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Jabuti na Câmara de Santos: como uma mudança de regra levou à reeleição de Adilson Júnior

Emenda que permitiu a recondução consecutiva entrou em um projeto sobre a Comissão de Defesa do Consumidor durante o período eleitoral. Episódio mostra por que a população precisa acompanhar mais de perto o Legislativo

Tempo de leitura: 10 minutos

“Jabuti não sobe em árvore. Se está lá, ou foi enchente, ou foi mão de gente”

O bicho da máxima acima, atribuída ao saudoso Ulysses Guimarães, não tem pressa nem vocação para grandes alturas. Seu lugar é no chão, longe dos galhos onde pássaros e morcegos se equilibram. Se ele está no alto, é porque aconteceu uma tragédia ou alguém se meteu na sua rotina.

Mas como será que um jabuti foi parar nas sessões da Câmara Municipal de Santos?

Fachada imponente de edifício amarelo-claro com torres ameias e janelas em arco, bandeiras do Brasil e de São Paulo hasteadas.Foto: Câmara Municipal de Santos

Enquanto o Brasil acompanhava aflito a disputa pela Presidência da República no segundo turno de 2026, a Câmara de Santos cuidava de uma questão bem mais doméstica: as regras para escolher quem continuaria no comando da própria Casa.

Em setembro, os vereadores alteraram o Regimento Interno e abriram a possibilidade de uma recondução consecutiva à Mesa Diretora. Na prática, uma reeleição. Pouco mais de um mês depois, Adilson Júnior (PP) conquistou mais dois anos na presidência.

O vereador venceu a eleição de 3 de novembro para o biênio 2027/2028. Ele encabeçou uma chapa única, que recebeu 17 votos favoráveis, um contrário e uma abstenção. A nova Mesa Diretora também terá Adriano Piemonte (União) como primeiro vice-presidente, Paulo Miyasiro (Republicanos) como segundo vice-presidente, Lincoln Reis (Podemos) como primeiro secretário e Chita Menezes (PSB) como segundo secretário.

Até então, a regra do legislativo santista proibia que integrantes da Mesa Diretora ocupassem o mesmo cargo por mandatos consecutivos. A alteração chegou por meio de uma emenda apresentada pelo vereador Lincoln Reis, incluída em um projeto sobre outro assunto.

No vocabulário político, esse tipo de inclusão tem nome: jabuti.

O que é o jabuti que abriu caminho para a reeleição?

O projeto de resolução que tramitava na Câmara tratava da recriação da Comissão Permanente de Defesa do Consumidor. No meio do caminho, porém, apareceu um assunto que interessava diretamente a quem comanda a Câmara: a possibilidade de continuar no mesmo cargo por mais um mandato.

Lincoln Reis apresentou uma emenda aditiva para modificar o artigo 5º do Regimento Interno. A mudança passou a permitir uma reeleição consecutiva para o mesmo cargo na Mesa Diretora.

Os vereadores aprovaram a proposta em segunda discussão no dia 24 de setembro, apenas dez dias antes do primeiro turno das eleições nacionais, enquanto todo mundo estava olhando para a disputa política nacional. Reis apresentou a emenda verbalmente durante a sessão, e a Câmara disponibilizou o texto no site no dia seguinte. A vereadora Débora Camilo (PSOL) pediu uma pausa de cinco minutos para discutir a mudança, mas não conseguiu. Ela foi a única parlamentar a votar contra a alteração.

Débora explicou que seu voto contrário à chapa única também segue uma posição histórica do partido. Segundo ela, o PSOL nunca apoiou chapas para a Mesa Diretora, que, em sua avaliação, costumam reunir acordos entre a base governista.

“Nosso mandato e partido têm compromisso intransigente com os trabalhadores. Não acreditamos que as conciliações e o grupo político que está na prefeitura há mais de 20 anos possam realizar avanços que beneficiem a nossa classe”, afirmou.

O jornalista e analista político Sandro Thadeu, experiente na cobertura política na região, explicou que a mudança não aconteceu exatamente às escondidas, já que a Câmara publica oficialmente as pautas e votações. No entanto, o momento contribuiu para que o assunto passasse despercebido por boa parte da população.

“Estávamos no meio daquela correria da eleição nacional e, como dizia a personagem Dona Cacilda, da escolinha do Professor Raimundo: o pessoal só pensa naquilo! Todo mundo só pensava em campanha e a rotina da Câmara acabou ficando em segundo plano”.

Esta é a primeira vez que a Câmara de Santos permite a reeleição consecutiva de um integrante da Mesa Diretora para o mesmo cargo. A mudança também vale para os demais postos da direção, que incluem as duas vice-presidências e as duas secretarias.

Por que Adilson Junior queria continuar na presidência?

A permanência no cargo também está ligada a um projeto que Thadeu aponta como uma das principais metas de Adilson Júnior: a implantação da sede própria da Escola do Legislativo e da Cidadania.

A instituição já promove palestras e cursos comunitários há cerca de 10 anos, mas utiliza espaços da própria Câmara, como o Auditório Zeny de Sá Goulart. A proposta agora é ocupar o prédio da antiga Escola Técnica Acácio de Paula Leite Sampaio, na rua Sete de Setembro, quase em frente ao “castelinho”.

Homem de pele morena, cabelo curto escuro, sorrindo amplamente e olhando para a frente, vestindo camisa polo azul.Foto: Câmara Municipal de Santos

Segundo Thadeu, Adilson demonstrou interesse em permanecer na presidência também para acompanhar a conclusão e a inauguração do projeto. Caso deixasse o cargo, outro vereador conduziria essa etapa.

A reeleição ainda coloca Adilson em uma posição histórica. Ele será a segunda pessoa a conquistar quatro eleições para a presidência da Câmara de Santos. Já ocupou o posto nos biênios 2017/2018, 2021/2022, 2025/2026 e agora 2027/2028.

O primeiro foi o ex-vereador Marcus de Rosis, mas este não completou o último mandato. Se ficar pelos próximos dois anos, Adilson poderá se tornar o presidente mais longevo da história do Legislativo santista.

A relação com a construção civil

A presidência da Câmara de Santos também importa pelo perfil político de quem ocupa o cargo e pelas pautas que ganham espaço no Legislativo. No caso de Adilson, Sandro destaca sua proximidade com a bancada ligada à construção civil e um histórico de propostas alinhadas aos interesses do setor imobiliário.

Isso merece atenção em uma cidade onde cada mudança nas regras urbanísticas tem potencial para alterar a paisagem, a circulação e a vida de quem mora nos bairros. Afinal, quando se discute o futuro de Santos, quem consegue sentar à mesa para defender seus interesses? E quem precisa descobrir depois que as regras do próprio bairro mudaram?

Um dos exemplos citados pelo analista envolve a Lei Complementar 1.142/2022, de autoria de Adilson. A norma retirou a obrigatoriedade de uma passagem de livre acesso para pedestres e ciclistas entre a Avenida Barão de Penedo e a Avenida Francisco Glicério, no José Menino.

Na prática, a mudança favoreceu o aproveitamento imobiliário de um terreno onde uma construtora ergueu um empreendimento. A passagem que antes deveria permitir a circulação entre as vias deixou de ser obrigatória. O Ministério Público questionou a alteração, e o Tribunal de Justiça de São Paulo posteriormente julgou a lei inconstitucional, segundo Thadeu..

Em resumo: essa alteração aparentemente técnica no texto da lei dita quem ganha espaço na cidade e quem perde uma possibilidade de circulação.

Crescem os impactos

Esse debate vem sendo cada vez mais frequente em Santos, onde a verticalização transforma bairros, pressiona a infraestrutura e levanta questões sobre mobilidade, qualidade de vida e acesso à moradia. A cidade precisa se desenvolver e a construção civil faz parte desse processo. Mas as decisões sobre como e para quem Santos cresce também devem, necessariamente, considerar as pressões sobre quem já vive aqui.

A pauta urbana não pode ocupar todo o espaço enquanto outras demandas ficam em segundo plano. Saúde, assistência social, meio ambiente, mobilidade, habitação e qualidade dos serviços públicos também dependem de decisões tomadas pelos vereadores. Afinal de contas, uma cidade não se resume apenas ao que cabe em um projeto imobiliário.

Para Débora, a mudança no Regimento Interno faz parte de uma estratégia de manutenção dos acordos políticos e do controle governista sobre a Câmara. Ela avalia que a consequência pode ser a continuidade de uma gestão que considera contrária aos interesses populares.

“Entendo que o impacto principal é a continuidade de uma gestão anti-povo, célere para retirar direitos e morosa para garantir políticas públicas”, afirmou a vereadora.

2028 está chegando e a Câmara precisa entrar no seu radar

A eleição para a presidência da Câmara pode parecer um assunto restrito aos bastidores políticos. Mas a Mesa Diretora conduz os trabalhos legislativos e administrativos da Casa, organiza sua estrutura e participa das decisões que influenciam o funcionamento do Legislativo.

Além disso, os vereadores apresentam e votam projetos que afetam diretamente o nosso cotidiano. Uma votação sobre políticas sociais ultrapassa os limites do debate no plenário.

Thadeu observa que a maioria da população costuma priorizar problemas imediatos, como saúde, segurança, educação e assistência social. Por isso, alterações regimentais acabam parecendo burocráticas. Ainda assim, ele identifica um crescimento gradual da participação popular em audiências públicas e transmissões das sessões no YouTube.

O eleitor precisa acompanhar o mandato antes da campanha

Em 2028, os santistas voltarão às urnas para escolher prefeito e vereadores. Até lá, temos tempo pela frente para observar o que cada parlamentar propõe, quais interesses suas iniciativas atendem, como vota e quais assuntos recebem mais atenção em seu mandato.

No caso de Adilson Júnior, vale acompanhar especialmente as propostas relacionadas ao desenvolvimento urbano e à construção civil. O setor tem papel importante na economia e na transformação da cidade, mas suas demandas não podem conflitar com o interesse coletivo.

A população precisa saber quem discute moradia, mobilidade, preservação ambiental e infraestrutura, além de acompanhar quem fiscaliza o Executivo e cobra respostas para os problemas dos bairros. Também é importante observar quais projetos avançam e quais caem ou ficam esquecidos na gaveta.

O que esperar dos próximos dois anos?

Sobre o próximo biênio, Débora diz esperar a continuidade de uma maioria que considera contrária aos interesses populares e próxima ao governo municipal.

A mudança no Regimento Interno indica que decisões capazes de alterar o funcionamento da Câmara podem acontecer enquanto nosso foco está em outros assuntos. Agora, com a reeleição confirmada, o desafio é não deixar o trabalho dos vereadores fora do campo de visão dos moradores.

Em 2028, os santistas terão novamente a oportunidade de escolher quem ocupará as 21 cadeiras da Câmara. Até lá, vale acompanhar o desempenho de quem já está no cargo.

Uma cadeira no Legislativo municipal envolve remuneração, poder de decisão e responsabilidade sobre os rumos da cidade. A possibilidade de continuar no posto por mais um mandato também deveria vir acompanhada da seguinte pergunta: o que foi entregue nesse período?

A próxima eleição municipal não começa apenas na campanha de 2028. Ela também se constrói pelo acompanhamento do que os representantes fazem durante o mandato. E, considerando o salário e as atribuições do cargo, fazer o básico deveria ser apenas o ponto de partida.

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