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Por que as pessoas estão deixando de morar em Santos?

Da verticalização aos novos fluxos migratórios, a saída de moradores coloca em debate o futuro da identidade santista

Tempo de leitura: 8 minutos

Durante muito tempo, Santos vendeu uma promessa daquelas bem gostosas, quase irresistíveis: a de que é possível construir uma vida inteira aqui sem abrir mão de nada.

Crescer perto da praia, estudar, encontrar trabalho, formar uma família, envelhecer vendo a mesma cidade pela janela. Sonho americano? Não, sonho santista mesmo! Ah, e tudo isso com o mar sempre ao fundo, como se estivesse ali para lembrar que você fez a escolha certa.

Talvez seja por isso que tanta gente tenha uma relação tão emocional com a cidade. Não é apenas uma lugar onde se mora. É uma cidade que, para muita gente, faz parte da própria identidade — aquele jeito 013 de ser.

Mas algumas promessas não desaparecem de uma vez. Elas vão ficando cada vez mais difíceis de cumprir.

www.juicysantos.com.br - Por que as pessoas estão saindo de Santos?

A conversa surge no encontro de amigos, aparece nas redes sociais, atravessa grupos de família e termina sempre cercada de justificativas diferentes. Uns falam de trabalho. Outros de moradia. Há quem mencione oportunidades, trânsito, qualidade de vida ou simplesmente a vontade de recomeçar.

O curioso é que essas histórias têm se tornado cada vez mais frequentes justamente quando Santos vive um dos momentos mais valorizados de sua história.

A cidade nunca foi tão desejada e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil de sustentar uma vida inteira dentro dela.

E isso levanta uma pergunta desconfortável: o que faz uma pessoa deixar Santos?

Santos está crescendo. Mas para quem?

Os números parecem se contradizer.

Santos é a cidade mais verticalizada do Brasil. Segundo o CENSO 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 67% das moradias são apartamentos. Ao mesmo tempo, a população caiu 0,2% entre 2010 e 2022, enquanto o número de domicílios cresceu quase 18%.

Há outro dado que ajuda a entender o cenário: cerca de 20,8 mil imóveis estão vazios. A cidade continua construindo. Só que nem sempre para quem mora nela.

O arquiteto e doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP, Fabrício Ribeiro dos Santos Godoi, coordenador do Polo Regional Baixada Santista e Vale do Ribeira do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IABsp), afirma que a discussão precisa ser ampliada.

“A relação entre oferta de emprego e preço dos imóveis é bem complexa. O movimento pendular entre as regiões centrais e as cidades do entorno indica concentração de empregos e quase sempre leva a um cotidiano difícil.”

Para ele, há uma combinação de fatores atuando ao mesmo tempo: valorização imobiliária, trabalho remoto, disputa pelos bairros próximos à praia e um planejamento metropolitano cada vez mais fragilizado.

“O mercado imobiliário encontra pouquíssimas barreiras para explorar essa demanda e se tornou o grande vencedor nesse processo.”

Isso ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais comum: pessoas morando em Praia Grande, São Vicente ou Cubatão e trabalhando em Santos.

Mas seria justo colocar toda a culpa na conta do preço do aluguel?

Morar em Santos é um problema?

Para o arquiteto Juliano Canatelli, a resposta é não.

“Sinceramente, acho que o valor do aluguel definitivamente não tem nada a ver com a saída de jovens de uma cidade. Pode ser a justificativa cabível, mas o êxodo, para mim, não tem muito a ver com preço.”

A fala vem para contrariar a percepção popular, mas abre uma discussão importante.

Santos é uma cidade desejada. Tem praia, vida cultural, e um dos metros quadrados mais valorizados do litoral. Por outro lado, ainda enfrenta dificuldades para atrair determinados setores econômicos.

“Acredito bastante nisso, porque Santos é uma ilha. Apesar da diversidade comercial, não possui indústrias nem grandes setores desenvolvimentistas. Ouço que ou você trabalha no Porto ou não trabalha”, brinca Juliano.

A provocação pode soar exagerada, mas ajuda a ilustrar um sentimento compartilhado por muitos jovens: em algum momento da vida profissional, Santos parece pequena.

É comum ouvir histórias de pessoas que deixaram a cidade para trabalhar em grandes agências, empresas de tecnologia, escritórios de advocacia ou multinacionais. Outras simplesmente cansaram de esperar.

A cidade que os filhos de Santos conseguem pagar

Existe outro aspecto nessa conversa.

Fabrício evita usar o termo gentrificação para explicar o que está acontecendo na cidade. Segundo ele, o processo santista é mais complexo.

“A classe média santista foi ou está sendo expulsa da zona da orla e já está encontrando dificuldades em se manter na zona intermediária.”

Isso ajuda a entender por que tantos moradores passaram a enxergar cidades vizinhas como alternativas naturais.

Praia Grande cresce. São Vicente se reinventa. O interior aparece como opção para quem busca espaço, segurança ou simplesmente um custo de vida mais equilibrado.

A Baixada Santista funciona como uma metrópole, mesmo que muitas vezes continue pensando como municípios isolados.

“Os limites municipais organizam as demandas públicas, mas o planejamento deveria ser global.”

Na prática, pouco importa onde termina Santos e começa São Vicente para quem passa duas horas por dia no trânsito.

Existe uma Santos que está desaparecendo?

Quem cresceu na cidade provavelmente tem uma memória afetiva dela. É justamente isso que preocupa alguns especialistas.

“Corre-se o risco do modo de vida santista se resumir ao consumo de um tipo de pão, ao uso de três ou quatro expressões linguísticas e nada mais.”

A frase parece dura. Mas ela provoca. O que define Santos?

Fabrício argumenta que a identidade de uma cidade é mutável. Contudo, quando as transformações acontecem rápido demais, existe o risco de perder aquilo que fazia daquele lugar algo único.

“A convivência cotidiana nas ruas, as práticas culturais e esportivas e a socialização das crianças não se dará como sempre se deu em Santos.”

Enquanto isso, os novos empreendimentos seguem alterando a paisagem. A mesma cidade que ficou conhecida por ser caminhável e por permitir que tudo acontecesse a poucos minutos de distância parece, aos poucos, se reorganizar em torno de pequenos mundos privados.

A praia resolve tudo?

Juliano levanta outra hipótese.

“Estou há pouco tempo aqui, mas percebo uma cidade muito parecida com Tietê. Existe um pensamento conservador que domina a cidade, domina as decisões de progresso e avanço.”

Para ele, existe um componente cultural nessa discussão.

“Estamos construindo uma cidade de olhos fechados, sem planos, apenas aceitando, respirando e vivendo. Afinal, o mar aqui me parece ser o contraponto: não reclame, você tem a praia.”

A praia é, sem dúvida, um dos maiores patrimônios de Santos. Ela ajuda a explicar o amor que tantas pessoas sentem pela cidade.

Mas ela também não impede que jovens façam as malas.

Santos está ficando boa demais para visitar?

Existe uma ironia em tudo isso.

Enquanto a cidade se torna cada vez mais desejada por quem chega, parte de quem nasceu aqui parece procurar futuro em outro lugar.

O trabalho remoto ampliou esse movimento. Profissionais que antes não consideravam morar no litoral passaram a enxergar Santos como uma opção.

É um movimento que acontece em diversas partes do mundo. Amsterdã viu jovens dividirem apartamentos até depois dos 30 anos. Barcelona discute limites para aluguéis de temporada. Viena investe em habitação acessível há décadas.

Santos ainda está descobrindo como responder às próprias perguntas. Porém enquanto isso, segue construindo.

O futuro ainda cabe em Santos?

Apesar das críticas, os especialistas não enxergam um caminho sem volta. Fabrício lembra que existem instrumentos urbanísticos capazes de direcionar o crescimento da cidade.

Entre eles, estão as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), limites construtivos mais rígidos, políticas metropolitanas integradas e investimentos em mobilidade.

 

Santos não está condenada a perder seus moradores. Mas também não pode assumir que eles continuarão aqui para sempre.

Porque cidades, assim como pessoas, dependem das escolhas que fazem.  A conversa sobre o valor do aluguel na cidade, a verticalização e o mercado imobiliário é extremamente necessária e precisa continuar acontecendo.

Mas, para além disso, quando os filhos da cidade começarem a construir suas vidas em outros CEPs, quem ficará responsável por preservar aquilo que faz Santos ser Santos?

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Vitor Fagundes
Texto por

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