Texto porLeandro Marçal
Escritor e jornalista, Santos - SP

Não era hora de ter um filho

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Demorei muito para compartilhar essa história.

Eu tinha acabado de pedir as contas para tentar a sorte como autônomo.

Nada de empreendedor, sou do tempo em que colaborador era empregado, no máximo, funcionário, e “job” era bico, ou trampo, para os mais íntimos.

No começo, as dificuldades eram esperadas, até porque minha esposa tinha acabado de se formar e estava no primeiro emprego pós-diploma. Daríamos um jeito, apertando daqui, segurando de lá, mas era hora desse inadiável investimento no futuro. Um dia, ela não se sentiu muito bem, notou um atraso, fez um exame, fez outro exame e confirmou a gravidez.

www.juicysantos.com.br - não era hora de ter um filho - berço de madeira vazio

Um acidente inesperado, ainda que todo acidente seja inesperado.

Aquele tratamento de semanas antes não foi com a cara do anticoncepcional.

Era hora de repensar tudo. Se queríamos uma vida melhor para o filho ou filha, talvez eu precisasse dar um passo para trás e deixar a vida de autônomo para outra hora, voltando a bater cartão numa empresa com bom convênio e dinheiro na conta todo dia 5 do mês. Minha esposa se apavorou com a possibilidade de mudar tudo antes do previsto. Nos nossos planos, uma gravidez só se encaixava dali a uns cinco anos.

Conversamos com meus pais. Médicos bem estabelecidos na cidade, sabiam com quem falar para garantir um procedimento seguro.

Minha esposa não teve pai. Minha sogra veio ao nosso apartamento e chegamos à conclusão óbvia: não era hora de ter um filho. A decisão já estava tomada, mas prezamos pela transparência com os familiares.

Ela fez questão de dar uma ajuda financeira. Não queria que tirássemos um centavo da minha empreitada e se colocou à disposição para estar com a gente no dia do procedimento. Não vou mentir, fiquei com medo de dar tudo errado, mas era a decisão mais racional.

Fomos cedinho à clínica. Minha esposa, minha sogra e eu. Nada muito diferente dos consultórios da cidade. A diferença mais marcante era o compromisso em cumprir o horário marcado, feito mais difícil que encontrar uma vaga para estacionar. Quando olhei para os lados, vi mulheres sozinhas, olhando para baixo, tentando se esconder não sei bem do quê. Era inacreditável pensar que poderiam ser punidas por decidir o próprio destino.

Chamaram minha esposa e ela preferiu entrar com minha sogra, se sentia mais segura com a mãe e eu respeitava isso.

Na volta para casa, tivemos bastante cuidado com o repouso indicado. Sorte a nossa que os chefes dela nem desconfiaram da viagem para resolver problemas de família, compensada no mês seguinte com horas extras.

Quando ouço um revoltado chamando aborto de assassinato, me pergunto se alguém comemora o aniversário contando a data da concepção, não o dia de nascimento. Até hoje, nunca me deparei com postagens de “parabéns pra mim” no Instagram com a legenda “num 3 de fevereiro como este, há 34 anos, fui o espermatozoide vencedor da corrida, cuja largada foi dada por meus queridos pais numa pousada em Angra dos Reis”.

Minha esposa continua naquela empresa e hoje tem cargo de gerência.

Nossa rotina é muito bem combinada. Ela deixa as crianças na escola antes de ir para o serviço e eu vou buscá-las. Como trabalho de casa, fica mais fácil reorganizar o expediente nos dias em que ela precisa ficar até mais tarde. Quando tenho muitas reuniões, não posso sair da frente do laptop e meus pais ou minha sogra dão uma força, buscando os pequenos e trazendo para casa.

Conseguimos seguir muitos dos nossos planos traçados desde o namoro, mas volta e meia o acaso dá as caras.

Na maioria das vezes, conseguimos colocar tudo de volta no lugar.

Infelizmente, nem todo mundo tem a mesma oportunidade de juntar os cacos depois de acidentes.

Somos privilegiados, minha esposa diz.