Jabuti na Câmara de Santos: como uma mudança de regra levou à reeleição de Adilson Júnior
Emenda que permitiu a recondução consecutiva entrou em um projeto sobre a Comissão de Defesa do Consumidor durante o período eleitoral. Episódio mostra por que a população precisa acompanhar mais de perto o Legislativo
“Jabuti não sobe em árvore. Se está lá, ou foi enchente, ou foi mão de gente”
O bicho da máxima acima, atribuída ao saudoso Ulysses Guimarães, não tem pressa nem vocação para grandes alturas. Seu lugar é no chão, longe dos galhos onde pássaros e morcegos se equilibram. Se ele está no alto, é porque aconteceu uma tragédia ou alguém se meteu na sua rotina.
Mas como será que um jabuti foi parar nas sessões da Câmara Municipal de Santos?
Foto: Câmara Municipal de Santos
Enquanto o Brasil acompanhava aflito a disputa pela Presidência da República no segundo turno de 2026, a Câmara de Santos cuidava de uma questão bem mais doméstica: as regras para escolher quem continuaria no comando da própria Casa.
Em setembro, os vereadores alteraram o Regimento Interno e abriram a possibilidade de uma recondução consecutiva à Mesa Diretora. Na prática, uma reeleição. Pouco mais de um mês depois, Adilson Júnior (PP) conquistou mais dois anos na presidência.
O vereador venceu a eleição de 3 de novembro para o biênio 2027/2028. Ele encabeçou uma chapa única, que recebeu 17 votos favoráveis, um contrário e uma abstenção. A nova Mesa Diretora também terá Adriano Piemonte (União) como primeiro vice-presidente, Paulo Miyasiro (Republicanos) como segundo vice-presidente, Lincoln Reis (Podemos) como primeiro secretário e Chita Menezes (PSB) como segundo secretário.
Até então, a regra do legislativo santista proibia que integrantes da Mesa Diretora ocupassem o mesmo cargo por mandatos consecutivos. A alteração chegou por meio de uma emenda apresentada pelo vereador Lincoln Reis, incluída em um projeto sobre outro assunto.
No vocabulário político, esse tipo de inclusão tem nome: jabuti.
O que é o jabuti que abriu caminho para a reeleição?
O projeto de resolução que tramitava na Câmara tratava da recriação da Comissão Permanente de Defesa do Consumidor. No meio do caminho, porém, apareceu um assunto que interessava diretamente a quem comanda a Câmara: a possibilidade de continuar no mesmo cargo por mais um mandato.
Lincoln Reis apresentou uma emenda aditiva para modificar o artigo 5º do Regimento Interno. A mudança passou a permitir uma reeleição consecutiva para o mesmo cargo na Mesa Diretora.
Os vereadores aprovaram a proposta em segunda discussão no dia 24 de setembro, apenas dez dias antes do primeiro turno das eleições nacionais, enquanto todo mundo estava olhando para a disputa política nacional. Reis apresentou a emenda verbalmente durante a sessão, e a Câmara disponibilizou o texto no site no dia seguinte. A vereadora Débora Camilo (PSOL) pediu uma pausa de cinco minutos para discutir a mudança, mas não conseguiu. Ela foi a única parlamentar a votar contra a alteração.
Débora explicou que seu voto contrário à chapa única também segue uma posição histórica do partido. Segundo ela, o PSOL nunca apoiou chapas para a Mesa Diretora, que, em sua avaliação, costumam reunir acordos entre a base governista.
“Nosso mandato e partido têm compromisso intransigente com os trabalhadores. Não acreditamos que as conciliações e o grupo político que está na prefeitura há mais de 20 anos possam realizar avanços que beneficiem a nossa classe”, afirmou.
O jornalista e analista político Sandro Thadeu, experiente na cobertura política na região, explicou que a mudança não aconteceu exatamente às escondidas, já que a Câmara publica oficialmente as pautas e votações. No entanto, o momento contribuiu para que o assunto passasse despercebido por boa parte da população.
“Estávamos no meio daquela correria da eleição nacional e, como dizia a personagem Dona Cacilda, da escolinha do Professor Raimundo: o pessoal só pensa naquilo! Todo mundo só pensava em campanha e a rotina da Câmara acabou ficando em segundo plano”.
Esta é a primeira vez que a Câmara de Santos permite a reeleição consecutiva de um integrante da Mesa Diretora para o mesmo cargo. A mudança também vale para os demais postos da direção, que incluem as duas vice-presidências e as duas secretarias.
Por que Adilson Junior queria continuar na presidência?
A permanência no cargo também está ligada a um projeto que Thadeu aponta como uma das principais metas de Adilson Júnior: a implantação da sede própria da Escola do Legislativo e da Cidadania.
A instituição já promove palestras e cursos comunitários há cerca de 10 anos, mas utiliza espaços da própria Câmara, como o Auditório Zeny de Sá Goulart. A proposta agora é ocupar o prédio da antiga Escola Técnica Acácio de Paula Leite Sampaio, na rua Sete de Setembro, quase em frente ao “castelinho”.
Foto: Câmara Municipal de Santos
Segundo Thadeu, Adilson demonstrou interesse em permanecer na presidência também para acompanhar a conclusão e a inauguração do projeto. Caso deixasse o cargo, outro vereador conduziria essa etapa.
A reeleição ainda coloca Adilson em uma posição histórica. Ele será a segunda pessoa a conquistar quatro eleições para a presidência da Câmara de Santos. Já ocupou o posto nos biênios 2017/2018, 2021/2022, 2025/2026 e agora 2027/2028.
O primeiro foi o ex-vereador Marcus de Rosis, mas este não completou o último mandato. Se ficar pelos próximos dois anos, Adilson poderá se tornar o presidente mais longevo da história do Legislativo santista.
A relação com a construção civil
A presidência da Câmara de Santos também importa pelo perfil político de quem ocupa o cargo e pelas pautas que ganham espaço no Legislativo. No caso de Adilson, Sandro destaca sua proximidade com a bancada ligada à construção civil e um histórico de propostas alinhadas aos interesses do setor imobiliário.
Isso merece atenção em uma cidade onde cada mudança nas regras urbanísticas tem potencial para alterar a paisagem, a circulação e a vida de quem mora nos bairros. Afinal, quando se discute o futuro de Santos, quem consegue sentar à mesa para defender seus interesses? E quem precisa descobrir depois que as regras do próprio bairro mudaram?
Um dos exemplos citados pelo analista envolve a Lei Complementar 1.142/2022, de autoria de Adilson. A norma retirou a obrigatoriedade de uma passagem de livre acesso para pedestres e ciclistas entre a Avenida Barão de Penedo e a Avenida Francisco Glicério, no José Menino.
Na prática, a mudança favoreceu o aproveitamento imobiliário de um terreno onde uma construtora ergueu um empreendimento. A passagem que antes deveria permitir a circulação entre as vias deixou de ser obrigatória. O Ministério Público questionou a alteração, e o Tribunal de Justiça de São Paulo posteriormente julgou a lei inconstitucional, segundo Thadeu..
Em resumo: essa alteração aparentemente técnica no texto da lei dita quem ganha espaço na cidade e quem perde uma possibilidade de circulação.
Crescem os impactos
Esse debate vem sendo cada vez mais frequente em Santos, onde a verticalização transforma bairros, pressiona a infraestrutura e levanta questões sobre mobilidade, qualidade de vida e acesso à moradia. A cidade precisa se desenvolver e a construção civil faz parte desse processo. Mas as decisões sobre como e para quem Santos cresce também devem, necessariamente, considerar as pressões sobre quem já vive aqui.
A pauta urbana não pode ocupar todo o espaço enquanto outras demandas ficam em segundo plano. Saúde, assistência social, meio ambiente, mobilidade, habitação e qualidade dos serviços públicos também dependem de decisões tomadas pelos vereadores. Afinal de contas, uma cidade não se resume apenas ao que cabe em um projeto imobiliário.
Para Débora, a mudança no Regimento Interno faz parte de uma estratégia de manutenção dos acordos políticos e do controle governista sobre a Câmara. Ela avalia que a consequência pode ser a continuidade de uma gestão que considera contrária aos interesses populares.
“Entendo que o impacto principal é a continuidade de uma gestão anti-povo, célere para retirar direitos e morosa para garantir políticas públicas”, afirmou a vereadora.
2028 está chegando e a Câmara precisa entrar no seu radar
A eleição para a presidência da Câmara pode parecer um assunto restrito aos bastidores políticos. Mas a Mesa Diretora conduz os trabalhos legislativos e administrativos da Casa, organiza sua estrutura e participa das decisões que influenciam o funcionamento do Legislativo.
Além disso, os vereadores apresentam e votam projetos que afetam diretamente o nosso cotidiano. Uma votação sobre políticas sociais ultrapassa os limites do debate no plenário.
Thadeu observa que a maioria da população costuma priorizar problemas imediatos, como saúde, segurança, educação e assistência social. Por isso, alterações regimentais acabam parecendo burocráticas. Ainda assim, ele identifica um crescimento gradual da participação popular em audiências públicas e transmissões das sessões no YouTube.
O eleitor precisa acompanhar o mandato antes da campanha
Em 2028, os santistas voltarão às urnas para escolher prefeito e vereadores. Até lá, temos tempo pela frente para observar o que cada parlamentar propõe, quais interesses suas iniciativas atendem, como vota e quais assuntos recebem mais atenção em seu mandato.
No caso de Adilson Júnior, vale acompanhar especialmente as propostas relacionadas ao desenvolvimento urbano e à construção civil. O setor tem papel importante na economia e na transformação da cidade, mas suas demandas não podem conflitar com o interesse coletivo.
A população precisa saber quem discute moradia, mobilidade, preservação ambiental e infraestrutura, além de acompanhar quem fiscaliza o Executivo e cobra respostas para os problemas dos bairros. Também é importante observar quais projetos avançam e quais caem ou ficam esquecidos na gaveta.
O que esperar dos próximos dois anos?
Sobre o próximo biênio, Débora diz esperar a continuidade de uma maioria que considera contrária aos interesses populares e próxima ao governo municipal.
A mudança no Regimento Interno indica que decisões capazes de alterar o funcionamento da Câmara podem acontecer enquanto nosso foco está em outros assuntos. Agora, com a reeleição confirmada, o desafio é não deixar o trabalho dos vereadores fora do campo de visão dos moradores.
Em 2028, os santistas terão novamente a oportunidade de escolher quem ocupará as 21 cadeiras da Câmara. Até lá, vale acompanhar o desempenho de quem já está no cargo.
Uma cadeira no Legislativo municipal envolve remuneração, poder de decisão e responsabilidade sobre os rumos da cidade. A possibilidade de continuar no posto por mais um mandato também deveria vir acompanhada da seguinte pergunta: o que foi entregue nesse período?
A próxima eleição municipal não começa apenas na campanha de 2028. Ela também se constrói pelo acompanhamento do que os representantes fazem durante o mandato. E, considerando o salário e as atribuições do cargo, fazer o básico deveria ser apenas o ponto de partida.