Quando Nat King Cole, ícone do jazz, apareceu de surpresa em Santos
O cara abraçou repórteres, assinou autógrafos pra galera e se despediu com "Hasta luego, my friend"
Em 25 de abril de 1959, um sábado, o jornalista Hamleto Rossato e o fotógrafo Rafael Herrera, de A Tribuna, correram pro restaurante Don Fabrizio atrás de um furo impressionante. Nat King Cole, o rei do jazz, almoçava ali de surpresa. O astro americano havia chegado de São Paulo por volta do meio-dia, passeado de carro pela orla e escolhido o badalado italiano pra uma refeição discreta com a esposa Mary e o empresário. O plano? Fugir da imprensa e dos curiosos no fim de sua turnê brasileira.

Pois é, imagina a cena: anos 1950, porto fervendo de navios, bondes cruzando a cidade pelos trilhos e, de repente, Nat King Cole, a voz de veludo do rádio, aparece por aqui. Não é lenda de pescador. Ele passou pela cidade em 1959, numa turnê que misturou jazz com nosso jeitão brasileiro. E essa história? É a prova de que Santos sempre foi um palco importante da cultura nacional.
A entrevista que quebrou o gelo (e o sigilo)
Barrados pelo dono Fabrizio Tatini, os repórteres esperaram o café terminar. Nat, que queria sossego após shows no Maracanãzinho e Teatro Paramount, acabou autorizando a aproximação. Inicialmente sério e falando espanhol enrolado, ele relaxou ao ver jovens aglomerados na rua. Hamleto puxou papo em inglês sobre café brasileiro (“Como no!”), Brasil e as praias santistas.
Ao que ele respondeu: “São muito bonitas, grandes e ajardinadas”, elogiou. Segundo o repórter, o papo fluiu tanto que ele confessou saudades do Alabama natal, abraçou os jornalistas e posou sorridente com garçons para fotos.
Nat King Cole, o rei que veio do jazz pro nosso samba
Nascido em 1919 lá em Montgomery (EUA), ele largou o piano pelo microfone e explodiu com pérolas como “Mona Lisa”, “Nature Boy” e aquela “Unforgettable” que ainda faz muita gente se arrepiar quando toca. Essa música, aliás, voltou a tocar nos anos 1990 em uma regravação com a sua filha, Natalie. Nos anos 50, virou o primeiro negro a comandar um programa de TV nos EUA no auge da segregação racial.
Aqui no Brasil, em 1959, ele veio seduzido pelo nosso som. Gravou em português, flertou com bossa nova e o samba, e Santos entrou no roteiro.
E como era Santos nos anos 1950?
Era uma cidade efervescente! Porto lotado de grãos e gente trabalhando, expansão da área da orla, bondes elétricos serpenteando as ruas, um balneário famoso e aquela mistura de imigrantes italianos, japoneses, portugueses nos nossos bairros.
A vida pulsava nesse pedacinho quase cosmopolita do litoral brasileiro.
No Brasil, Juscelino Kubitschek prometia “50 anos em 5”: Brasília subindo, fábricas pipocando e um otimismo radical no ar. O samba mandava, mas a bossa nova, com Tom Jobim e João Gilberto, já pedia passagem e demandava revolução com banquinho e um violão.
E foi nesse contexto que Nat King Cole desembarcou e cruzou a ponte jazz-samba.
Autógrafos para os santistas
Ao sair do Don Fabrizio, Nat enfrentou uma multidão de fãs eufóricos na porta da casa.
Assinou autógrafos e se despediu com um “Estoy muy agradecido. Hasta Luego, my friend” sob aplausos calorosos da galera.

E o artista partiu rumo a SP pra seu último show antes de retornar para os EUA.
O que era pra ser uma visita low profile virou mais uma daquelas histórias que fazem a gente se lembrar que Santos conquista até as grandes lendas da música…