Texto porSuzane G. Frutuoso

Por que não devemos nem romantizar nem desafiar a quarentena

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“Professora, minha mãe é a coisa mais importante da minha vida… Somos só eu, ela e meu pai. Mas sabe, professora, eu tenho muita fé…”

Por volta das 16h de ontem tive essa conversa com um aluno meu por WhatsApp.

A mãe dele está internada desde segunda-feira na UTI de um hospital da cidade de Barueri, na região metropolitana de São Paulo.

Com Covid-19.

Na quinta-feira passada, o quadro dela se agravou. Tentei dizer, por mais que pareça assustador, que na condição em que ela se encontra a UTI de um bom hospital é o melhor lugar em que ela poderia estar neste momento. Prometemos um ao outro fazer uma oração às 19 horas.

Chorei no final da tarde. Por este rapaz, que trabalha o dia inteiro, estuda a noite e quando atrasa ou não consegue chegar à aula vem me pedir desculpas pela ausência.

Chorei pela angústia de sua família.

Chorei porque a partir de agora a distância da realidade da doença vai diminuir para todos nós.

Vamos começar a saber de casos com pessoas ou familiares de pessoas próximas a nós. Também chegará às nossas famílias.

www.juicysantos.com.br - respeite a quarentena

A única saída para que isso não aconteça é o isolamento. Não é porque eu acho. Não é porque essa é a minha opinião e pronto. É o que indicam ciência e medicina pelos quatro cantos do planeta que estão sendo atingidos por um inimigo invisível.

Inclusive, o professor de física da USP José Fernando Diniz Chubaci compilou os dados do Ministério da Saúde e conseguiu comprovar que o distanciamento social já começou a achatar a curva da taxa de crescimento dos casos de coronavírus no Estado de São Paulo.

E se alguém andou dizendo que é uma gripezinha e voltemos às ruas, conclamo todos à desobediência civil. Fica em casa se você pode. Fica em casa porque assim você ajuda a proteger quem não pode deixar de sair todos os dias, apesar do medo e das incertezas.

Quarentena não é nem para romantizar e nem para desafiar

O isolamento já aumentou em 50% os casos de violência doméstica contra mulheres no Rio de Janeiro. O mesmo pode acontecer com crianças. Profissionais autônomos, freelancers, são os primeiros a verem suas rendas minguar sem trabalho. Pessoas que convivem com depressão e ansiedade podem ter seus quadros agravados. Na China aumentou o número de divórcios desde a crise do coronavírus.

Tudo isso, claro, precisa ser considerado. Então, quanto mais pessoas estiverem em casa, mais rápido acaba a quarentena.

Não deixe de pagar sua empregada doméstica mesmo que ela não esteja indo trabalhar. E não a obrigue a trabalhar.

Ligue para sua manicure ou qualquer outra pessoa que presta a você um serviço e adiante o pagamento de um pacote de atendimento.

Peça delivery para o comércio do seu bairro.

Ligue 180 e mete, sim, a colher se ouvir e/ou presenciar casos de violência doméstica.

Disque 100 contra qualquer violação de direitos humanos, incluindo agressões a crianças e adolescentes.

Refaça suas contas pessoais, veja o que pode ser cortado, em que economizar e como você pode ajudar financeiramente quem estiver por perto.

Se disponibilize a fazer as compras de idosos do seu bairro, rua, condomínio se você não é grupo de risco.

Não sobrecarregue alguém com as tarefas domésticas na sua casa, especialmente se é a mesma pessoa que ainda precisa sair todos os dias para trabalhar.

Não exija que todos os faxineiros e porteiros do seu prédio estejam na ativa, mas se certifique de que continuarão sendo pagos.

Sugira que uma parte dos moradores do prédio assuma uma parte da limpeza, ao menos a de seus andares.

Enfim, pare e pense: o que está ao meu alcance? Como posso ajudar?

Ninguém está negando que tragédias humanas já aconteciam pelo mundo antes do coronavírus chegar. Fome, miséria, violência e guerras assolaram a história da humanidade e assolam a sociedade atual. E há muita gente empenhada, que dá a vida todos os dias, para solucionar ou minimizar esses cenários.

(Vale o parênteses: o que você tem feito nesses casos? O que você fez até antes do Covid-19 aparecer pelo drama de muitos?)

A questão é que com um vírus de capacidade exponencial de contágio, essas tragédias se multiplicarão também de forma exponencial. Faixas das populações podem ser dizimadas se não houver controle agora.

Haverá recessão. Não só no Brasil, mas em todos os países. Vamos todos empobrecer em alguma medida. E quem está nas classes sociais mais privilegiadas tem que parar de reclamar e mostrar serviço. É nossa obrigação não deixar que saúde e renda de pessoas de classes menos favorecidas sejam afetadas. Como eu disse para meus alunos de marketing em uma conversa online ontem a noite, essa é a hora de ver como as marcas se posicionam. Quem fará de tudo para preservar seus funcionários, quem mudará estratégias e aceitará diminuir lucros para entrar na batalha por todos. E quem ainda não entendeu que doente não sai pra jantar em restaurante e que mortes, vejam só, diminui a clientela, se não for afetado agora o será pelos boicotes às marcas que crescem nas redes sociais.

Sem resolver antes a crise humanitária, ninguém resolve a crise econômica.

P.S.: dois dias depois de escrever este texto, a mãe do meu aluno faleceu…

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Suzane é santista e cofundadora da plataforma Mulheres Ágeis e da consultoria ComunicaMAG. É jornalista, mestre em sociologia, professora e escritora. É autora do livro “Tem Dia Que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo”. Mãe orgulhosa da vira-latinha Charlotte e da gatinha Jeannie é um Gênio.