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Os 20 anos das Mães de Maio: o luto que virou luta

Em maio de 2006, ao menos 564 pessoas foram mortas no estado de São Paulo em duas semanas. Nenhum responsável foi punido. As mães que sobreviveram à dor viraram política pública.

Tempo de leitura: 10 minutos

Toda mãe pede alguma coisa para o filho antes de ele sair de casa. Leva casaco, cuidado com a chuva, manda mensagem quando chegar.

Débora Silva pedia outra coisa. Ela exigia que Edson saísse sempre com o último holerite no bolso para provar que era trabalhador, caso alguém duvidasse.

Edson Rogério Silva dos Santos tinha 29 anos e era gari na Baixada Santista. Na noite de 15 de maio de 2006, trabalhava doente. Tinha 15 pontos na boca por causa de uma cirurgia no dente. Parou num posto de gasolina para abastecer a moto. Morreu subindo o morro da Caneleira, em Santos. Era pai também, de um menino de 3 anos.

Mulher segura banner preto com 'MÃES DE MAIO' e fotos de rostos, em ambiente externo com esculturas de madeira ao fundo.Foto: Gustavo Nascimento

Ele carregava o crachá funcional e o holerite quando morreu. Do jeito que a mãe havia pedido.

“Meu filho varreu a sujeira da sociedade de dia e, à noite, foi executado. Varreu aonde morreu.”

O que aconteceu em maio de 2006

Um toque de recolher decretado pelo PCC esvaziou as ruas de São Paulo. O estopim foi a transferência de 765 presos para uma penitenciária de segurança máxima em Presidente Venceslau. A facção respondeu com rebeliões em 74 presídios e ataques nas ruas. Segundo Débora, o PCC firmou trégua com o governo estadual no dia 15 de maio, algo que o Estado nunca reconheceu oficialmente. A partir daí, a resposta policial virou outra coisa.

Grupos de extermínio, identificados por testemunhas como compostos também por policiais militares, passaram a executar jovens nas periferias. As perícias encontraram vítimas baleadas de costas, agachadas, com a mão no rosto. Tiros na nuca disparados de cima para baixo.

Em duas semanas: ao menos 564 mortos. Mais de 400 eram jovens negros e pobres das periferias. 484 levaram tiros na cabeça. Apenas 6% tinham qualquer passagem policial. Nenhum responsável foi criminalmente punido até hoje.

O Ministério Público Estadual, em vez de investigar, publicou um ofício assinado por 79 promotores elogiando a atuação policial. Dois deles se disseram arrependidos publicamente, anos depois.

Para Débora, a narrativa que ficou na memória coletiva omite o essencial.

“A sociedade ficou com que o PCC fez um ataque no estado de São Paulo, mas não conta que o PCC fez esse ataque porque os próprios investigadores estavam sequestrando familiares de presos. Os Crimes de Maio foram resultado da corrupção do Estado”, afirmou.

Investigar sozinha, com as próprias mãos

Depois da morte do filho, Débora tentou obter as imagens das câmeras do posto onde Edson havia parado. O distrito policial não liberava. Ela queria identificar os policiais que o abordaram: uma viatura Gol da Força Tática, com final 66.

Quando foi ao pátio buscar a moto do filho, encontrou uma substância branca e adocicada dentro do tanque. Ela mesma provou. Concluiu que o açúcar havia sido colocado ali intencionalmente. O policial no pátio avisou que, se ela ligasse a moto, ela explodiria. O Ministério Público nunca investigou o episódio.

A delegada havia pedido que Débora declarasse que o filho foi confundido com bandido. Ela se recusou.

O começo do movimento

Débora caiu de cama em depressão. Ficou quarenta dias assim, internada, até que Edson apareceu. Segundo ela, o filho a puxou da cama e disse:

“Mãe, não quero a senhora aqui. Levanta e vá lutar.”

No dia seguinte, ela viu as marcas dos dedos dele no braço. Entendeu que aquilo era uma missão.

Quando saiu do hospital, pediu ao marido para encontrar as outras mães que havia visto na TV. Foram até a casa de Edinalva Santos, mãe do surfista Marco Rebelo. Dali, quatro mães foram juntas para São Paulo. Depois, Brasília. Depois, Miami e Nova York.

“Ainda tinha uma lenda que meu pai falava: quem se perdesse em São Paulo não voltava mais para casa. Eu fui assim mesmo. A gente desceu em todas as estações com medo de se perder.”

Também exigiram que a mídia mudasse o nome. Não “ataques do PCC”, mas crimes de maio.

Débora, Vera de Freitas e Ednalva Santos fundaram o movimento Mães de Maio em 2006. Desde o início, as três enfrentaram criminalização sistemática. Ednalva foi presa em 2006, Vera Lúcia em 2008, ambas em flagrantes forjados. Vera ficou dois anos e meio na Penitenciária Feminina de Franco da Rocha. Antes disso, havia perdido a filha grávida de 9 meses, o genro e a neta Bianca, que levou um tiro ainda no útero. Vera morreu em maio de 2018 sem ver justiça.

O aniversário que virou dia de luta

Débora nasceu em 10 de maio. Por muitos anos, seu aniversário e o Dia das Mães quase sempre coincidiam. A última vez que ela comemorou foi em 14 de maio de 2006, quando Edson cantou para ela. No dia seguinte, ele morreu.

Hoje ela tem 67 anos, três filhos, sete netos e não sopra mais velinha.

“Não faço mais aniversário. Só comemoro o ano de luta, porque foi a última coisa que meu filho cantou para mim.”

A violência de Estado acompanha sua família há gerações. Um irmão desapareceu durante uma operação do Esquadrão da Morte na Baixada Santista no fim dos anos 1960. Antes disso, a própria mãe de Débora já havia perdido um filho sem direito a enterrar o corpo.

“Não tem mais Dia das Mães para mim, porque virou comércio. O Dia das Mães é todo dia, e todo dia é dia de luta.”

Mães que adoeceram, mães que morreram

Com o tempo, o movimento percebeu que as mulheres estavam adoecendo. Câncer, depressão, tumores nos órgãos reprodutores. As portas das instituições estavam fechadas e a única oferta era remédio.

As Mães de Maio passaram a pressionar por uma política pública de acolhimento. Conseguiram implantar na Defensoria Pública um programa com psicólogas e assistentes sociais. Depois levaram a pauta ao governo federal.

A partir de um encontro nos Estados Unidos, Débora se aproximou da professora Yanilda González, pesquisadora de violência policial na América Latina que hoje leciona em Harvard. As duas conduziram uma pesquisa inédita sobre o adoecimento dessas mães, com participação de mulheres do Ceará, Salvador e Rio de Janeiro.

“Mãe pesquisando mãe. É inédito isso.”

O estudo se transformou em uma semente para algo maior, o CMVV.

Santos vai ter endereço para essa memória

Em março de 2026, o Governo Federal anunciou a criação do primeiro Centro de Memória às Vítimas da Violência de Estado (CMVV) do Brasil, aqui em Santos. O espaço fica na Rua Frei Gaspar, em frente à Bolsa do Café, e deve abrir no início do segundo semestre. Vai oferecer atendimento psicossocial e jurídico gratuito, preservar acervos documentais e trabalhar com letramento cultural via funk e rap. No primeiro ano, deve receber cerca de R$ 3,5 milhões.

O que diferencia esse centro é quem vai conduzi-lo. O conhecimento virá das próprias mães.

“Os nossos profissionais não estão adequados a fazer essa tratativa. O centro traz toda a informação dada por nós, mães, que somos pesquisadoras com a produção do conhecimento.”

O símbolo escolhido é o baobá.

“Representa a árvore dos nossos filhos, as raízes. É a raiz dos nossos filhos que vai fortalecer e tentar acabar com essa política de morte.”

Mulher com o punho cerrado em frente a monumento em praça, protestando.

Foto: Gustavo Nascimento

Em 2021, o movimento havia inaugurado um memorial na Praça Domingos Aulicino, zona noroeste de Santos: uma escultura de 11 pessoas de braços erguidos segurando flores. O poder público tentou nomear o espaço de “Memorial da Família”. As mães recusaram. Até hoje pedem a troca da placa. O nome que querem: “Memorial dos Nossos Filhos Vivos”.

A ONU como último recurso

Vinte anos denunciando dentro do Brasil sem resposta levaram o movimento a outro endereço. Em maio de 2026, a Conectas Direitos Humanos e as Mães de Maio enviaram um apelo urgente à ONU, denunciando a omissão do Estado brasileiro diante dos Crimes de Maio.

As organizações pedem que o Brasil reconheça as execuções como graves violações de direitos humanos e que o STJ reconheça a imprescritibilidade do caso. Um julgamento sobre esse ponto está suspenso no tribunal. Se a tese for rejeitada, o Estado terá concedido salvo-conduto à própria inação.

“Nenhuma dessas execuções foi devidamente esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e tampouco as famílias das vítimas receberam reparação adequada”, diz o documento.

Enquanto isso, as Mães de Maio acompanham as Operações Escudo e Verão, de 2023 e 2024, que deixaram ao menos 84 mortos na Baixada Santista. Os rostos dessas vítimas estão na bandeira do movimento. O padrão se repetiu. As mães também.

O que ainda falta

Os crimes foram todos arquivados por falta de perícia. Edson foi o único exumado, seis anos depois. Encontraram um projétil na espinha cervical. O TJ-SP negou a ação civil pública que pedia R$ 154 milhões em indenizações para as famílias, alegando prescrição.

Débora tem uma pesquisa em andamento com a Unifesp e a Universidade de Oxford. É a primeira mãe pesquisadora sem título acadêmico a integrar esse tipo de iniciativa. Depois de 20 anos, ela ouviu pela primeira vez o governo federal reconhecer publicamente que a polícia brasileira é letal. Mas sabe que reconhecimento não basta.

“O treinamento policial ainda vê o morador da favela e o negro como inimigos. Muda-se a roupagem, a violência continua. O inimigo, para eles, é o pobre. Há uma política de extermínio da população negra. Ela vem pós-Abolição.”

Por isso, para Débora, o CMVV precisa durar além de um ciclo de governo.

“Essa política é um acolhimento. Não serve mais para nós, que já perdemos. Mas vai servir para quem vem depois de nós. E a gente não pode ser só uma campanha que termina para ficar bonita.”

Vinte anos de luta. Uma cidade que finalmente vai ter um lugar para guardar essa memória. E uma mãe que não faz mais aniversário, porque o último bolo foi em 14 de maio de 2006.

O recado que deixou para as mães é o mesmo que repete há duas décadas, para qualquer mãe que chega até o movimento.

“A gente sabe o caminho da luta. É uma luta árdua, sofrida, sangrenta pela memória dos nossos filhos. Mas precisa existir porque nossos filhos não são baratas.”

Assista ao mini doc do Juicy Santos sobre os crimes de maio de 2006