Texto porSuzane G. Frutuoso

A pandemia nos arrancou um fim e agora estamos vivendo em luto

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Tá todo mundo meio triste… Reparou?

Conseguimos em meio ao caos uma risada aqui com a família, uma descontração ali com os amigos, um esquecer do real assistindo um filme ou mergulhando no trabalho.

Mas quando voltamos para a frieza do estar entre quatro paredes ou do ter que sair de casa apenas para o necessário temendo algo que não podemos ver, a amargura retorna imediata.

Arrisco que ninguém hoje consegue dizer algo como “estou na melhor fase da minha vida”, “me sinto feliz com o que estou vivendo”, “nossa, tô realizada”.

Semana passada, li um artigo na plataforma Medium que mostrava como essa sensação tem nome, apesar de parecer deslocada: luto.

É exatamente isso.

Uma mistura de sentimentos que variam entre medo, tristeza, por vezes falta de esperança, por vezes dúvida de não saber mais como vai ser.

Um vazio no peito. Tudo para compreender um fim.

O fim de um mundo que experimentamos até o começo de março de 2020 e que não existe mais.

Talvez até venha a nascer um mundo melhor, mais justo, menos egocêntrico.

Mas houve um fim, de repente, sem despedida.

Nos foi arrancado.

A sensação de luto também se faz presente porque já sabemos de pessoas próximas a nós que não resistiram ao coronavírus. E que foi tudo muito rápido. E que as famílias não puderam se despedir.

Até a tristeza da morte tem sua beleza

Uma vez, lá em 2013, escrevi um artigo que falava como até a tristeza da morte tem sua beleza quando não nos são negados todos os rituais de reverência e despedida a quem amamos. Um último beijo na testa, um último afago na mão, um olhos nos olhos cheio de lágrimas…

Mas a tempo de dizer muito obrigada por tudo. Acho que até isso vamos aprender a valorizar mais.

Nosso luto é reflexo de uma outra sensação que está no peito, mas não é fácil de explicar.

Quando ouvimos que sem o isolamento social o Brasil terá mais de 1 milhão de mortes e lembramos que a maior parte das pessoas está fazendo sua parte respeitando a quarentena, sentimos alívio, uma certa tranquilidade, pensamos “que bom”, “vai passar”.

Até que você avalia com mais atenção a informação de que com o isolamento social morrerão cerca de 44 mil pessoas. Você para pra pensar de novo e se dá conta que 44 mil pessoas morrendo rápido em tão pouco tempo é muita gente.

Nosso luto é uma antecipação de um trauma coletivo em um futuro muito próximo.

Quem é especialista em luto diz que é preciso ressignificar a perda. Ou seja, viver sim a tristeza, falando sobre ela por um tempo necessário, até que se dá sentido ao novo cotidiano descortinado com aquela falta de alguém. Então, não deixa de falar do medo e da tristeza, não.

Não se afunde nesses sentimentos!

A ciência já provou que a imunidade cai quando nos deixamos abater. E não é hora de deixar a imunidade balançar. Mas se permita vivê-los e dividi-los com pessoas em quem você confia.

Não é fraqueza. É, sim, fortaleza. Porque é preciso coragem para admitir nossas dores e, a partir delas, reconstruir nossos dias.

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Suzane é santista e cofundadora da plataforma Mulheres Ágeis e da consultoria ComunicaMAG. É jornalista, mestre em sociologia, professora e escritora. É autora do livro “Tem Dia Que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo”. Mãe orgulhosa da vira-latinha Charlotte e da gatinha Jeannie é um Gênio.