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Golpe militar em Santos: como a Moscouzinha brasileira pagou o preço da resistência

62 anos depois do golpe, Santos, a "Moscou Brasileira", lembra as feridas que nunca cicatrizaram

Tempo de leitura: 8 minutos

Existe uma ironia cruel no calendário brasileiro. O dia mundialmente associado à mentira, o 1º de abril, coincide exatamente com a data em que militares tomaram o controle do Brasil por meio de um golpe de Estado sustentado, por décadas, por mentiras cuidadosamente repetidas.

www.juicysantos.com.br - Golpe militar o dia da mentira que marcou SantosFoto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã

Em 2026, esse golpe completa 62 anos. E Santos, cidade que os próprios militares chamavam de “Moscou Brasileira” e “República Sindicalista”, carrega razões muito particulares para não esquecer.

O golpe que nasceu mentindo

O golpe teve início em 31 de março de 1964, mas só se concretizou no dia 1º de abril, o Dia da Mentira. Essa coincidência não é apenas irônica.

A ditadura mentiu desde o começo. A primeira falsidade estava na data: alegou-se que tudo ocorreu em 31 de março. Em seguida, o regime se apresentou como defensor da democracia, aprofundando a farsa. Depois, afirmou que o presidente João Goulart havia abandonado o país quando, na verdade, estava no Rio Grande do Sul. Por fim, chamou de “revolução” o que, tecnicamente, foi um golpe de Estado.

E para evitar a velha discussão: uma revolução promove mudança de regime com alterações profundas na ordem social, como ocorreu na Revolução Francesa ou na Revolução Russa. Um golpe, por sua vez, retira um governante eleito do poder pela força, sem transformações sociais substanciais. No Brasil, militares tiraram um presidente democraticamente eleito e colocaram outro no lugar. O nome disso você já sabe.

Ainda assim, a narrativa da “revolução democrática” circulou tantas vezes que, no imaginário de parte da população, acabou virando verdade. Como toda mentira bem contada.

“Naquela época era bom”

Uma das mentiras mais persistentes é a da “época boa”. Os dados, contudo, contam uma história bem diferente.

No governo do último ditador, João Figueiredo, a inflação saltou de 77% em 1979 para 235% em 1985, a maior da história do país. Nesse mesmo período, a dívida externa chegou a 105 bilhões de dólares, a maior do mundo naquele momento.

www.juicysantos.com.br - ditadura militar

Do ponto de vista humano, o saldo é ainda mais brutal. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) reconheceu oficialmente 434 mortos e desaparecidos políticos. Revisões recentes, de 2024 e 2025, sugerem que o número de vítimas fatais pode ultrapassar 10 mil. Pelo menos 20 mil pessoas sofreram tortura. Os povos indígenas, por sua vez, pagaram um preço especialmente alto. A CNV estimou que ao menos 8.350 indígenas morreram em decorrência da repressão e pesquisadores acreditam que o número real é muito superior.

Portanto: bom para quem?

Santos, a cidade que os militares mais temiam

Para entender por que Santos se tornou alvo prioritário da repressão, é preciso voltar um pouco mais no tempo.

Desde o final do século XIX, Santos construiu uma tradição operária única no Brasil. Em 1877, antes mesmo da abolição da escravatura, carregadores de café protagonizaram a primeira greve do país, reivindicando melhores salários. Em 1891, a cidade sediou a primeira greve geral da nação.

No início do século XX, Santos recebia o apelido de “Barcelona Brasileira” pela força do movimento anarco-sindicalista. Nas décadas seguintes, ganhou outros nomes: “Moscou Brasileira”, “Cidade Vermelha” e “República Sindicalista”.

www.juicysantos.com.br - moscou brasileira

Foto: Novo Milênio

Não era exagero. Santos representava a vanguarda da organização trabalhista no Brasil, 20 anos antes das grandes greves do ABC paulista. Havia comunistas na cidade, como em qualquer lugar do país, mas a força real vinha de um sindicalismo de reivindicações sérias e de uma população politicamente ativa. Os militares acusavam os sindicatos de violência. Mas as suas armas eram a voz e a união de um grupo forte.

O próprio coronel Erasmo Dias, um dos líderes militares responsáveis pela repressão na Baixada Santista, admitiu anos depois:

“Santos foi onde a revolução correu maior risco. Aqui o esquerdismo adquiriu uma força potencial que não existia no Brasil inteiro.”

Lembrando que, assim como nos tempos de hoje, o que eles chamavam de “esquerdismo” não passava de reivindicação de direitos básicos (e a história se repete).

409 sindicatos invadidos em 24 horas

No dia 1º de abril de 1964, horas depois do golpe se consolidar, militares invadiram 409 sindicatos, duas confederações e seis federações em todo o Brasil. Em alguns casos, tanques de guerra chegaram a ser posicionados em frente às sedes. Nas primeiras semanas, cerca de 50 mil pessoas foram presas no país.

Em Santos, a repressão foi imediata e coordenada. O capitão da Marinha Júlio de Sá Bierrenbach assumiu a Capitania dos Portos com plenos poderes e, no mesmo dia 1º de abril, começou a nomear interventores para os sindicatos da cidade. Líderes sindicais, primeiros alvos do golpe, sofreram perseguição, prisão e tortura.

Os jornais registraram em 7 de maio de 1964: mais de 250 pessoas foram detidas apenas nas primeiras semanas após o golpe.

O navio-prisão no porto da cidade

Além das prisões em terra, Santos foi palco de um símbolo especialmente perturbador: o navio Raul Soares.

Construído na Alemanha em 1900, o navio havia transportado tropas brasileiras à Itália na Segunda Guerra. Em 1964, porém, militares o rebocaram até o porto de Santos e o encalharam nas imediações da Ilha Barnabé, para servir de prisão a sindicalistas, jornalistas, médicos, advogados e trabalhadores contrários ao regime.

www.juicysantos.com.br - raul soares

As condições eram desumanas. Presos dormiam em celas com água na altura da canela, a comida chegava estragada, os carcereiros, descritos por detentos como “a pior polícia que existia na época”, resolviam conflitos na violência física. Além disso, militares ameaçavam constantemente levar o navio para o alto-mar. Enquanto isso, helicópteros sobrevoavam e tiros eram disparados como aviso.

Os próprios presos batizaram as três celas de castigo com nomes de boates famosas de Santos da época: Casa Blanca (onde depositavam fezes), Night and Day (onde o preso ficava com água pelos joelhos) e El Moroco (uma cela de ferro ao lado da caldeira, com calor insuportável).

O navio chegou a Santos para aterrorizar e dobrar a resistência da cidade.

O porto que colaborou com a repressão

A cumplicidade empresarial com o golpe é uma das dimensões menos conhecidas desse período. Em Santos, ela está documentada.

A Companhia Docas de Santos (CDS), que controlava o maior complexo portuário da América Latina, colaborou ativamente com o aparato de repressão. Funcionários sofreram prisões dentro do próprio porto. Além disso, a empresa fornecia veículos para detenções, produzia relatórios sobre trabalhadores e os encaminhava aos órgãos militares. A CDS também militarizou sua guarda interna e a subordinou à Capitania dos Portos.

A lógica era econômica, além de ideológica. Com a repressão sindical, os trabalhadores perderam direitos históricos, como a tabela de horas extras vigente desde 1937. O regime de trabalho passou a ser imposto por decreto. E, hoje, quando vemos gente reclamando do fim da escala 6×1, vale lembrar de quantos direitos foram embora ao longo dos anos.

Em 2023, a Volkswagen se tornou a primeira empresa no Brasil a admitir reparação por crimes da ditadura, destinando R$ 36,3 milhões a ex-funcionários vítimas. O assunto ficou morno desde então, mas existem muitas empresas (e um certo país de língua inglesa) com muita culpa no cartório.

62 anos depois

A ditadura militar brasileira não é só história. E não se trata de direita ou esquerda, trata-se de dignidade e decência frente à imoralidade. Há uma ironia amarga no fato de que quem ainda hoje defende o regime o faz em nome de Deus, pátria, família e liberdade, os mesmos valores que a ditadura destruiu quando prendeu, torturou e assassinou trabalhadores, estudantes, jornalistas e indígenas.

Em 2026, enquanto o Brasil debate candidaturas para as eleições, vale uma pergunta incômoda: o que significa defender soberania nacional quando, ao mesmo tempo, alguns candidatos defendem abertamente entregar o país aos interesses dos Estados Unidos? Curiosamente, essa mesma parceria, com apoio explícito de Kennedy, Johnson e Nixon, além da CIA, foi o que viabilizou o golpe de 1964.

Santos, que viveu amordaçada por 20 anos e só voltou a eleger seu prefeito em 1984, conhece bem o preço dessa conta.

Santos se esquece

A cidade que militares chamaram de “República Comunista” para justificar o terror não guardava arsenais nos sindicatos. Guardava algo muito mais perigoso para qualquer regime autoritário: organização, consciência política e memória.

Aos 62 anos do golpe, lembrar não é romantismo. É a única vacina confiável contra a repetição.

A história de Santos, da primeira greve do Brasil às celas batizadas com nomes de boates no porão de um navio-prisão, precisa circular, ser discutida e ensinada. Não para cultivar ódio, mas para afiar o olhar sobre o presente.

Afinal, mentiras repetidas o suficiente podem virar verdade no imaginário de alguns. O Brasil de 1964 já provou isso uma vez e seria bom se isso não se repetisse.

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