Clique aqui e confira também nosso tema da semana

Temporada de cruzeiros 2026: quem fatura com quase 1 milhão de pessoas passando por Santos?

Com previsão de movimentar até 900 mil passageiros, a temporada 2026/2027 promete bilhões para a economia regional. Mas como esse dinheiro chega ao comércio, ao turismo e à vida de quem mora em Santos?

Tempo de leitura: 13 minutos

Há alguns dias em que a cidade de Santos parece funcionar em outro ritmo. O trânsito muda, as ruas ficam mais cheias, as mesas dos restaurantes têm novos clientes e até os caminhos que a gente faz automaticamente exigem um pouco mais de paciência.

Aqui, parte desse movimento tem data para começar e hora para terminar. É quando os navios de cruzeiro chegam ao porto, trazendo milhares de pessoas para as nossas ruas e avenidas. 

A temporada de cruzeiros faz parte da paisagem santista há décadas. Só que, a cada novo ciclo, vale olhar para além dos navios gigantescos e das fotografias na Ponta da Praia. Afinal, quando centenas de milhares de pessoas passam por Santos, o que fica para a cidade depois que elas embarcam?

A resposta envolve empregos, restaurantes, hotéis, transporte, comércio e turismo. Também passa pelo trânsito, pela ocupação dos espaços urbanos e pelas oportunidades que poderiam alcançar mais moradores e empreendedores locais.

Na temporada 2026/2027, que se estende de outubro de 2026 a abril de 2027, a expectativa é movimentar centenas de milhares de pessoas e gerar um impacto econômico bilionário na região. Os números impressionam, mas levantam uma pergunta que a gente precisa fazer: como transformar a passagem de tantos visitantes em benefícios que ultrapassem os limites do terminal de passageiros?

Nova temporada

O Porto de Santos se prepara para receber 10 navios de cruzeiro diferentes durante a temporada 2026/2027. A programação prevê embarcações de diferentes companhias, viagens nacionais e internacionais e escalas que colocam a cidade na rota de turistas brasileiros e estrangeiros.

Já o Concais, terminal marítimo de passageiros de Santos, trabalha com uma projeção de aproximadamente 900 mil passageiros em movimentação total, considerando embarques, desembarques e passageiros em trânsito. O terminal também estima 418 mil embarques durante o período. O calendário atualizado prevê cerca de 163 escalas ao longo de 102 dias de operação até 4 de abril de 2027.

Quase 1 milhão de pessoas

De acordo com as estimativas divulgadas pelo Concais e pela Secretaria de Turismo, Comércio e Empreendedorismo de Santos (Setur), o impacto econômico da temporada pode chegar a R$ 1,5 bilhão na região, com a geração de mais de 40 mil empregos diretos, indiretos e induzidos.

Esses números abrangem uma cadeia de atividades que começa antes mesmo de o navio atracar. Há trabalhadores envolvidos na operação portuária, no transporte, na hospedagem, na alimentação, na organização de passeios e em diversos serviços relacionados às viagens.

Além disso, a temporada 2026/2027 marca a estreia da companhia espanhola Corazul Cruceros no mercado brasileiro, com o navio Buenavista. A embarcação tem capacidade para aproximadamente 2 mil passageiros e sua primeira viagem comercial foi adiada para 30 de outubro de 2026.

Outro destaque é a chegada do MSC Virtuosa, com capacidade para 6.300 passageiros. A embarcação faz seu primeiro ciclo no Brasil, a partir do terminal santista.

Para o setor, a chegada de novas companhias e embarcações reforça a importância de Santos como ponto estratégico dos cruzeiros marítimos no país.

Mas a movimentação do porto é apenas uma parte dessa história. Um dos desafios que Santos vem enfrentando ao longo dos anos é entender como o fluxo de visitantes se transforma em inclusão econômica e renda para quem precisa. 

Quem ganha com o vai e vem dos navios?

Imagine a quantidade de serviços necessários para colocar milhares de passageiros em movimento em um mesmo dia.

Tem uma galera que chega em Santos de carro, ônibus ou avião. Há quem precise passar a noite em um hotel ou apartamento de aluguel antes do embarque. Outros aproveitam algumas horas na cidade para conhecer pontos turísticos, comer em um restaurante ou comprar souvenirs da viagem.

Cada um desses deslocamentos representa uma possibilidade de consumo.

Motoristas de táxi e de aplicativo, empresas de transporte turístico, vans e serviços de receptivo estão entre as atividades que podem atender a essa demanda gerada pelos cruzeiros. O mesmo vale para hotelaria, restaurantes, cafeterias, quiosques, lojas e outros estabelecimentos que recebem visitantes.

O comércio também pode se beneficiar da circulação de turistas em regiões como o Centro Histórico, o Gonzaga e a Ponta da Praia, dependendo dos roteiros escolhidos e do tempo disponível para os passeios.

Um levantamento da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (CLIA Brasil), em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), estima em R$ 962,55 o gasto médio de um cruzeirista nas cidades de embarque e desembarque. O valor ajuda a estimar o potencial econômico desse público, mas não dá para cravar que seria o gasto individual de um turista em Santos.

A perspectiva é positiva para o setor de alimentação fora do lar. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) Baixada Santista avalia que a combinação entre passageiros, tripulantes, familiares e pessoas que chegam à cidade para embarcar ou desembarcar pode favorecer os negócios locais, especialmente durante o verão e as festas de fim de ano.

“A expectativa do nosso setor é bastante positiva. A temporada de cruzeiros representa uma oportunidade importante para a economia da Baixada Santista, especialmente para Santos, que é a principal porta de entrada desses turistas”, avalia Luan Paiva, diretor da Abrasel SP Baixada Santista.

Tornar realidade essa expectativa do setor, no entanto, depende de muita coisa. Há fatores como a localização dos negócios, o tempo de permanência dos visitantes, a facilidade de acesso e hábitos de consumo dos passageiros.

Bons números

O mesmo levantamento aponta que 71,6% dos passageiros realizam passeios turísticos e 55,6% fazem compras no comércio local.

Por essa razão, para os pequenos empreendedores, a temporada de cruzeiros em Santos pode representar uma oportunidade de alcançar novos clientes. Dependendo da atividade, é necessário ajustar horários, organizar estoques, abrir vagas para contratação ou divulgar online para um público segmentando os produtos e serviços para quem visita a cidade.

A Abrasel reconhece que transformar a circulação de turistas em consumo efetivo não é tão simples. Entre as possibilidades apontadas pela entidade para ganhar espaço no coração (e na carteira) dos turistas, estão a divulgação de roteiros gastronômicos, informações acessíveis sobre os estabelecimentos e experiências que possam ser feitas antes do embarque ou após o desembarque.

“O nosso principal desafio é transformar essa grande circulação de turistas em consumo efetivo na região. Os passageiros que embarcam, desembarcam ou estão apenas de passagem têm comportamentos diferentes”, ressalta Paiva.

Pois é, quanto mais fácil for para o visitante descobrir o que Santos oferece e chegar aos estabelecimentos, maior será a possibilidade de que parte do dinheiro gasto durante a viagem vire receita aqui no território. 

Trabalhar em um cruzeiro compensa?

A movimentação dos navios também representa oportunidades de trabalho, mas a experiência de quem atua a bordo mostra outro lado dessa indústria. A rotina pode envolver longos períodos longe de casa, jornadas extensas e condições bastante diferentes das encontradas em empregos em terra firme.

Arthur Izidro, de 36 anos, é turismólogo e conhece essa realidade de perto. Ele trabalhou a bordo de navios da MSC entre 2009 e 2013, inicialmente como Pool Attendant, função ligada à área da piscina, e depois como Desk Service, na recepção.

Mais tarde, atuou como Ground Staff, em terra, pela Pullmantur Cruzeiros, entre 2016 e 2019. Após a pandemia, voltou a trabalhar com a MSC, onde continua atuando.

Ao recordar a rotina a bordo, Izidro explica que a experiência envolve muito mais do que conhecer destinos diferentes. O trabalho exige adaptação a um ambiente com pessoas de várias nacionalidades e uma dinâmica que pode ocupar praticamente todo o dia.

“A rotina é bem caótica, são meses trabalhando sem folga, pois não existe 1 dia de folga e sim horas, mas depende do cargo”, relata.

Na experiência dele, as jornadas podiam chegar a 12 a 16 horas diárias, durante contratos de seis a nove meses. Nos cargos que ocupou, tinha cerca de cinco horas livres por dia. O tempo disponível, porém, variava conforme a função exercida.

“O que mais surpreende no trabalho a bordo são as diferentes culturas convivendo juntas”, conta Arthur.

Novas experiências 

A possibilidade de conhecer diferentes destinos também faz parte da experiência. Quando os horários de descanso coincidem com a parada do navio em um porto, o trabalhador pode ter a oportunidade de descer e explorar o local. Isso, contudo, depende da escala de trabalho e do tempo disponível.

E, quando a questão é dinheiro, a resposta não é tão simples quanto imaginar que trabalhar em um navio permite ganhar em moeda estrangeira e economizar sem grandes dificuldades.

Para Izidro, o retorno financeiro depende do cargo, da remuneração e do objetivo de cada pessoa ao aceitar o contrato. Algumas funções, segundo ele, chegam a pagar US$ 800 por mês. Na avaliação do turismólogo, esse valor pode não compensar o afastamento de casa e a rotina intensa, especialmente quando comparado às possibilidades de trabalho em terra.

Ele também destaca que existem diferentes classificações profissionais a bordo, como Crew, Staff e Officers, que podem ter condições distintas de remuneração, acomodação, alimentação e folgas. Por isso, recomenda que quem pretende trabalhar em um cruzeiro pesquise as condições oferecidas para a função específica antes de aceitar uma vaga.

Turismo além do terminal

Nem todo passageiro que desembarca aqui tem a mesma relação com Santos. E, para competir com o entretenimento e os serviços do navio, a cidade precisa seduzir esse turista com aquilo que tem pra oferecer de bom. 

Por isso, a Secretaria de Turismo, Comércio e Empreendedorismo de Santos batalha para fazer com que a cidade seja mais do que um ponto de embarque e desembarque.

Segundo a Setur, para este ano, a estratégia envolve promover os atrativos turísticos junto aos passageiros, valorizar o Centro Histórico, divulgar a gastronomia e o comércio local e realizar eventos que incentivem as pessoas a ficarem em terra. 

Uma pessoa que chega à cidade para embarcar pode passar algumas horas por aqui antes de iniciar a viagem. Já quem desembarca pode precisar seguir diretamente para casa ou para outro destino. Há também passageiros em trânsito, que chegam pela manhã, visitam a cidade e retornam ao navio no fim do dia.

Um visitante com poucas horas disponíveis pode optar por um passeio organizado, conhecer um ponto turístico próximo ou procurar um lugar para almoçar. Quem chega na véspera do embarque pode ter mais tempo para conhecer a orla, explorar o Centro Histórico ou experimentar nossa gastronomia. 

A luta é fazer com que essas opções sejam conhecidas e acessíveis a quem vê a gente a partir do mar. 

Novo terminal no Valongo

A relação entre o porto e a cidade também está no centro da discussão sobre o projeto de implantação de um novo Terminal Marítimo de Passageiros no Valongo.

A proposta tem potencial para aproximar a atividade de cruzeiros do Centro Histórico e de seus atrativos. Em vez de concentrar a experiência dos visitantes no entorno do terminal atual, uma estrutura nessa região vai conectar pontos de interesse importantes, como Parque Valongo, Museu Pelé, Museu do Café e o VLT, entre outros. 

“Mais do que uma nova estrutura portuária, enxergamos a possibilidade de fortalecer a integração entre porto, turismo e cidade, fazendo com que o crescimento da atividade de cruzeiros também se traduza em oportunidades para a população santista”, afirma a Secretaria de Turismo, Comércio e Empreendedorismo de Santos (Setur).

O plano de investimentos apresentado pelo Concais prevê R$ 590,9 milhões, com data-base de junho de 2026, em uma área de aproximadamente 42 mil metros quadrados, além de outros 700 metros quadrados previstos para uma passarela elevada de ligação. Já a Prefeitura de Santos divulgou uma estimativa de R$ 1,2 bilhão para o projeto.

A proposta também prevê que o novo terminal possa operar simultaneamente três navios de grande porte, com movimentação de até 6 mil passageiros por embarcação, o que também aumentaria o entra e sai de navios partindo daqui.

Novas propostas

Apesar do avanço administrativo, a transferência ainda depende de etapas técnicas e regulatórias. Entre elas, estão a apresentação de uma revisão do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental pelo Concais, providências relacionadas à área portuária e decisões posteriores dos órgãos competentes.

O prazo estimado para a execução das obras é de 60 meses, contados a partir da assinatura do futuro termo aditivo. Então, esse projeto ainda não tem data para começar. 

Vale lembrar que esse novo terminal no Valongo envolve compromissos relacionados à preservação histórica do Armazém 1 e o relógio da Western Telegraph, um ícone da arquitetura portuária santista. 

Santos Sunset

Existe uma maneira de acompanhar a movimentação dos cruzeiros sem ter que necessariamente comprar uma passagem, arrumar as malas ou passar dias em alto-mar: observar os navios a partir da própria cidade.

Na Ponta da Praia, as muretas já fazem parte desse hábito. A chegada e a partida das embarcações atraem olhares de moradores e visitantes, criando uma relação cotidiana entre a população e o porto.

Foi a partir dessa prática que surgiu o Santos Sunset.

Sucesso no verão de 2026, o palco montado próximo à Praça Luiz La Scala virou ponto de encontro de quem ama música. Junte-se à fórmula uma feira criativa e gastronômica e o evento virou um exemplo incrível de ocupação do espaço público rapidamente adotado pelos santistas. 

Para 2026/2027, estão previstas seis edições, com início em 29 de novembro e outras realizações nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro, março e abril, acompanhando o calendário da temporada.

Em vez de olhar apenas para quem chega de fora, o Santos Sunset incorpora os cruzeiros à vida dos moradores.

O que fica quando os navios partem?

Uma temporada de cruzeiros movimenta muito mais do que os gigantes que buzinam no canal do porto. Ela cria um mar de oportunidades para trabalhadores, restaurantes, hotéis, transportadores e comerciantes, mas também exige planejamento dos setores público e privado para integrar essa atividade no município, ajudar os negócios locais e organizar os deslocamentos.

Da próxima vez em que você clicar aquele navio lindo saindo da barra, olhe além da beleza e para os benefícios que ele pode gerar pra minha, pra sua e pras nossas vidas na cidade.

Compartilhar
Vitor Fagundes
Texto por

Contato