01/07/2018 Por Juicy Santos Cinema, Indivisibilidade

Curta metragem Ana discute racismo e representatividade

O curta metragem Ana, produzido pelos jovens das oficinas Querô, já está rodando os festivais de cinema pelo Brasil e brilhando por aí.

Nós falamos desse filme em 2017, quando a galera decidiu fazer um financiamento coletivo para viabilizar o projeto. Agora, temos o orgulho de noticiar que a história da menina negra que não reconhece os próprios traços foi selecionado para eventos como o Festival Curta Taquary, na CMOC Internacional Brasil e para a Semana da Imagem e Som da UFSCAR.

www.juicysantos.com.br - curta metragem ana do instituto querô

Dirigido por Vitória Felipe, o curta surgiu no instituto santista que forma jovens de baixa renda da região para trabalhar no mercado audiovisual.

“Tomamos conhecimento do relato de uma menina que não se considerava negra, e começou o processo da turma de identificação, decidimos investir e começamos a desenvolver para o roteiro”, comenta Vitória, sobre o processo de construção da história.

O curta metragem Ana

A personagem-título é uma criança que não se identifica negra e encontra em Jeannette, refugiada do Congo, a representação que precisa para se descobrir.

Com uma fortíssima temática social, a produção nasceu a partir de questionamentos colocados durante toda a oficina, que busca formar não apenas profissionais de audiovisual, mas cidadãos.

A diretora do curta utiliza seu próprio exemplo e comenta sobre a transição capilar que aconteceu durante o tempo no instituto.

“Foi lá que eu me entendi negra, foi lá que eu me posicionei. Lá que eu cortei o cabelo. Quando entrei alisava e hoje uso natural. Foi um processo de me formar e me entender”, salienta a jovem.

Depois do instituto, ela estabeleceu uma relação com grupos sociais feministas e do movimento negro.

Vitória Felipe

Aos 19 anos, Vitória encarou não só o desafio de se redescobrir, mas também de assumir a posição de diretora do curta metragem Ana a partir de um processo de divisão de tarefas.

Sobre a trajetória do filme em festivais, ela destaca que ele está abrindo muitas portas.

www.juicysantos.com.br - curta metragem ana

“(Sobre o Festival de Taquary). Foi minha primeira vez saindo do estado, viajando de avião, viajando sozinha, primeiro festival de cinema fora da nossa cidade. Foi muito importante. Me fez abrir os olhos, voltei com muita garra de fazer cinema”, afirma Vitória.

“A gente vê o cinema como algo para quem tem dinheiro, mas não é assim. Foi importante ocupar esse lugar”.

Para aprofundar a experiência, a equipe de Ana buscou ajuda externa com os profissionais da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). Eles tiveram três tutoras especializadas para dar suporte durante o processo, como a cineasta Joyce Prado. Ela ficou com o papel de orientar os jovens sobre a representação negra no audiovisual e o debate social por meio das telas.

Segundo Joyce, é bem comum encontrar famílias negras representadas no cinema de forma deturpada, geralmente com problemas.

Isso gera uma falta de identificação que ela reforça ter sido uma questão presente na vida dos jovens.

“Em quem eles vão se espelhar, se eles não vêem uma pessoa negra como cientista, artista ou policial nas telas? Eles não se espelharam em alguém para serem cineastas. Isso porque não chegaram a encontrar essa referência”, destaca. 

By: Leticia Gomes

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