Texto porVictória Silva
Jornalista, 25 anos - Santos

Adaptações: como o Lar das Moças Cegas funcionou no último ano

No mundo, cerca de 39 milhões de pessoas não enxergam.

De acordo com dados do IBGE, no Brasil, a estimativa é que em torno de 1.577.016 indivíduos sejam cegos. Ou seja, uma média de 0,75% da população. Na Baixada Santista, 300 pessoas sem visão recebem assistência no Lar das Moças Cegas (LMC).

Kleiton Batista está entre elas.

O adolescente, de 19 anos, ia ao prédio da Rua Carvalho de Mendonça com a Av. Ana Costa todos os dias no contraturno escolar. Desde que a pandemia da COVID-19 começou, claro, a rotina teve uma brusca mudança.

Adaptações também foram necessárias no Lar das Moças Cegas

Em suas visitas diárias ao lar, Batista tinha atendimentos tanto educacionais quanto terapêuticos. Suas atividades preferidas eram as que envolvem música. Mas, por lá, os alunos podem fazer também artesanato, esportes e várias outras vertentes.

O LMC também oferece atendimento médico e assistência social.

Há um ano, quando a pandemia chegou ao Brasil, tudo isso parou. Assim como as escolas, num primeiro momento, o LMC ficou fechado.

Em seguida, o desenvolvimento voltou a acontecer. Porém, de forma remota. Entre assistências com psicólogos, fisioterapeutas e oftalmologistas, já aconteceram 4.500 atendimentos a distância.

“Temos dado toda a assistência aos assistidos por atendimento online e visitas domiciliares. Além disso, promovemos interação social, doações de cestas básicas, orientações referentes à concessão de benefícios, contato com órgãos públicos e realizamos acolhimento aos mesmos que se encontram em situação de vulnerabilidade social”, explica Carlos Antonio Gomes, presidente do Lar.

juicysantos.com.br - lar das moças cegasImagem: Divulgação

Segundo nos explicou, tudo o que era oferecido presencialmente passou a ser entregue através dos atendimentos remotos.

Apesar disso, o contato faz falta

Não é exagero afirmar que as pessoas assistidas pelo Lar das Moças Cegas enxergam através do corpo. Neste sentido, estar longe e sem a possibilidade de toque se mostra uma tarefa ainda mais difícil.

Batista, por exemplo, diz que sua maior saudade dos tempos de antes da pandemia é poder abraçar.

“A rotina antes era muito mais legal e totalmente diferente. A gente conseguia ficar junto com os nossos amigos, que é o que sentimos mais falta, né? Eu acho que todo o contato físico e a presença dos alunos faz falta”.

Assim como ele, muitos alunos sentiam falta da possibilidade de estar juntos. Por isso, desde janeiro deste ano, o atendimento híbrido passou a intergrar a parte pedagógica. Na fase mais restritiva, as aulas voltaram ao sistema remoto. E, agora, estão novamente acontecendo de ambas as maneiras.

O isolamento no espectro: como a pandemia tem sido para autistas

Nas salas de aula, ficam apenas 35% dos alunos. Enquanto o restante têm acesso ao mesmo conteúdo, porém de suas casas – via Google Meet. Dúvidas podem ser tiradas através do WhatsApp e também de telefonemas.

Em alguns necessários, máquinas de braile e outros equipamentos foram emprestados aos alunos.

“O híbrido se tornou muito importante para o equilíbrio emocional. Tivemos que nos reinventar para que nossos alunos não ficassem em defasagem e, após pesquisas com eles e os familiares, conseguimos chegar a um consenso sobre a melhor forma de atendê-los”, explica Marta Valdívia, diretora pedagógica do Centro de Educação e Reabilitação para Deficientes Visuais.

Os abraços ainda não são permitidos. Mas, ao menos, dá para conversar sobre futebol e outros assuntos.

Para além das mudanças de atendimento, eventos também estão diferentes

Já que todos os atendimentos são oferecidos gratuitamente, boa parte da renda do Lar das Moças Cegas vem dos eventos organizados na instituição. As feijoadas e botecos do Lar eram um sucesso e sempre tinham ingressos esgotados. Com a impossibilidade de organizar eventos e a necessidade de manter os atendimentos, houve mais essa adaptação.

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Foi assim que o delivery e a retirada viraram parte da rotina.

“Em julho, nós fizemos um evento com delivery e retirada de sopas e caldos, que chamamos de Julho Solidário. Tivemos adesão do público e, a partir daí, realizamos outros eventos no mesmo formato”, conta Vanessa Sena, coordenadora de eventos.

Teve feijoada, costelinha e várias outras opções no decorrer dos meses.

Mas, em seguida, a organização decidiu continuar apenas com a retirada – tendo em vista os custos elevados gerados pelo serviço de entrega. Em 2021, Vanessa conta que os eventos vão continuar ainda neste formato de retirada. Se você ama pedir um almoço diferente, vale a pena ficar de olho nas redes do Lar das Moças Cegas para saber quando será a próxima oportunidade.

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Além disso, para quem não aguenta mais ficar em casa e também não quer encarar viagens longas, o Sítio Paraíso é uma opção para o final de semana que ajuda o LMC a continuar funcionando. Localizado em Pedro de Toledo, o sítio tem uma estrutura bem legal e preços incríveis – revertidos para o funcionamento do lar. Dá para curtir, por exemplo:

  • Lagos para pesca esportiva
  • Piscina
  • Campo de futebol society
  • Quadra de vôlei
  • Sauna

Em abril, por exemplo, a diária custa R$ 60 durante a semana e R$ 75 de sexta-feira a domingo e também nos feriados. Também é possível ajudar com doações diretas no site do LMC (clique aqui).