicy Santos no guia Voto é Voz, que a criação de figuras jurídicas para a economia familiar não é prerrogativa exclusivamente estadual.

Reverter a privatização da Sabesp exige maioria na Alesp e passa por contratos que já estão em vigor. A diferença está no histórico. Os projetos de Débora ainda não passaram pelo teste da inconstitucionalidade. Os de Eduarda passaram, e em 13 de 20 casos o resultado foi veto.

A deputada que “não deve nada” ao feminismo

Seria impossível passar por essa história sem comentar sobre sua dolorosa ironia.

Nas entrevistas e nos podcasts cujos cortes circulam pelas redes, nos quais Eduarda construiu sua imagem pública em oposição direta ao feminismo, ela afirmou que “não deve nada ao feminismo” e que “nenhuma mulher deve”. O discurso rendeu seguidores e votos e deve render debate no plenário também.

Ela trata essas posições como mandato. “Representar os ideais de quem votou em mim” é como resume o papel que pretende exercer.

Mas esse papel só existe por conta de anos de lutas de mulheres, correto? Até chegar lá, vamos por partes.

Feminicídio: crime ou conceito?

Eduarda declarou que “feminicídio não existe”. O argumento é que o Estado não deveria tratar um homicídio de forma diferente conforme o gênero da vítima.

A lei diz outra coisa. O Código Penal reconhece o feminicídio desde 2015 como forma qualificada de homicídio, com pena maior. Ele se aplica a assassinatos ligados à violência doméstica e ao menosprezo pela condição de mulher.

Esse é apenas um dos direitos das mulheres que Eduarda, mesmo sendo uma mulher, ataca.

Arma na bolsa

A solução então não passa por penas mais duras ao feminicídio. Eduarda defende facilitar o porte de armas para mulheres como principal ferramenta contra a violência doméstica e as agressões nas ruas.

Os críticos respondem que a violência doméstica costuma acontecer dentro de casa, com o agressor por perto, e defendem investir em rede de acolhimento e medidas protetivas.

Há um dado curioso nos projetos dela. Na lista analisada, nenhum dos 20 tem as mulheres como público central. A violência doméstica que aparece nas propostas é a que atinge crianças e adolescentes.

Aborto e a definição de mulher

Eduarda é contra o aborto em qualquer circunstância. Argumenta que, como mulher, considera sua “obrigação defender a vida desde a concepção”. A lei brasileira admite o procedimento em três situações: estupro, risco de vida da gestante e anencefalia fetal.

Ela sustenta ainda uma definição estritamente biológica de mulher, baseada em útero e capacidade reprodutiva. Por isso, é contra o uso de banheiros e espaços femininos por mulheres trans e contra políticas ampliadas de cota de gênero. Rejeita também cotas raciais em concursos e universidades e a regulamentação da prostituição como profissão.

Agora sim o Brasil vai voar, o maior problema desse país com certeza passa pela temida ideologia de gênero (contém ironia).

O que cabe a uma deputada estadual

O detalhe que mais pesa: quase tudo o que gera manchete nessa agenda está fora do alcance da Alesp.

Porte de armas, aborto e feminicídio dependem do Código Penal e da legislação de armas. A Constituição reserva esses temas à União. Leis estaduais que tentaram liberar o porte já foram derrubadas no Supremo. Mudar o conceito de feminicídio ou as hipóteses de aborto exige votos de deputados federais e senadores.

Para um mandato de bandeiras nacionais, a distância entre o discurso e a caneta vai pesar.

O voto que veio de uma luta

Eduarda tem 23 anos, vota, foi votada e vai legislar. Os três direitos nasceram de um movimento que ela rejeita veementemente.

A conquista do voto feminino saiu do sufragismo, a primeira onda do feminismo. A educadora Nísia Floresta já defendia a igualdade de direitos em 1832. Em 1922, a paulista Bertha Lutz fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e passou a negociar diretamente com parlamentares.

Em 1927, Celina Guimarães Viana se tornou a primeira mulher a se alistar e votar no país. No ano seguinte, Alzira Soriano elegeu-se prefeita de Lajes (RN), a primeira da América Latina. Em 24 de fevereiro de 1932, um decreto do governo Vargas garantiu às brasileiras o direito de votar e de serem eleitas. Em 1933, Carlota Pereira de Queirós virou a primeira deputada federal do país.

Eduarda tem o direito de discordar do movimento que a levou até a cadeira que ocupará. Pode dizer que rejeita o feminismo de hoje, e não o sufrágio de ontem.

Mesmo assim, quem afirma que não deve nada ao feminismo ocupará, em 2027, um espaço aberto por mulheres que pressionaram a sociedade por décadas. Antes de 1932, nenhuma brasileira podia disputar o que ela disputou e venceu com 1.956.238 votos. Diante disso, fica a pergunta: não seria mais coerente recusar o cargo e passar o dia “batendo bolo”?

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