Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 25 anos - Santos

Instituto Querô: 15 anos transformando a vida de jovens da região

Um cabaré de baixa categoria.

É neste cenário que começa a história de Querô. Um dos textos mais famosos do santista Plínio Marcos, publicado em 1976. A história do menino, órfão de um prostituta que tomou querosene após o parto, acontece na Bacia do Mercado, região central de Santos. E, em 2007, ganhou filme.

Para ser fiel ao texto, as gravações aconteceram aqui na cidade.

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E isso tem mudado a vida jovens da região desde então

Não está entendendo nada? Calma, a gente te explica.

Apesar de lançado em 2007, o trabalho por trás do filme começa lá em 2004. Quando o cineasta Carlos Cortez e a produtora Gullane Entretenimento começam uma pesquisa de elenco nas áreas mais carentes da região portuária.

No total, mais de 1200 jovens de Santos – e também de outras cidades da região – participaram de dois testes. Destes, 40 foram convidados para integrar o elenco. Samuel de Castro tinha 17 anos e morava na Vila Nova quando soube da oportunidade. Maxwell Nascimento vivia na região da Bacia do Mercado, tinha entre 14 e 15 anos, fez o teste só porque aconteceria no horário da aula de português.

Ambos foram selecionados.

“O teste foi na Associação Cortiços do Centro (ACC), que era próximo da minha casa, e eu decidi participar. Eu estudava e trabalhava no CAMPS. Gostava de teatro, mas nunca tinha imaginado fazer um filme”, conta Samuel.

Uma vez no set de filmagem, ambos descobriram o que queriam fazer dali em diante.

Não só eles, como todos os envolvidos no projeto. Por isso, a equipe da Gullane percebeu que não poderia simplesmente ir embora quando as gravações acabaram. Decidiram, então, passar mais um ano com eles e prepará-los para trabalhar com audiovisual e produzir curta-metragens.

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Foi assim que, há 15 anos, surgiu o Instituto Querô

Você, provavelmente, já ouviu falar sobre o projeto.

Mas, se acaso nada vem à sua cabeça, a gente resume. Eles não ficaram por aqui só mais um ano. Desde então, anualmente, 60 jovens, de 14 a 18 anos, estudantes de escolas públicas de Santos e região, participam das Oficinas Querô. Em que fazem atividades de produção audiovisual e, ao mesmo tempo, aprendem sobre protagonismo e trabalho em grupo. Tudo de graça.

O Samuel participou da primeira turma, que foi formada pelo elenco do filme.

“Existe minha vida antes de conhecer esse mundo do cinema e após o Querô. Foi nesse projeto que achei o que realmente queria fazer. Desde então é disso que vivo”, conta.

Na época um outro filme seria rodado em Santos: O Magnata, escrito pelo Chorão. E o Samuel pediu um estágio para trabalhar atrás das câmeras. Da sua primeira experiência nos bastidores até agora, é difícil enumerar em quantos filmes o nome do santista aparece nos créditos. Ele trabalha como produtor de locação e esteve envolvido em produções como, por exemplo, Ellis Regina, Irmandade e Lula o filho do Brasil.

Essa é uma história que se repete

Da primeira turma, vários outros alunos seguiram trabalhando com audiovisual. E o Projeto Querô, que teria apenas aquela edição, nunca mais parou.

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Além das oficinas, que têm dois anos de duração, atualmente o Querô também tem outros projetos:

  • Querô na escola;
  • Querô Comunidade;
  • Produtora Querô.

Com os quais impacta a vida de jovens de toda a região. Em 2018, por exemplo, a Isabella Souza trabalhou na equipe de Sócrates – filme da Produtora Querô que foi rodado em Santos.

“Entrei no Querô com 14 para 15 anos. Foi um período muito gostoso da minha vida. Que eu fazia parte de um lugar. A gente conversava sobre audiovisual e também sobre outros temas. Humanismo, trabalho em grupo… naquela época eu me despertei mesmo para o audiovisual. Comecei a pensar na possibilidade de me dedicar mesmo para essa área”, conta.

Atualmente, ela vive em São Paulo onde trabalha na parte de produção audiovisual. De acordo com ela, foi o trabalho na produção de Sócrates que a fez entender em que área do audiovisual gostaria de atuar. Ainda no Querô, ela conta que conseguiu os primeiros contatos e trabalhos como freelancer. Hoje, em São Paulo, trabalha na Gullane Entretenimento.

Sim, a mesma que produziu o filme que deu início ao Instituto Querô.

Aliás, foi graças a uma ponte feita pela equipe de Santos que ela conseguiu a entrevista de emprego.

Também em frente às câmeras

Para além de talentos como Samuel e Isabella, o Querô também tem a tradição de revelar talentos das artes cênicas. Maxwell, por exemplo, nunca tinha sequer pensado em ser ator. Até a chegada de dois produtores na escola onde estudava, seu sonho era ser jogador de futebol.

“Eu estava na aula de educação física quando eles chegaram e falaram sobre os testes. No primeiro momento, nem quis fazer. Achava que novela era coisa de mulher”.

O pensamento, fruto de uma sociedade machista, foi vencido pelo argumento dos amigos: eles poderiam escolher entre a aula de português e o teste.

Assim, Marwell descobriu que gostava de atuar. E a equipe encontrou o protagonista do filme. Ele, aliás, foi premiado como melhor ator no Festival de Cinema de Brasília e também no Cine Ceará daquele ano. Em seguida, em 2008, o santista fez ‘Malhação’ ao lado de Nathalia Dill.

“Aquilo mudou a minha vida. Não tinha expectativa nenhuma, além do lance de ser jogador. Eu mudei muito. Pensamento, maturidade, profissionalismo… enfim, tudo”, conta.

O trabalho mais recente do ator foi o filme Carcereiros, de 2019. Ele conta que, por conta da pandemia, está difícil conseguir oportunidades. Mas segue estudando e está disponível para trabalhos.

Cria do Querô na Globoplay e Netflix

Christian Malheiros estudou teatro na Escola de Artes Cênicas (EAC) Wilson Geraldo. Mas foi a participação em Sócrates, que também teve participação do Tales Ordakji, que alavancou sua carreira.

Depois do filme, o santista foi um dos protagonistas da série do KondiZilla para a Netflix, Sintonia. Que, aliás, tem a segunda temporada confirmada. No mesmo streaming, ele é protagonista do filme 7 Prisioneiros, ao lado de Rodrigo Satontoro. Mas o filme ainda não foi lançado.

Enquanto isso, no Globoplay, ele participou da 5ª temporada de Sessão de Terapia.

Mesmo entre os jovens que passaram pelo Querô e não seguiram no audiovisual, o sentimento é o mesmo. Pois, como o próprio Maxwell diz, é na instituição que, muitas vezes, jovens aprendem a sonhar e enxergar o mundo com outros olhos.