Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 23 anos - Santos

Santos e o teatro, uma história de amor e luta

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Santos, 1830.

Nos finais de tarde, uma fila se forma em frente a um casarão no Largo da Coroação (atual Praça Mauá). Todos com cadeiras e lanternas em mãos – exceto os mais ricos, que dispõem de escravos para essa tarefa. As cadeiras são para se acomodar, já que o casarão não tem assentos; enquanto as lanternas iluminam o caminho de volta para casa, uma vez que a iluminação pública é precária nesse período.

De acordo com registros, o endereço ganhou o apelido de Teatro de Santos em 1854.

juicysantos.com.br - Santos e o teatroImagem: Militão Augusto de Azevedo

Mas, por conta das dificuldades financeiras (apesar de ser o principal entretenimento da cidade), o local fecha as portas em 1879. Em seguida, o casarão passa a ser armazém de café. E, anos depois, vira o endereço da Casas Pernambucanas e Loja Duarte Pacheco. Em 1940, é demolido para a construção do Edifício Novo Mundo.

Apesar de um primeiro ato shakespeariano, a história de Santos e o teatro é longa e tem seu renascimento.

Santos e o teatro: todos os atos desse movimento

Os palcos e as histórias do teatro em Santos

A construção do Teatro Guarany, oficialmente o primeiro da cidade, aconteceu em 1882 graças a uma comissão formada pelo público carente de um local para consumir arte. Após a inauguração, o Guarany foi palco de movimentos a favor da abolição da escravatura e em defesa da república, assim como outros movimentos históricos. Só para ilustrar, durante a estréia da peça A Sombra da Cabana, um homem recebeu sua carta de alforria. Segundo a história, a liberdade foi paga com o dinheiro da bilheteria.

Desde então, a força do teatro em Santos só cresce. Atualmente, são 3 teatros públicos funcionando, mais de 20 grupos e vários locais para estudar artes cênicas.

www.juicysantos.com.br- teatro coliseu de santos visto da plateia

“Proporcionalmente, Santos é uma das cidades que tem mais teatros públicos do Brasil. Isso é importante, pois possibilita acesso à arte. Sem contar os teatros privados (como é o caso do Sesc e Sesi, por exemplo); teatros dos sindicatos e os anfiteatros”, comenta Junior Brassalotti, presidente do Conselho Municipal de Cultura de Santos.

Ainda de acordo com ele, é importante lembrar que para além dos teatros convencionais – historicamente recentes -, a cidade tem uma vasta programação de teatro de rua.

“O teatro como expressão surgiu na rua. Nesse sentido Santos é uma cidade ainda mais rica, pois às vezes é possível se encontrar com algum espetáculo no caminho para casa”.

O cenário positivo, no entanto, foi uma conquista do movimento artístico de Santos. O Teatro Municipal Brás Cubas, por exemplo, nasceu a partir de uma luta encabeçada por Patrícia Galvão. Outras conquistas, tais como a manutenção da Secretaria de Cultura, também têm as mãos do movimento.

“A primeira proposta do Beto Mansur (ex-prefeito de Santos, entre 1997 e 2004) foi fechar a secretaria. O pessoal do teatro encabeçou um movimento para que isso não acontecesse. Tivemos muitas discussões na câmara, com artistas de todos os segmentos, para que a proposta não andasse”.

Também foram conquistas do movimento teatral de Santos:

  • Criação do teatro Rosinha Mastrângelo (atualmente fechado para reforma)
  • Criação do Facult – edital de incentivo para projetos culturais em Santos
  • Continuidade do Centro Cultural Cadeia Velha
  • Instalação da Escola de Artes Cênicas de Santos

Festivais de teatro em Santos: o mundo cabe aqui

O movimento não só lutou pelos seus direito, como também por uma Santos com atrações teatrais em sua agenda.

Assim surgiram os festivais de teatro em Santos. O FESTA (Festival Santista de Teatro) e o Fescete (Festival de Cenas Teatrais), por exemplo, são pioneiros no Brasil e acumulam décadas de tradição. Já o Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas representa uma novidade no calendário da cidade, mas já é aguardado ansiosamente pelo público ávido por atrações culturais. Além de proporcionar entretenimento e dar acesso à cultura, a programação dos festivais também funciona como incentivo para jovens da região se apaixonarem pela arte e desejarem viver dela.

“Tenho inúmeras lembranças do FESTA”, lembrou o ator santista Alexandre Borges, em entrevista à Rafaella Martinez em 2013. “Percebia que muitas vezes os atores estavam no palco apenas por amor, sem intuito de remuneração ou visibilidade. Eu descobri o amor e o prazer pela arte nos palcos do FESTA e carrego isso comigo até hoje”.

O FESTA, aliás, completou 60 anos em 2018. A primeira edição do festival aconteceu em 1958 e é mais uma criação de Pagu, que neste período se dedicava profundamente à cultura e, principalmente, ao teatro amador.

Assim como a história do teatro em Santos, o FESTA viveu um momento de fragilidade: durante a ditadura, boa parte dos organizadores foram perseguidos e, por isso, o festival sucumbe. Em 1987, retomou-se a programação. E, desde então, o festival é aguardado por grupos de todo o país.

“Ainda vivíamos uma pseudo-ditadura. O retorno foi um grito de libertação. Naquele momento, a principal missão do festival era lembrar até onde a cultura era valorizada, o que significava de fato a cultura”, lembra a atriz Liliane São Paulo.

O Fescete, por outro lado, nasce em 1997. Em um cenário menos turbulento, mas ainda assim de conquistas a serem feitas: abrir espaço para os estudantes da Tescom. Porém, ainda na primeira edição, grupos externos buscaram o festival e, consecutivamente, o objetivo se ampliou ao atendê-los. Desde então, foram mais de 170 mil espectadores e 1.500 apresentações artísticas – entre as mostras competitivas e convidados.

“O Fescete está consolidado no calendário regional. Além disso, a cada ano se fortalece como uma experiência de intercâmbio para companhias cênicas, já que recebemos tantos de todo o país”, comenta Pedro Norato, diretor do festival.

Berço de talentos: estrutura facilita formação

Pode-se dizer que uma parcela significativa dos atores de Santos e região, assim como Alexandre Borges, subiram no palco do FESTA ou do Fescete ou então se inspiraram nos talentos que participam de ambos os festivais.

Esse é o caso de Tales Ordakji O santista que ganhou notoriedade em 2018,  no longa-metragem Sócrates (Instituto Querô), finalizou uma temporada em São Paulo nos últimos meses e se prepara pro próximo filme.

Conheça o Tales fora do personagem e aproveite para segui-lo no Instagram 😉

Interessado em teatro desde o Ensino Fundamental, Tales decidiu que não levaria a arte como um hobby. Neste sentido, as conquistas do movimento teatral ajudaram em sua profissionalização. Afinal, toda a formação aconteceu por aqui: fez cursos no SESI, SENAC e também na Escola de Artes Cênicas Wilson Geraldo. Além disso, também participou de oficinas e workshops na Cadeia Velha, Vila do Teatro e nas Oficinas Culturais Pagu.

“Também participei de diversas edições do FESCETE e do FESTA. Eu acredito que o FESCETE é fundamental para abrir horizontes sobre universo do teatro. Já o  FESTA é importantíssimo para a cena teatral nacional, pois levanta temas essenciais para os tempos em que vivemos”, comenta.

Se acaso Tales tivesse decidido fazer teatro musical, também encontraria suporte. Afinal, desde 2013 Santos tem aulas da modalidade. As aulas acontecem na Escola de Ballet Lúcia Millás, que em 50 anos já formou mais de 3 mil alunos (contabilizando também as turmas de outros cursos).

Enquanto você lê essa matéria, os alunos estão trabalhando na montagem do musical Hairspray. O trabalho começou em 2018 e os ensaios têm acontecido a todo vapor. Afinal, os artistas interpretam, cantam e dançam em cena.  A montagem deve ser apresentada no final de maio, no palco do Teatro Guarany, o mais antigo de Santos.

juicysantos.com.br - Santos e o teatro

Os talentos da cidade também costumam se apresentar no Coliseu (foto acima). O teatro, aliás, é o maior da cidade – com capacidade para até mil pessoas. Construído em estilo eclético, tem estrutura de 1924 e, para não contrastar com o resto da história de Santos e o teatro, tem um ato bem dramático. Isso porque foi abandonado por longos anos e precisou de 10 anos de obras para ser reconstruído.

Recebe elogios rasgados dos artistas que passam por ele. Um deles, Lázaro Ramos, se encantou com o espaço. Sim, ele poderia estar em qualquer cidade da Europa e não faria feio.

Santos e o teatro: 2019

Independente de qual teatro em Santos vá receber a peça que você quer assistir, uma coisa é certa: não será necessário ter uma cadeira e lanterna em mãos. Afinal, 189 anos se passaram desde que Santos teve seu primeiro teatro (que não foi oficialmente considerado um teatro até anos depois).

De todo modo, as reivindicações do movimento teatral continuam. Entre elas, as mais latentes são a criação de uma lei de fomento do teatro e também a criação de oportunidade para que os artistas formados aqui possam viver 100% de suas artes. Afinal, quantas pessoas você conhece que vivem apenas de se apresentar?

Aliás, qual foi a última vez que você foi ao teatro em Santos?

* com informações de Memória Santista