Texto porLudmilla Rossi
42 anos - Santos

Minha causa vegana virou um negócio de milhões

Quando eu penso no início dos anos 2000, sinto o cheirinho de cigarro que acompanhava finais de semana nada saudáveis. Eram noites embaladas pelas batidas de músicas techno, house e outros estilos que desembarcavam no Brasil direto da Europa. Não tinha Spotify pra gente descobrir novos sons e a Internet ainda era uma bolha da classe média. Movimentos sociais, diversidade, veganismo e preocupação com o meio ambiente, definitivamente, não faziam parte dessa narrativa. Equity crowdfunding era um conceito que não devia existir nem no Google.

www.juicysantos.com.br - crica wolthers

No ano em que a Lei Antifumo foi implantada no país, nasceu um lugar novo na nossa cidade: era o Bikkini Barista, uma balada-café que já trazia esse formato multiuso para os empreendimentos do centro de Santos. Foi a primeira vez que ouvi o nome do Crica, um brasileiro-dinamarquês ultra carismático que foi parar no sofá do Jô Soares. Ele tinha acabado de voltar pro Brasil depois de duas décadas na Dinamarca. Nessa época, Crica era barista e músico, duas profissões que carregavam a alma boêmia, o espírito daquele tempo.

Corta para 2021. Eu e Crica dividindo a mesma mesa no Juicyhub. De repente, um estouro que me assustou e que se revelou um pequeno incidente por conta de uma reforma feita no andar de cima. Crica, espirituoso, dispara:

– Relaxa, Lud. Nada vai ser pior do que ter uma balada.

Eu ri. Crica entendeu muito cedo o que era trabalhar “enquanto os outros se divertem”. E hoje ele se diverte enquanto gera impacto positivo na causa animal. Parece curioso alguém que migra de uma vida boêmia, rodeada de fumaça de cigarro e álcool, para uma rotina super disciplinada. Atualmente, Crica é atleta amador, correu várias maratonas, tem uma disciplina invejável e só se alimenta de forma saudável, com uma dieta baseada em plantas. Muito além disso, Crica abraçou a causa vegana.

Não apenas ele, mas toda a sua família: os filhos Anne Liv e Liam e a esposa Juliana Goes. A chegada da primeira filha fez o casal refletir sobre o estilo de vida que estavam levando e alterou a jornada profissional de ambos. Juliana passou a questionar quem era, o que comprava e as marcas que representava. Em 2016, fez uma grande virada, doou 70% de tudo o que tinha para o Juicybazar e desenvolveu uma maior consciência de consumo. Ju, que já era muito espiritualizada, levou Crica junto para esse universo.

Em 2017, quando Anne Liv estava a caminho, Crica entrou em crise. Não fazia ideia de como iria educar uma criança. Numa noite, cansado de tanto pesquisar e não encontrar o que procurava, jogou no google “Sadhguru como educar crianças”. Em minutos, o guru espiritual transformou sua vida pra sempre. Ali, Crica decidiu que precisava mudar seus hábitos e cuidar de si. Só assim ele seria um bom exemplo para seus filhos. Um dos hábitos que adquiriu foi o de basear a sua alimentação em vegetais e não consumir mais animais. A principio a escolha foi por saúde, mas a mudança trouxe tanto bem-estar que ele foi pesquisar mais sobre o assunto. E daí nasceu sua nova missão de vida.

No meio de tudo isso, junto com Juliana e uma porção de sócios talentosos, Crica fundou o Zen App, uma startup de meditação guiada que fez muito sucesso e atinge mais de 150 países. Por causa da balada, Crica aprendeu marketing digital. E hoje, é uma referência em distribuição de conteúdo online. Ele tem muita consciência do poder que a internet tem para um negócio, já viu várias ideias boas não vingarem por falta de público.

Causa vegana

Descobrir como os animais eram tratados pela indústria alimentícia e sentir os inúmeros benefícios do novo estilo de vida fizeram Crica transformar o veganismo em missão de vida. Junto com Nádia Gonçalves, criou uma plataforma de conteúdo para divulgar notícias sobre tudo do mercado plant-based (baseado em plantas) do Brasil e do mundo. Batizaram a plataforma de Vegan Business, para mostrar que o causa vegana poderia ser bom para os negócios também.

O que era um hobbusiness (acrônimo de hobby + business) virou uma marca com o nobre propósito de democratizar o investimento em negócios plant-based. Por meio de uma plataforma de equity crowdfunding, Crica consegue agregar várias pessoas que querem investir em marcas veganas a partir de mil reais e, assim, formar o investimento que as marcas precisam para escalar. Em minutos, a primeira captação da plataforma conseguiu levantar meio milhão de reais para a marca de protetor solar mineral Chameleon Sun, por exemplo.

A Impact Invest, fintech do grupo Vegan Business, também atraiu dois novos sócios: João Cristofolini (fundador da Pegaki) e Claudio Yamaguchi (ex-Via Varejo e Y&R, ex-sócio da Tera). Os quatro sócios montaram um fundo de R$ 20 milhões para liderar as captações realizadas pela plataforma e investir em rodadas privadas também. A marca Vegan Business segue como plataforma de conteúdo, atingindo mais de 100 mil pessoas todos os meses e se consolidando como um dos principais canais do segmento no Brasil.

três homes e uma mulher, os sócios da Impact Invest

Os fundadores da Impact Invest: Nádia Gonçalves, Claudio Yamaguchi, Crica Wolthers e João Cristofolini – Foto: Divulgação

Ética vegana

Pessoas que se identificam como veganas acabam levando essa ética para outros aspectos da vida. Muitos optam por deixar de consumir itens de origem animal em produtos de beleza, higiene ou têxtil. Por exemplo, sapatos e bolsas de couro ou roupas com tecidos de origem animal, como a seda. O impacto que o veganismo pode gerar na vida de alguém é imenso. Para Crica foi também nos negócios.

Apesar de ser uma realidade emergente no Brasil e muito consolidada em países Europeus, o veganismo ainda gera dúvidas. Tem gente que acha que é um hype. Mas Crica e seus sócios entenderam que é, além de um estilo de vida, um mercado promissor para construir o futuro do planeta. Qualquer um pode fazer a sua parte, na Impact Invest, mais de 90% dos investidores não são veganos mas acreditam na causa ou sabem que ela pode ser lucrativa.

Impacto ambiental e veganismo

Se você não mergulhou no veganismo e ainda está tentando entender porque tantas pessoas viraram essa chave nos últimos anos, saiba que tem a ver com a construção de um planeta possível. Dietas veganas impactam diretamente na crueldade animal, resultando em menos seres vivos sendo criados para sofrer e morrer nas fazendas, matadouros e aviários. Com menos animais precisando ser alimentados, menor é a exploração do solo em monoculturas para a produção de ração.

Crica provoca:

– Com o que plantamos para alimentar os animais, poderíamos eliminar a fome do planeta.

E mesmo para quem não liga tanto para os animais, o veganismo se relaciona diretamente com a questão do clima e da água. A escassez de água é um problema ambiental global que traz sérias consequências para a humanidade.

Eliminar (ou mesmo reduzir) o consumo de carne também ajuda a prevenir a perda de ecossistemas naturais habitados pela vida selvagem e o desmatamento, que pode resultar em problemas como a diminuição do suprimento de alimentos.

Crica é um exemplo de como a mudança de um hábito pode ajudar a mudar o mundo.

Quem diria que o futuro começou em uma balada no centro histórico de Santos.