Para entender as obras nos canais de Santos: o que, onde e até quando
Canais que salvaram Santos da morte no século XIX agora passam pela maior reforma em décadas - e entender essa história é entender por que vale suportar o transtorno temporário
Se você mora em Santos e nos últimos meses desviou de tapumes, ouviu o barulho de retroescavadeiras ou ficou preso no trânsito perto de algum canal, saiba que as veias da cidade estão vivendo um processo de “cura”.

O programa Procanais, em sua segunda fase, e o novo contrato municipal de drenagem, iniciado em abril de 2026, formam juntos a maior e mais completa intervenção no sistema de drenagem de Santos em muitos anos. Para entender o tamanho dessa necessidade, a gente precisa voltar mais de um século no tempo, quando as primeiras obras nos canais de Santos mudaram o destino da cidade.
Ele colocou Santos em ordem
No final do século XIX, Santos vivia uma tragédia silenciosa. Entre 1890 e 1900, cerca de 22 mil pessoas morreram de febre amarela, varíola e peste bubônica, algo equivalente a metade da população da época. A cidade crescia às pressas por causa do porto e do café. Só que vivia sobre pântanos, sem esgoto e sem drenagem.
Um viajante alemão que passou por Santos em 1887 registrou que a cidade se tornava um “vasto cemitério internacional” nos meses de verão, cenário alterado mais tarde por obras de grandes canais em Santos.
A situação era tão grave que navios estrangeiros evitavam o porto santista, ameaçando o próprio comércio do café .
Foi então que o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito entrou em cena. Em 1905, ele apresentou um plano revolucionário: separar completamente as águas pluviais do esgoto, drenar as áreas pantanosas e criar um sistema de canais a céu aberto que permitiria à cidade crescer com segurança em direção à orla. Assim, os canais de Santos foram decisivos para o desenvolvimento urbano.
Saturnino não era qualquer engenheiro – é considerado até hoje o Patrono da Engenharia Sanitária Brasileira. Seus estudos serviram de referência para projetos na França, Inglaterra e Estados Unidos.
Hoje, é impossível imaginar os canais tapados, com carros percorrendo o caminho que é essencialmente da água. O objetivo sempre foi ligar o oceano ao outro lado da ilha. Então, não é exagero dizer que todo santista deve boa parte desse território à existência desse projeto e das obras nos canais de Santos.
Os canais começaram a ser construídos em 1906, fazendo parte do ciclo constante de obras nos canais de Santos.
Hoje, Santos conta com 25 canais ao total, incluindo os da Zona Noroeste e os subterrâneos. Os sete que deságuam na praia são os mais conhecidos e cuidam das águas pluviais.
O sistema opera por meio de 13 comportas estratégicas e equipes que trabalham diariamente com previsões climáticas da Defesa Civil . Somente em janeiro de 2026, os trabalhadores retiraram 545 toneladas de lama dos canais.
Estrutura pedindo socorro
Os canais funcionaram por décadas com poucas intervenções profundas. Mas concreto armado do início do século XX tem limite, e as obras nos canais de Santos tornaram-se cada vez mais cruciais para a sua manutenção.
Trincas, rachaduras, comportas enferrujadas, taludes comprometidos e até ligações clandestinas de esgoto foram mapeados com o uso de drones e robôs.
Quem mora perto dos canais 1, 2 e 3 conhece bem o problema do assoreamento após ressacas: a maré transporta areia para essas estruturas e exige retirada frequente com escavadeiras hidráulicas, o que torna a operação contínua e cara.
A intervenção era urgente, mas ainda não sabia como nem quando. Aí, a administração municipal lançou mão de dois instrumentos simultâneos: o Procanais e o novo contrato de drenagem, ambos exemplos recentes de obras nos canais de Santos.
O que é o Procanais
O Procanais vai além da limpeza superficial das bordas, que é o mais visível para a população, pois esse programa integra diversas obras nos canais de Santos.
Ele engloba:
- Reforço de taludes (as paredes inclinadas dos canais, que sustentam as margens)
- Reparo de trincas e rachaduras na estrutura de concreto
- Recuperação e modernização de comportas
- Instalação de sensores para monitoramento hídrico em tempo real
- Uso de drones e robôs para mapear fissuras e identificar ligações irregulares de esgoto
- Reurbanização e paisagismo funcional no entorno dos canais
Há, ainda, a previsão da implantação do circuito ‘Caminhos de Saturnino’, com painéis educativos sobre a história do sistema que mudou a história da cidade.

Realizado pela Secretaria das Prefeituras Regionais (Sepref), o programa respeita as diretrizes do Condepasa (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos), garantindo que nenhuma intervenção agrida o valor histórico tombado do sistema e cuidando especialmente das obras nos canais de Santos.
O financiamento vem do Fundo Municipal de Saneamento Básico e Ambiental (FMSBA).
Mas e quando que acaba o transtorno no meu bairro?
A boa notícia é que existe um cronograma. A ruim é que ele vai até 2028, pois são muitas as obras nos canais de Santos a serem realizadas.
O sistema tem dezenas de canais e décadas de atrasos acumulados.
- Agora (abril/2026) Canal Barão de Penedo (José Menino): ~20 dias
- Em paralelo, Canal 2 — Av. Bernardino de Campos / Av. Francisco Glicério: Em andamento
- Maio/2026 Canal 1 — Av. Pinheiro Machado (5 km de extensão): 3 meses
- Último trimestre/2026 Canal 3 — Av. Washington Luís: Até dezembro
- Maio/2026 Zona Noroeste — Rua Pio XII e Francisco Ferreira Canto: Início em maio
- 2027–2028 Canais 4, 5, 6 e 7: A confirmar
A inclusão da Zona Noroeste no cronograma é um sinal importante de equidade territorial. Historicamente, áreas periféricas da cidade ficaram à margem dos investimentos em infraestrutura, incluindo as obras nos canais de Santos.
Colocar bairros como os atendidos pela Rua Pio XII na mesma fila dos canais centrais é um passo para uma Santos mais justa (assim esperamos).
Drenagem
Paralelamente ao Procanais, o novo contrato de drenagem urbana, que começou em abril de 2026 com investimento total de R$ 41,2 milhões, representa uma virada de lógica. Sai o modelo puramente reativo e entra o planejamento preventivo, segundo a Prefeitura, enfatizando que obras nos canais de Santos agora seguem uma nova lógica.
Os números mostram a expansão do serviço:
- Limpeza de canais abertos: +40% (de 241,5 mil para 338,1 mil metros lineares/ano)
- Desassoreamento mecânico: +100% (de 7,2 mil para 14,4 mil toneladas/ano)
- Bocas de lobo limpas: +40% (de 25,3 mil para 35,5 mil unidades)
- Capacidade de remoção de resíduos: +65% (de 1.512 para 2.500 toneladas/ano)
- Trabalhadores contratados: +83% (de 91 para 167 pessoas)
- Equipamentos: +50% (de 18 para 27 unidades)
Inovações inéditas incluem o videomonitoramento das galerias, inserção diária de dados em sistema digital e desobstrução mecanizada da rede. E você, cidadã ou cidadão, pode acompanhar o cadastro completo da rede de drenagem e das obras nos canais de Santos pelo portal Santos Mapeada.
O que a gente vai cobrar
Seria ingênuo encerrar aqui só elogiando os novos programas. Santos seguiu enfrentando alagamentos graves em 2025, após anos de investimentos anteriores em drenagem. Isso levanta perguntas legítimas que precisamos fazer a respeito da eficiência das obras nos canais de Santos.
Os prazos serão cumpridos? O Canal 1, com 5 km de extensão e previsão de início em maio, será um teste real de capacidade de execução nesse ciclo novo de obras nos canais de Santos.
A Zona Noroeste terá o mesmo padrão de entrega que os canais centrais, historicamente mais visíveis e valorizados, após obras nos canais de Santos?
Os dados no SigSantos serão atualizados de fato e em tempo real e de forma transparente?
Se a cidade investe tanto em tecnologia de monitoramento precisa também investir em comunicar isso pra quem vive aqui.
Além de ícones da nossa infraestrutura (e do nosso orgulho local!), os canais são a razão de Santos existir como cidade habitável, sendo resultado fundamental de obras nos canais de Santos.
Saturnino de Brito levou anos estudando e, agora, seu projeto merece o mesmo cuidado mais de um século depois.