Ludmilla Rossi
Texto porLudmilla Rossi
39 anos - Santos

Coworking em Santos

A primeira matéria que fizemos falando sobre coworking em Santos foi publicada em 2012. Curiosamente o título era “Por um espaço de coworking em Santos“.

Naquela ocasião, dois amigos tentavam levantar uma iniciativa de espaço de trabalho compartilhado na Av. Ana Costa.

Rever essa matéria me trouxe nostalgia e agonia. Um dos principais motivos é que o Santiago, uma das pessoas que estava capitaneando essa iniciativa na época, faleceu em maio de 2021. A outra é concluir que Santos, apesar de ser considerada desde 2015 pela UNESCO como uma das 10 cidade criativas do Brasil, ainda precisa fortalecer seu ecossistema de negócios criativos.

Nesse texto compartilho o que aprendi sobre espaços de trabalho compartilhados, desde que comecei a olhar para este tema em 2010.

Cabe um coworking em Santos?

No final de 2010 eu e meu sócio estávamos planejando a mudança da minha empresa primogênita 😂 para um novo escritório, que era grande demais já naquela época. Um espaço de 450m2, do qual eu precisava de apenas uns 300. Com espaço sobrando, minha primeira ideia foi: “porque isso aqui não vira um espaço compartilhado para as pessoas trabalharem daqui?”. Eu nem sabia que a palavra coworking existia.

Como boa curiosa que sou, fui ver se existia algo do gênero em São Paulo. Acabei conhecendo o The Hub, que nasceu em Londres, já estava em outros lugares do mundo e anos mais tarde deu origem ao The Impact Hub.

Era um dia ensolorado em Sampa e eu aproveitei, com meu Nokia E5 em mãos (quem nunca?), para fazer uma busca no Google e descobrir onde o The Hub ficava. Entrei em um táxi (um mundo sem aplicativos de mobilidade) e fui até lá. Sem marcar. Só com a cara mesmo.

Eu fiquei maravilhada com o conceito do The Hub pelo site e logo pensei: “precisamos de uma parada assim em Santos”. Na breve visita, fui recepcionada por uma moça argentina chamada Angelica (se minha memória estiver funcionando) e fiz a pergunta: “Como posso ter um The Hub em minha cidade?”.

A Angelica deve ter me achado meio maluca e respondeu que eu precisaria descobrir outros cinco empreendedores interessados em ter uma estrutura do The Hub na cidade. E completou: “Eu só conheço um, o Rodrigo. Liga pra ele”.

Peguei o contato. Liguei. E acabei conhecendo o Instituto Elos, do qual o Rodrigo é um dos fundadores. Eu me apaixonei pelo Elos e me encantei de ver algo tão poderoso em Santos, que gerava impacto em jovens do mundo inteiro. E eu nunca tinha ouvido falar.

Na visita ao The Hub não saiu um coworking em Santos. Eu e o Rodrigo falamos sobre o assunto, mas, se o próprio The Hub em São Paulo ainda não tinha uma estrutura sólida (para você ter uma ideia, os caras funcionavam sem ar-condicionado) e o mercado em Santos ainda era incipiente para algo do gênero. Mas comentei com o Rodrigo sobre outra ideia: montar um espaço para compartilhamento de conhecimento e levantar eventos solidários, treinar pessoas, gerar intercâmbio de conhecimento.

Com um incentivo moral imenso do Elos, a Mkt Virtual abrigou o TIP do início de 2011 até abril de 2021. Pouca gente sabe dessa história, mas o TIP nasceu com a intenção de ser o primeiro coworking da região. E acabou virando um espaço para educar a comunidade interessada na economia criativa em Santos.

Sequência de imagens no TIP, espaço de compartilhamento de conhecimento

Alguns momentos vividos no TIP entre 2011 e 2018

Em 2011, como empreendedora, eu não tive coragem de iniciar um coworking em Santos, porque na minha interpretação, o ecossistema ainda não tinha nem quebrado a casca do ovo.

O sonho do coworking da Ana Costa de 2012

Com  o TIP acontecendo e recepcionando inclusive enventos de outras pessoas, o Santiago e o Niva me procuraram querendo usar o espaço para “sonhar um sonho coletivo”. Assim como para muitas outras pessoas, abrimos as portas para a dupla e seus convidados. Eles me convidaram para também fazer parte deste primeiro encontro. Outros encontros foram feitos, mas eu lembro de ter participado muito pouco da iniciativa. Apesar de entusiasta, eu ainda enxergava que o ecossistema local estava distante de ter a cultura necessária para abarcar algo tão grande. Esse espaço, sonhado em 2012 para ser um pioneiro coworking em Santos ficaria na altura da Ana Costa 380, mas infelizmente nunca saiu do papel.

O primeiro coworking em Santos

É muito difícil falar sobre quem foi o primeiro coworking em Santos pois ainda há muita confusão do conceito. Muita gente ainda confunde coworking com escritório flexível, escritório compartilhado, escritório virtual, entre outras facilidades. Mas, quando pensamos em coworking é importante olhar como esse mercado amadureceu no hemisfério norte – e hoje já existem marcas que são sinônimo da categoria coworking.

Em Santos não seria diferente. Por aqui uma das empresas que começaram a atuar no segmento de espaços profissionais compartilhados foi o Smart Center. Localizado entre a Av. Ana Costa e o Canal 3, na Rua José Caballero, 15, o Smart Center existe em Santos desde 1999. Na leitura deles, o coworking é um escritório compartilhado onde profissionais de diferentes áreas compartilham o mesmo ambientes.

Em meados de 2011 surgiu em Santos o Espaço Certo, com a proposta de escritórios virtuais e escritórios prontos para usar. O time do Juicy Santos já experimentou os serviços de coworking do Espaço Certo, que segue um estilo similar ao do Smart Center. São 13 posições para quem não quer trabalhar “isolado” no dia a dia.

Foi em 2017 que o conceito de coworking, baseado em comunidade e interesses em comum, ficou em maior evidência em Santos através da chegada da Spacemoon, que conseguiu criar uma comunidade de start-ups e pessoas interessados no tema. Porém em 2021 a Spacemoon pivotou seu negócio, abrindo mão do espaço físico.

Mas lá, pela primeira vez em Santos era possível ver a “vibe” que expressa o modelo de coworking: um espaço amplo, aberto e com mais de 50 posições, abrigando várias especialidades trabalhando em um mesmo ambiente. Hoje a Spacemoon está focada na comunidade e em educação sobre start-ups e empreendedorismo.

Antiga sede da Spacemoon, coworking em Santos

Espaços de trabalho compartilhados

Em julho de 2021 podemos contar com os seguintes espaços de trabalho compartilhados em Santos:

Centro de Santos

Vila Matias

Gonzaga

Outros

Comunidades e espaços

Com o crescimento da economia compartilhada, incluindo coworkings, colivings, aplicativos de mobilidade, hospedagens, entre outros serviços que ganharam o mundo, o mercado amadurece e os consumidores demandam novas soluções.

Os espaços físicos, após a aceleração imposta pela pandemia de COVID-19, não deixarão de existir. Ao contrário do que se falava em abril de 2020, a pandemia expos a importância da qualificação do tempo.

Trabalhar em casa trouxe elementos positivos como menos tempo em trânsito, maior convivência familiar e cozinhar a própria comida. Mas efeitos negativos também foram notados: a ausência da interação pessoal, ambientes inadequados para trabalhar, extinção das ideias impulsionadas pelos encontros, volume excessivo de videoconferências e a desaceleração de aprendizagem.

Ainda assim algumas empresas anunciaram a devolução de parte de suas lajes corporativas e a adoção do formato remoto. Outras irão adotar o trabalho híbrido, seja flexível, seja obrigatório. Outras empresas voltarão ao que eram antes.

O futuro do mercado de trabalho está sendo definido e a economia compartilhada promete gerar ainda mais impactos nos hábitos e na configuração das cidades. E os espaços compartilhados fazem parte disso, inclusive como protagonistas.

Antes da pandemia o relatório (2020) da Coworking Resources apontava um crescimento anual de 21.3% no mercado de coworkings.

A Ásia é o continente que lidera o ranking em número de espaços, seguida pela Europa e América do Norte. Em termos absolutos o Brasil possui menos de 2% do total de espaços compartilhados no mundo, ou seja, ainda há muito a ser desenvolvido.

Coworking em Santos

Em Santos, ainda há um longo caminho para a adoção da cultura de espaços profissionais como serviços (e não apenas como imóveis) e a cultura de espaços compartilhados. Faz parte disso não apenas pensar nos espaços, mas em como utilizar esses locais para serem verdadeiros aceleradores da economia local.

Não se trata de negócios regionalizados, mas sim fazer de Santos um verdadeiro pólo de inovação, criatividade e exportação de suas ideias, não de seus talentos como vemos acontecer por muitos anos. Antes da pandemia, milhares de pessoas usavam o sistema de fretados diariamente, além das milhares de pessoas que saíram de Santos em busca de oportunidades profissionais.

Os espaços compartilhados, coworkings, enfim, a nova economia, podem ajudar Santos a repensar essas características que moldaram a cidade por anos.

O terceiro lugar

Em 1989 o livro The Great Good Place foi publicado pelo sociólogo Ray Oldenburg, trazendo um olhar sobre os locais de encontro ocasionais e sua importância para as cidades. Cafés, espaços comunitários, pequenas livrarias e salões de beleza de bairro fazem parte dos lugares enaltecidos pelo autor.

Ray explica que o primeiro lugar é a nossa casa, onde convivemos e relaxamos em família. O segundo lugar é o trabalho, onde possuímos relações mais formais. E os terceiros lugares são aqueles onde podemos agir, relaxar, sem qualquer premissa ou julgamento, onde temos a liberdade de conversar despretensiosamente. Justamente nesses lugares as ideias fluem, a criatividade é expandidas e grandes revoluções (literalmente) acontecem. O autor cita inclusive a revolução francesa como exemplo: sem os cafés franceses, ela nunca aconteceria.

Coworkings são exatamente um exemplo de terceiro lugar do contexto da nova economia – e é por isso que precisamos de coworkings em Santos. Vale lembrar que quando Ray escreveu o livro, a Internet não era uma realidade e a conectividade ainda era uma fronteira imensa.

Infelizmente há pouquíssimo material em português que trata com profundidade a obra do sociólogo americano, mas o próprio autor explica o conceito do terceiro lugar em vídeo contido neste link.

Quais são os serviços mais comuns nos coworkings de Santos?

Os coworkings de Santos possuem um cardápio variado de serviços. Entre eles estão:

  • Aluguel de posições individuais
  • Aluguel de salas privativas
  • Endereço fiscal e/ou endereço comercial
  • Secretaria
  • Lockers e/ou caixas de correspondência

Alguns poucos coworkings em Santos possuem o serviço de BTS (build to suite), ou seja, estruturas privativas dentro do coworking, feitas sob medida para a empresa. Esse é um serviço personalizado e com custos mais elevados, mas que é bastante comum nas empresas globais de coworking como WeWork, IWG (Regus e Spaces), entre outras.

Como escolher meu coworking em Santos?

Em grandes cidades é comum os coworkings concentrarem comunidades específicas. Um dos exemplos que amamos citar é a B2Mamy, uma empresa de educação que possui um coworking focado ser um espaço amigável à mães, mulheres e famílias que querem produzir, aprender e poder levar os filhos. A B2Mamy em São Paulo fica em Pinheiros. Em Santos, são parceiros do Juicyhub.

Em Santos, por ser um mercado em maturação, é importante observar as comunidades que estão ao redor dos espaços listados nessa matéria.

E além disso, antes de escolher o seu coworking em Santos, indicamos observar as seguintes características:

  • Comunidade: de qual comunidade você deseja se aproximar? Empreendedores? Especialistas? Criativos? Start-ups? Profissionais de impacto? Outros?
  • Localização: escolher um espaço próximo à sua casa gera menos impacto no meio ambiente. Acesso fácil à ciclovias, bicicletários e formas de transporte alternativas também contribuem para uma cidade melhor.
  • Design: você espera uma arquitetura mais descolada ou mais tradicional? Em qual estilo de prédio?
  • Hospitalidade/amenidades: atendimento, horário de funcionamento, preocupação com a sua experiência, flexibilidade, serviços, qualidade da Internet. Tudo isso precisa ser avaliado.
  • Estilo: você espera algo mais formal ou informal?
  • Preço/valor agregado: sempre o melhor custo benefício, ações colaterais e valor gerado.

Se quiser dê uma olhadinha nas matérias que mencionei ao longo deste texto:

  1. Conheça o Juicyhub, hub de inovação em Santos
  2. Por um espaço de coworking em Santos
  3. De ‘The Hub’ para The Impact Hub – conheça a história (em inglês)
  4. Report Coworking resources realizado em 2020, antes da pandemia