Santos é a cidade onde todo mundo conhece alguém que conhece você
Em Santos, todo rolê vira reencontro de ensino médio. Aqui o networking começa na fila da padaria e termina no grupo da família
Tem uma galera que atravessa o planeta para viver o sonho do anonimato. Diversos lugares pelo mundo podem dar essa opção. Mas a cidade de Santos certamente não é um desses. Basta sair para comprar média em alguma padaria e você já encontra um conhecido, a professora da quinta série, o ex-vizinho do Marapé e alguém que estudou com a prima do cunhado.
A cidade funciona quase como um grupo de WhatsApp presencial. E talvez seja exatamente por isso que tanta gente não consegue sair daqui.
Santos é um ovo. E o santista sabe disso.
Fotos: arte de Érico Bomfim/Arquivo / PMS
O curioso é que a frase nunca aparece como crítica pesada. Ela quase sempre vem acompanhada de um sorriso resignado. Um “pois é” ou “normal”. Porque, no fundo, existe certo conforto nessa pequena bolha litorânea onde os caminhos se cruzam o tempo inteiro.
Além disso, poucas cidades brasileiras misturam tão bem vida urbana, memória afetiva e proximidade física. Em menos de meia hora, alguém sai da Ponta da Praia, resolve algo no Centro e termina a noite no Embaré encontrando conhecidos em três lugares diferentes.
A cidade compacta que virou extensão da família
Santos ocupa pouco mais de 280 km². Só que a sensação prática é ainda menor.
A cidade cresceu comprimida entre morro, porto e praia. Portanto, os bairros ficaram próximos, os trajetos encurtaram e as relações sociais se repetiram durante décadas.
Isso ajuda a explicar um fenômeno típico santista: gerações inteiras que estudam nas mesmas escolas, frequentam os mesmos clubes e mantêm amizades atravessando décadas. O santista pode até mudar de bairro. Mas dificilmente muda completamente de círculo.
A cultura do bairro ainda resiste
Em muitas cidades grandes, o bairro virou apenas CEP. Em Santos, ainda existe uma identidade territorial forte.
Quem é da Aparecida fala da Aparecida como quem fala de uma pequena cidade própria. O mesmo vale para Macuco, Campo Grande, Boqueirão ou Gonzaga.
Cada região tem seus personagens, padarias clássicas, mercadinhos antigos e histórias repetidas há anos nos balcões.
Além disso, existe um fenômeno raro nas grandes cidades brasileiras: muita gente permanece perto da própria família por décadas. Avós, pais e filhos continuam vivendo relativamente próximos. Isso cria redes de apoio, memória coletiva e uma sensação difícil de reproduzir em capitais maiores.
Talvez seja por isso que tantos santistas reclamam da cidade enquanto passam anos sem conseguir ir embora de verdade.
O santista viaja… mas volta
Existe quase um ritual aqui. A pessoa diz que Santos está parada, reclama do trânsito da Ana Costa, crítica os preços dos apartamentos. Jura que quer viver em São Paulo ou fora do país.
Mas então sente falta da praia acessível, da caminhada na orla e da possibilidade de resolver metade da vida sem passar duas horas no trânsito.
Santos tem defeitos bastante reais. O custo de vida pesa. A desigualdade aparece em poucos quarteirões de distância. Além disso, o mercado de trabalho ainda empurra muitos jovens para fora.
Só que existe algo difícil de medir em planilha: praticidade emocional. A cidade oferece proximidade. E isso virou luxo urbano.
Todo mundo se conhece.
Claro que o “Santos é um ovo” também produz situações curiosas.
O encontro inesperado com o ex em fila de farmácia. O áudio vazando antes do almoço de domingo. A fofoca que atravessa bairros em velocidade recorde.
Contudo, existe um lado menos comentado nessa proximidade constante.
Em cidades muito grandes, muita gente desaparece socialmente. Em Santos, alguém percebe quando o bar da esquina fecha. Quando o comerciante some. Quando o vizinho envelhece.
Ainda existe certa vida comunitária circulando entre prédios, padarias e calçadas.
E talvez esse seja um dos motivos pelos quais tantas pessoas defendem a cidade com paixão quase irracional.
Por isso, até quem vive reclamando costuma sentir um choque quando percebe que certas coisas desapareceram. A cidade está mudando cada vez mais e o verdadeiro significado de Santos parecer um ovo pode não estar ligado apenas ao tamanho, e sim nas memórias que ficam perto umas das outras.
E se o futuro das cidades estiver justamente nisso?
Enquanto grandes metrópoles discutem mobilidade, solidão urbana e qualidade de vida, Santos já oferece parte dessa experiência há décadas.
Claro que isso não resolve todos os problemas. Nem deveria servir de desculpa para ignorar desafios urbanos importantes.
Mas talvez exista valor nesse jeito santista de ocupar a cidade.
Porque no fim das contas, morar em um lugar onde “todo mundo conhece alguém que conhece você” pode ser cansativo às vezes.
Por outro lado, também pode ser exatamente o que impede muita gente de se sentir sozinha.