Flávia Saad
Texto porFlávia Saad
37 anos - Santos (SP)

Nunca houve um lugar como a Pink Panther

Santos, anos 70. Uma boate erótica com vista para o mar.

Sexo ao vivo, homens de pau duro no palco, mulheres trans dublando hits de divas americanas, políticos, militares e famosos lado a lado nas mesas da casa noturna mais icônica que a cidade já teve.

Não, não estamos falando de um sonho hedonístico, nem de uma pornochanchada com os jardins da praia como cenário.

A Pink Panther ocupa um lugar dividido entre boas lembranças de frequentadores e funcionários e um certo mistério para quem apenas a observava a partir do outro lado da avenida, imaginando tudo o que se passava por trás das janelas de vidro fumê.

O Juicy Santos conta um pouco mais sobre essa história de acordo com personagens que viveram ela de forma intensa e incrível.

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A vida noturna de Santos nos anos 70

Exatos 22 anos – de 1973 a 1995 – se passaram entre o início e a derrocada da Pink Panther.

A cultura pop influenciava fortemente a vida noturna na cidade. Estrangeiros iam e vinham pelo porto de Santos, transformando nossas ruas em um verdadeiro caldeirão de influências. Além disso, tinha muito dinheiro rolando por aqui.

Os anos 70 foram cheios de contradições no Brasil. Se, por um lado, vivíamos os dias mais obscuros da ditadura militar, a música e o cinema, em especial a pornochanchada, mostravam o que a censura tentava a todo custo esconder.

O nascimento e auge da Pink Panther em Santos coincidiu com fenômenos culturais, com a novela Dancin Days no Brasil (1978-1979), a fama da danceteria Studio 54 em Nova Iorque (1977-1986) e o filme Os Embalos de Sábado à Noite (1977).

“Ninguém estava preocupado com a profundidade das letras (das músicas). Todos queriam bailar e exorcizar os demônios na pista, ao som de batidas altíssimas e muitas bebidas. Era o desbunde entre o fim do sonhos dos Beatles e dos anos 60 e a sombra da Aids, já se insinuando no início dos anos 80”, conta Clara Monforte, em seu livro, Almanaque Social.

O contexto em que surgiu a Pink Panther

Existiam outras boates do mesmo gênero (eróticas) na chamada “Boca de Santos”, como Love Story, Quatro Nove Bola, ABC House (ou ABC Bar, dependendo da época). E elas ficaram conhecidas internacionalmente por causa dos marinheiros.

Mas nenhuma alcançou o glamour, a fama e a popularidade da Pink Panther em Santos. Estava sempre lotada. Além disso, quase todas as outras ficavam no Centro e nos arredores do Porto de Santos (nas Docas) e a única que era de frente pra praia, à vista da comunidade em geral (embora escondida atrás das enormes janelas escuras), era a Pink Panther.

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Outras boates de Santos que faziam sucesso nos anos 70 e 80 estão nesta lista:

  • Chão de Estrelas – Embaré
  • Banzu – Gonzaga – decorada pelo estilista Denner, ficava no térreo do hotel Gironda onde depois funcionou o Point 44 e hoje fica o Six Sports Bar
  • Casablanca
  • Night and Day – onde aconteceu a primeira montagem de Les Girls, com direção de Carlos Gil. Depois disso, o grupo foi para o RJ e originou o Dzi Croquetes
  • Skandinavia
  • Monte Carlo
  • La Barca
  • Night And Day
  • American Bar
  • Zanzibar
  • El Moroco
  • Samba Danças

The one and only Pink Panther

Criada pelo empresário Manoel dos Santos, o Maneco, a Pink Panther não era apenas uma casa de strip e shows eróticos. Se hoje, em pleno 2019, parece difícil aceitar esse conceito, em 1973 não era. Naquele ano, a Pink Panther abriu as portas. E fez história como um lugar que ficou na memória de quem passou por lá.

Funcionava no mezanino do Edifício Universo Palace, na praia do José Menino. O imóvel foi erguido onde antes existia o Palace Hotel, sofisticado estabelecimento inaugurado em 1910 e que contava em seu interior com esculturas francesas e lustres de cristal.

Mesmo depois do boom imobiliário da década de 2010, o prédio em que funcionou a Pink Panther em Santos mantém o “recorde” de condomínio com maior número de apartamentos da cidade de Santos. Está localizado entre a Av. Presidente WIlson e a Rua Cásper Líbero, no bairro do José Menino, em frente à praia, nos números 143 a 147. É quase que o “Copan” de Santos.

Pode-se dizer que a Pink Panther era o que hoje chamamos de balada. Sabe aquelas casas de swing chiques em São Paulo? Então…

Santos na vanguarda dos espetáculos eróticos

Paulinho Goiano, DJ da Pink no auge do sucesso, conta que a origem era, na realidade, um espaço para eventos. Houve até mesmo festa de debutante no local. Mas o que o povo queria mesmo era ver as meninas tirando a roupa.

“A casa faturava bem, então trazia vários diferenciais no mobiliário, na estrutura e na aparelhagem de som. A seleção musical era muito moderna para a época, com novidades vindas da Europa e dos EUA e até vinhetas de rádios gringas”, relembra Goiano.

A Pink oferecia sexo ao vivo, grandes atrações, moças lindas e bem vestidas, com maquiagem impecável e atendentes poliglotas. Sargentelli e suas mulatas e as Boletes do Bolinha fizeram inúmeros shows lá. Assim, atraía anônimos e famosos, em busca de companhia ou apenas para curtir a noite. Sem pudores.

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Se Maneco era o cérebro da Pink, Tanya Starr (Tony Fernandes) era seu coração.

Tanya selecionava as meninas, cuidava de figurino e beleza, ensaiava os números, fazia os cenários e toda a direção artística dos shows da boate. Ela também levava ao palco, segundo Goiano, músicas que faziam sucesso no rádio e temas relevantes do momento para a cultura brasileira e internacional. Por isso, a Pink tinha essa fama de boate “da moda”.

Tony também trabalhava como cabeleireiro. Então, todas as bailarinas da Pink se produziam em seu salão de beleza, que ficava na Rua Euclides da Cunha.

Tony era um grande papo. Cativava o público. E adorava encher a casa com molecada para criar um diferencial mercadológico, deixando que as boites do centro fossem apenas para os adultos e a da praia mais plural. E a Pink recebia muitos casais e turistas também. Era um ambiente bem democrático”, conta Chico Marques, jornalista e músico, que frequentou a Pink em seu auge.

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Quem viveu a época deve se lembrar de nomes de artistas performáticos, como Suzi D’Avila, Tiggy La Torraca, Sergio Zocante, Marina, Rosângela, Zezé, Bia, entre outrXs.

Os domingos eram totalmente dedicados à beleza trans. Foi na Pink que Roberta Close faturou seu primeiro concurso como travesti. Dali, ganhou as capas de revista e o Brasil.

A PP inovou ao mostrar os primeiros shows de “PD” aos domingos à tarde. O que quer dizer isso? Que os homens ficavam de pau duro ao final da apresentação.

As meninas do elenco não raramente faziam turnês pelo exterior para se apresentar, tamanha a fama da marca criada por Maneco e sua equipe. Em um dado momento, surgiu a ideia de as dançarinas descolorirem e tingirem os pelos pubianos de cor-de-rosa para se identificar como membros da equipe da Pink.

A inesquecível Gretta Star

Gretta Starr se tornou, de fato, uma das estrelas mais brilhantes do elenco da Pink.

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Hoje, com quase 40 anos de carreira, Gretta é uma verdadeira lenda do universo LGBT brasileiro.

Culta, conhecedora e admiradora de aviões, viajou o mundo como modelo depois de ter sido descoberta aqui. Viajou entre Europa, Ásia e o Oriente, apresentando-se em países como Japão, Coréia, China, Inglaterra, Emirados Arábes e França.

Suas interpretações ficaram na memória de quem teve a sorte de vê-la nos palcos santistas. E a Pink foi sua principal escola.

“As artistas da Pink tinham uma característica muito sexy. Havia uma arte e um estudo em como tirar a roupa. Me recordo de ver Mara Lupion nesse palco. Ela entrava sem roupa nenhuma, apenas com um tecido jogado que cobria as partes íntimas e um cigarro. Ela olhava para a plateia. O pano deslizava e caía. Todo mundo gritava. A Pink era bem isso”, diz Gretta.

Quem ia na Pink Panther

O “nosso” Tiririca, Zé Macaco, era frequentador assíduo da boate, assim como a grande maioria dos políticos dos anos 80. Em um mês, Zé Macaco gastou na Pink o valor de três meses de salário na Câmara dos Vereadores.

“Fui uma única vez, mas na portaria, junto com o Dirceu, meu colega jornalista (o professor Dirceu Fernandes Lopes) na época. Eu trabalhava no Cidade de Santos e ele, no jornal A Tribuna. Fomos atrás do ex-ministro dos Transportes Mário Andreazza, que fez visitas ao Porto e descobrimos que estava na Pink. Ele estava, mas não tivemos acesso a ele…”, conta José Silvares, jornalista.

Muitos membros da Marinha do Brasil frequentavam o Pink Panther. Era um “rito de passagem” dos aspirantes.

Nessa cena transgressora e boêmia, ladeada por todo o luxo e glamour que a Pink tinha, transitavam não apenas homens sozinhos, mas também muitos casais da “família tradicional santista”. Artistas do teatro, do cinema e da televisão, delegados, colunistas sociais… Todo mundo se encontrava na Pink.

“O público era muito variado, mas, principalmente, homens e alguns casais. Nunca vi uma briga ou confusão lá dentro. As pessoas iam para se divertir, dar risada. Alguns, que não era meu caso, iam para tentar sair com as mulheres que circulavam e faziam shows lá. Era um ambiente tranquilo. Nem revista na entrada tinha, algo impossível hoje em dia”, relembra o jornalista Glauco Braga. 

Pink Panther, uma casa de família

Mais do que um lugar que reunia sexo e entretenimento, a Pink deu oportunidades a mulheres de Santos e de outras cidades que precisavam trabalhar.

Uma delas é Solange Gomes, que se casou e hoje vive na Holanda com o marido.

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“Fui expulsa de casa porque estava grávida. Não podia trabalhar em mais nenhum lugar, mas consegiu um emprego na Pink vendendo chocolates para os clientes. Depois que tive meu filho, voltei como bailarina e stripper. Viajei para vários lugares, conheci muita gente importante, como delegados, juízes e famosos. Criei meus dois filhos fazendo strip na Pink e tenho muito orgulho disso. Fiquei até os 28 anos, quando o movimento já estava caindo. A Pink me deu uma vida melhor. Muita gente via como casa de prostituição, mas não era isso. Me lembro de uma menina virgem que trabalhou dois anos lá”, relata Solange.

Surpreendentemente, pela época, não existia espaço para homofobia ou preconceito na Pink. O respeito reinava entre clientes, funcionários e dançarinas.

A Pink perde suas cores

A decadência da Pink se deu a partir da segunda metade dos anos 80, quando o fantasma do HIV passou a rondar a cidade. Santos era, na época, o município com maior número de casos no Brasil. Tanya Star morreu e a Pink nunca mais foi a mesma.

www.juicysantos.com.br - pink panther decadênciaFoto: Blog Caiçara

Fechou em 1995, já bem diferente dos seus dias de luxo e sedução.

Infelizmente, o legado da Pink ficou mais na memória de quem esteve entre as quatro paredes e janelas escurecidas do que na influência sociocultural da cidade.

“A Santos de hoje é uma cidade careta, ranheta, babaca ao extremo, paupérrima em termos culturais e que estranhamente se orgulha de sua “qualidade de vida”. Vai entender uma coisa dessas…”, diz Chico Marques. 

Em 9 de agosto de 2017, houve um incêndio em um apartamento no oitavo andar do Avenida Palace, local ao qual muitos ainda se referem como “o prédio da Pink Panther” – mesmo hoje já existindo uma academia no local.

Resgatando a história da Pink Panther

Há poucos registros online sobre a Pink Panther, como ela nasceu e morreu. Mas isso começou a mudar no início de 2018, pelas mãos do diretor Kauê Nunes, da diretor da Mokotó Filmes e Histórias.

Aqui no Juicy Santos, convidamos nossos leitores em março do ano passado para dar seus depoimentos e contar suas histórias sobre a Pink Panther. O resultado é o curta documentário Pink, que já rodando os festivais de audiovisual e, em breve, estará disponível para quem quiser assistir online.