Texto porLeandro Marçal
Escritor e jornalista, Santos - SP
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crônica

Trinta por cento

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Não faz muito tempo, aceitei que cerca de 30% da população gostaria de me ver destruído.

Ficariam felizes com meu cadáver apodrecendo por pensar como penso. Me perguntei se essa mesma proporção se repete em meu microcosmo. Se a resposta for sim, aproximadamente um terço de gente do meu convívio tomaria champanhe para comemorar um desaparecimento de minha família.

A cada 100 pessoas que passam por mim nas calçadas, restaurantes, escritórios ou pontos de ônibus, 30 delas acham bom ou ótimo ver semelhantes discriminados por cor da pele, religião, orientação sexual e outras características que lhes tirem a carteirinha de pertencente às maiorias.

www.juicysantos.com.br - ilustração de homem branco e de meia idade vendado trinta por cento

Pode ser que eu tenha passado por um processo de negação da realidade, semelhante àquelas fases do luto. Sou incapaz de memorizá-las para listar aqui e passar a imagem de cronista conhecedor dos estudos da mente. Mas, confesso, talvez a quarentena tenha me despertado.

Por isso, abri os olhos o fato de que 30% das pessoas acham bom ou ótimo ver infelizes saindo às ruas para buscar o pão de cada dia, aumentando exponencialmente as chances de terminar sem respirador num leito de hospital sucateado. É a vida, pensam os 30%.

30 de cada 100 pessoas aprovam que se pense mais num cargo que na roleta-russa de vidas brasileiros. 30 de cada 100 vidas brasileiras têm uma pulsão de morte inacreditável para o bom senso. A qualquer conversa breve, pensam em armas, violência e conspiração.

De cada três pessoas que cruzam comigo em um dia comum, uma faz parte do grupo dos ressentidos, lutando contra moinhos de vento sem conhecer Dom Quixote, incapaz de reconhecer a própria tacanhice, mas capaz de vomitar nas redes sociais a ignorância que faz dessas terras uma vergonha internacional sem precedentes.

Trinta por cento. Assim, por extenso: trinta por cento, aprovam, acham ótimo ou bom ter o Brasil como chacota do mundo. Pária, vergonha. Quanto um desavisado vestindo um verde e amarelo brega se aproxima, os gringos mudam de assunto para não melindrar o assunto desagradável chegando na rodinha. Passam a falar de futebol, unha encravada, o tempo lá fora ou amenidades que não causem desconforto. Aliás, nem do tempo podem falar, porque sua previsão é baseada em estudos científicos, segundo os quais a Terra é redonda, para a veemente discordância sem fundamento desses trinta por cento.

Um terço. Preciso ressaltar: um terço da população é de seguidores fiéis de uma seita de ressentidos, orientada pelo ressentido-mor que sequer mora no Brasil, mas orienta o jumento-mor da república, também ressentido. E cretino. E burro. Muito burro. Muito cretino.

Busque terapia para sair da fase de negação para aceitar que 30% acham bom ou ótimo ter no cargo máximo do país um invertebrado que fez chacota de milhares de mortes na maior pandemia dos últimos cento e tantos anos, cujo número de óbitos nem posso citar aqui pela certeza do dado ficar obsoleto entre minha digitação e a publicação da crônica.

Essa terça parte grita e é violenta. Nas ruas e nas redes. Desinformados, desinformando. Lamento muito se seu pai, mãe, irmãos ou cônjuge fizer parte da infeliz estatística que coloca esses tempos como bons ou ótimos.

Tenho sorte nisso. Caso contrário, teria parentes fazendo parte dos 30% que aceitariam, com aplausos, que gente da arte e da cultura, como eu, aparecesse com a cabeça pendurada em uma estaca exposta no centro da cidade. Cada comentário me xingando de comunista, globalista, mamateiro, petista, vagabundo, saudoso da Lei Rouanet etc. será orgulhosamente digitado por um membro do terço de ressentidos.

Se você precisa conviver diariamente com alguém desses cerca de 30% que acham que está tudo bom ou ótimo, meus pêsames. Para mim, foi dolorido sair da fase de negação para a de aceitação. Não sei qual será o tamanho das cicatrizes de vocês com as feridas geradas pelo terço.