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Nos anos 1990, Santos teve uma maratona de beijo que durou mais de 2 meses

Santos já foi palco de muita coisa inusitada. Mas é difícil superar os 62 dias consecutivos de boca colada dentro de um shopping do Gonzaga.

Tempo de leitura: 5 minutos

O Dia do Beijo existe, segundo a lenda, por causa de um italiano chamado Enrico Porchelo, famoso por beijar todas as mulheres do vilarejo. O padre local prometeu um prêmio para quem dissesse que não havia sido beijada por ele. Nenhuma apareceu. O prêmio, dizem, ainda está perdido pela Itália.

www.juicysantos.com.br - Dia do beijo quando Santos fez uma maratona de beijocas

Foto: Memória Santista

Santos foi lá e fez diferente. Em vez de um prêmio misterioso, ofereceu um Gol 1000 zero quilômetro. Em vez de um beijoqueiro carismático, escalou 51 casais dispostos a tudo. E o resultado foi uma das histórias mais curiosas da memória da cidade.

O Beijódromo do Gonzaga

Em junho de 1993, o Shopping Miramar tinha seis anos de vida, 132 lojas e uma equipe de marketing com ideias que hoje chamaríamos, educadamente, de “ousadas”. O plano era simples: promover o Dia dos Namorados com uma Maratona do Beijo. O casal que ficasse mais tempo com os lábios colados levava o carro, avaliado em 342 milhões de cruzeiros (aproximadamente 124 mil reais).

A regra das beijocas era: boca colada das 10h às 22h, com uma hora de almoço e dois intervalos de cinco minutos para o banheiro. Quem quisesse falar, falava pelo canto da boca. Cinquenta e um casais toparam e a cidade toda foi ver (um tanto quanto voyer).

A técnica do espirro

Entre os inscritos, estavam a professora de natação Rita Oliveira e o estivador Robson Quintella. Os dois tinham 39 centímetros de diferença entre suas bocas, o que era o maior desafio logístico da competição. A solução foi um banquinho. Rita subia, os lábios se encontravam, o beijo estava feito.

Mas as regras endurecerem e o banquinho ser proibido. Com Robson torcido de dores nas costas e Rita exausta de ficar com a coluna em forma de C, o casal desistiu. Antes de sair, declararam à imprensa que, ao menos, haviam ganhado o amor (vida eterna aos românticos).

Santos aplaudiu e continuou assistindo os outros casais esticando os beiços até sentir câimbra.

www.juicysantos.com.br - beijando e jogando

Foto: Memória Santista

Para sobreviver mentalmente, cada participante desenvolveu sua técnica. A mais popular era a de contar letreiros, objetos nas vitrines ou pessoas nas escadas rolantes. Outros jogavam mini-games eletrônicos com as bocas coladas. O público ficava chocado com a ausência total de romantismo, imagine se eles conhecessem os aplicativos de cardápio humano da atualidade.

O casal Beatriz Panzoni e Jair Santos foi mais longe: combinaram que, se um sentisse vontade de espirrar, avisava o outro com antecedência. O parceiro então mordia o lábio de quem ia espirrar para evitar o desgrude no momento da tragédia, haja intimidade.

O ex-marinheiro e o carro que virou perna

A história mais tocante foi a de Sandro Pons, 24 anos, ex-marinheiro que havia perdido uma das pernas em um acidente de carro. Ele se inscreveu com a esposa com um objetivo preciso: ganhar o prêmio, vender o Gol e comprar a prótese que precisava para largar a muleta.

Sandro foi desclassificado por dormir no ponto, mas a imprensa contou a história. E Santos, que às vezes reclama mas no fundo tem um coração enorme, respondeu com uma enxurrada de ofertas de ajuda. Ele saiu sem o carro, mas conseguiu a perna.

Greve de beijo, xixi nas calças e o “extermínio final”

Com 45 dias de competição e oito casais ainda resistindo, os ânimos estavam no limite. As regras haviam sido endurecidas sucessivamente. Em determinado momento, um participante mais tenso gritou palavras de ordem: “Ninguém entra, ninguém sai!”

A greve de beijo durou menos de 30 segundos. Os organizadores fizeram a contagem regressiva e antes do tempo acabar, todos já estavam de boca colada novamente.

Em 9 de agosto, a organização acionou a tática de “extermínio”: beijo 24 horas, sem intervalo. Nessa reta final, além do cansaço extremo, aconteceu o inevitável. Teve gente que fez xixi nas calças enquanto beijava.

A Playboy foi a Santos cobrir o beijo

Enquanto os participantes tentavam dormir em pé com os lábios grudados, a imprensa nacional começou a aparecer. Primeiro a Veja. Depois a Playboy, que mandou o jornalista Audálio Dantas, ex-presidente da Federação Nacional de Jornalistas, para cobrir o que ele mesmo provavelmente jamais imaginou que fosse cobrir na vida.

Dantas escolheu um casal como personagem central: o de número 8. Registrou os pés inchados dela, os olhos aflitos dele, os dois se balançando como pêndulos enquanto tentavam não dormir. Ela chegou a sonhar, de pé, com o próprio namorado, mas num lugar só deles, longe das câmeras.

Lindo? Trágico? As duas coisas ao mesmo tempo.

Fim de linha no Gonzaga

Após 62 dias, 8 horas e 15 minutos, Márcio José, 20 anos, e Ivy Simões de Lima, 19, foram declarados vencedores. Em segundo lugar ficaram Sandro Gamelgo, 20, e Neuza de Jesus Ferreira, 26, que também levaram um carro.

www.juicysantos.com.br - final da maratona

Foto: Memória Santista

Neuza descreveu o que sentia ao se aproximar do Beijódromo durante as semanas de competição:

“Quando subia a escada rolante para chegar lá, a garganta secava e eu começava a tremer.”

Dois meses de beijo técnico e ela ficou com fobia de escada rolante. O Miramar, ao menos, agradeceu. Uma das lojas faturou 900 mil dólares a mais naquele mês.

Santos colocou os casais para beijar. O comércio vendeu. A cidade virou notícia nacional. E, no fim das contas, isso é tão santista quanto qualquer outra coisa que você já viu por aqui.

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