Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 24 anos - Santos

Mulheres trans em Santos e a busca por igualdade e respeito

Em média, 4.800 crianças nascem em Santos todos os anos.

Muito antes de abrirem o berreiro, elas têm suas genitais observadas através de uma ultrassonografia e seus sexos definidos. Quem vem ao mundo com uma vagina é mulher; os com pênis, homens. Quando o choro ecoa na maternidade, várias escolhas e expectativas não só nascem como são criadas em torno dessa definição.

É preciso caber nessas caixas impostas.

Acontece que nem todo mundo se encaixa nesse padrão binário e cisgênero. Naomi Maratea, por exemplo, é uma santista que não se enquadra no que foi imposto lá pelas 16 semanas de gestação.

www.juicysantos.com.br - naomi maratea

A advogada é uma das muitas santistas transexuais

Segundo lembra, ela demorou para se reconhecer como mulher. Mas também nunca se reconheceu como homem.

Naomi conta que, desde a infância, estranhava as imposições que o gênero implicava em sua vida. Nunca gostou, por exemplo, de andar sem camisa, assistir e jogar futebol ou de outras ideias comuns ao masculino. Na adolescência, já desejava ser uma mulher, porém imaginava ser impossível na época.

“As coisas mudaram quando eu tive contato com uma mulher trans, já na faculdade. Eu não tive essa representatividade antes… Quando conversei com ela, eu entendi que viver como eu gostaria era possível. A partir daí, passei a correr atrás da minha felicidade”, comenta.

Chris Cinelli também é trans. Mas, diferentemente de Naomi, ela diz que sempre se entendeu como mulher. Sua história, porém, esbarra na da advogada em um ponto: a falta de referências.

www.juicysantos.com.br - chris maquiadora

“Não existe um momento que me identifiquei como mulher. Eu sempre me entendi assim, pois sou uma mulher. Só houve uma época da minha vida em que eu não sabia como me nomear”, comenta.

Segundo a maquiadora, a não convivência com outras mulheres transexuais e travestis fez com que durante um período ela, inclusive, acreditasse que isso fosse algo errado. As coisas mudaram quando ela decidiu que ser feliz era mais importante do que agradar as imposições sociais.

Mais visibilidade para as mulheres trans em Santos

Essa falta de visibilidade também foi sentida pelo casal santista Bryan Henrique e Raphaella Gomez.

 

www.juicysantos.com.br - mulheres trans em santos

Como forma de mudar esse cenário, nasceu o Transceda. A conta do Instagram busca dar visibilidade à comunidade LGBTQIA+ de Santos e região.

Entre as postagens, estão desde a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual até o que é transexualidade, por exemplo. De acordo com elxs, a explicação resumida sobre o que é ser transexual é: uma pessoa trans não identifica seu gênero com o sexo biológico com o qual nasceu. 

Se essa visibilidade existisse quando a Naomi era criança, talvez ela tivesse entendido desde cedo que era sim uma mulher. Também teria poupado sofrimento de Chris e várias outras mulheres na mesma situação.

A advogada lembra que só teve contato com a expressão durante a faculdade. E, aliás, foi na própria universidade que sofreu preconceito pela primeira vez. Como estudava Direito, ela buscou abrigo nas leis. Desde então, Naomi atua em prol de seus ‘irmãos e irmãs’.

“Naquela época, a faculdade apresentou resistência em colocar meu nome social na lista de chamada”, lembra. “Resolvi a questão no mesmo dia, com uma petição extrajudicial. Mas percebi que, talvez, eu fosse uma das poucas mulheres trans no Brasil que possuía o privilégio de ter essa expertise”.

Para quem não sabe, nome social é aquele pelo qual a pessoa trans se reconhece e se identifica na comunidade. Em todo estado de São Paulo, por meio da Deliberação 125, aprovada em 2014, ficou estabelecido que as instituições ligadas ao sistema paulista de ensino devem incluir, a pedido dos interessados, o nome social nos registros escolares internos.

Naomi dá essa e outras dicas voluntariamente a quem procura a sua ajuda.

Ambulatório Trans em Santos

Outro ponto que pouca gente conhece – e que tanto Naomi quanto o par do Transceda acham super importante – diz respeito ao Ambulatório Trans do Hospital Guilherme Álvaro.

Desde 2015, a Baixada Santista tem um ambulatório com atendimento gratuito especializado nas necessidades das pessoas trans. Todas as segundas-feiras são oferecidas várias modalidades de atendimento entre as quais estão, por exemplo, endocrinologia, ginecologia, serviço social e psicologia. Esta última é destinada aos pacientes que desejam passar por cirurgias de redesignação sexual.

Naomi acredita que viver em uma das únicas cidades do país que oferecem esse tipo de atendimento é um privilégio.

No entanto, ressalta que a fila de espera para ser atendido no ambulatório é enorme. Chris está entre os pacientes que aguardam por uma vaga para, finalmente, iniciar sua transição.

“Embora eu tenha um emprego formal, uso meu dinheiro principalmente para ajudar meus pais em casa. O ambulatório é muito devagar, pois eles atendem uma pequeníssima quantidade de pessoas. Meu namorado, por exemplo, já é paciente e mesmo assim tem que batalhar o dobro pra conseguir os hormônios. Nunca tem na farmácia pública do hospital”.

De acordo com a divulgação, o ambulatório recebe pacientes de toda a Baixada Santista.

Enquanto a fila de espera do ambulatório não anda, ao menos uma burocracia nesse processo é simplificada: a de trocar o nome social. Em resumo, a comunidade trans conquistou, recentemente, o direito de ter seu nome e gênero retificados diretamente em cartório. Ou seja, sem a necessidade de um laudo psicológico e nem da anuência de um juiz. Vale dizer que ambos eram necessários há alguns anos.

Dois passos para frente, um para trás

Apesar de pontos positivos como o ambulatório, a vida dessas mulheres em Santos não está tão diferente do cenário do restante do país. O Brasil é o país que mais mata pessoas transgêneras no mundo.

“O preconceito é enraizado”, pondera Chris.

“Somos destratadas, marginalizadas e temos pouco acesso ao mercado de trabalho. Tenho muita sorte e privilégio de ter um trabalho formal, pois sei que ainda somos muito destinadas a procurar trabalhos na noite, a sociedade não tolera o nosso caminhar em meio a eles. Eu recebo olhares tortos o dia todo mas não me deixo abalar por isso, já se tornou tão parte do meu dia a dia que, às vezes, eu nem percebo”, completa.

Mesmo com as dificuldades, elas continuam na luta por ser quem são.

Naomi, por exemplo, é uma ativista das questões LGBTQIA+ na cidade e diz se dedicar três vezes mais para os casos que pega nesse sentido.