Ilha Diana: onde fica o último refúgio caiçara raiz de Santos
A 20 minutos do Centro, comunidade de pescadores resiste como último reduto da cultura caiçara em Santos
O santista tem orgulho de bater no peito e afirmar “eu sou caiçara”. Mas espera aí um pouquinho, você sabe o que é caiçara de verdade? O caiçara roots, afinal, significa o que? E a maior pergunta é: somos, de fato, caiçaras?
Bom, talvez o termo não seja tão compatível com a maioria dos santistas, mas tem uma pequena, misteriosa e carismática parte da cidade de Santos que pode, sim, bater no peito com orgulho, se autodeclarar caiçara e chamar todo o resto de caiçara nutella. Estamos falando da Ilha Diana.
Foto: Prefeitura de SantosE, no dia 15 de janeiro, este pedaço de terra que resiste ao tempo celebra mais um ano de história. Embora não haja uma data exata de fundação, a ocupação da ilha por pescadores começou por volta da década de 1940, tornando esta uma data especial para celebrar as raízes e a cultura caiçara que se mantêm vivas na comunidade.
O que significa ser caiçara de verdade
Do tupi, caiçara significa “morador da mata” e se refere aos habitantes das zonas litorâneas que surgiram a partir do século XVI, com a mistura de brancos e índios. Esses povos se estabeleceram nos costões rochosos, restingas, mangues e encostas da Mata Atlântica, mantendo uma relação íntima com a natureza.
Os caiçaras raiz são conhecidos por preservarem tradições que remontam ao período colonial. Suas atividades econômicas incluem a pesca artesanal, a agricultura e o artesanato. São hospitaleiros, vivem em comunidades formadas por famílias que historicamente habitavam casas de pau a pique e palha, e mantêm um vínculo profundo com os recursos naturais.
A Ilha Diana é, sem dúvida, o lugar em Santos onde essa definição ainda faz sentido no dia a dia.
O nascimento de um refúgio
A história da Ilha Diana começa com um desalojamento. Na década de 1940, quando a Aeronáutica do Brasil decidiu construir a Base Aérea de Santos (BAST), os moradores da Vila da Bocaina, em Vicente de Carvalho, precisaram deixar suas casas para dar lugar à pista de pouso.
Entre os despejados estava Dona Antônia Bitencourt de Souza (mais conhecida como Dona Diana) que junto com seu esposo se mudou para a ilha em torno de 1941. Ela seria a primeira moradora do território que hoje leva seu nome. Outras famílias despejadas seguiram para diferentes destinos: Monte Cabrão, Valongo e Ilha Barnabé. Mas foram as famílias Gomes, Hipólito, Quirino e Souza que formaram o núcleo original da Ilha Diana.
Localizada na foz do Rio Diana com o Canal de Bertioga, ao lado do Rio Jurubatuba, a pequena ilha se tornou lar de pescadores que trouxeram consigo não apenas suas canoas e redes, mas também suas tradições, sua fé e seu modo de vida caiçara.
A vida na ilha: a apenas 20 minutos do caos urbano
Enquanto Santos movimenta 60% da balança comercial do país através do maior complexo portuário da América Latina, a Ilha Diana parece existir em outra dimensão temporal. A apenas 20 minutos de barco do Centro Histórico, o lugar é um oásis praticamente isolado do mundo urbano.
Atualmente, segundo o último censo do IBGE (2022), 177 pessoas vivem distribuídas em 63 domicílios na ilha. É uma comunidade onde todos se conhecem por apelidos, onde os mesmos sobrenomes se repetem de geração em geração, e onde a pesca artesanal ainda é a principal atividade econômica.
A ilha possui infraestrutura básica, como escola e posto de saúde, mas a vida ali segue ritmos bem diferentes do resto de Santos. Não há carros, não há pressa. O único meio de acesso é por barcas que partem do cais atrás da Alfândega, no Centro Histórico, por apenas R$ 0,50 (ida e volta), com parada na Base Aérea.
“A Ilha Diana é um dos últimos espaços remanescentes da cultura caiçara em nossa região”, afirma José Dionísio de Almeida, historiador da Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams). “Ela começa a ser ocupada na primeira metade do século 20 por pescadores vindos de vários locais da região como Litoral Sul, Praia do Goés e da Ponta da Praia, que até a década de 1960, era um bairro de pescadores.”
Conquistas que parecem básicas
A cronologia das conquistas da Ilha Diana revela o quanto a comunidade precisou lutar por direitos básicos. Durante décadas, os moradores viveram sem água encanada, sem energia elétrica e com estruturas precárias.
- Em 1980, o primeiro prefeito santista visitou a região: Paulo Gomes Barbosa. Na época, as reivindicações eram bem básicas: água, luz e um novo galpão para aulas e missas.
- Em 7 de janeiro de 1981, depois de cerca de 40 anos desde a chegada das primeiras famílias, foi inaugurada a água encanada. Para comemorar, os moradores instalaram um chuveiro e, um a um, foram tomar banho.
- Em 16 de julho de 1983, foi inaugurado o primeiro prédio de alvenaria da ilha, que abriga a escola e o centro comunitário. Era também a primeira construção com estrutura para receber energia elétrica.
- Às 19h15 do dia 8 de setembro de 1983, a iluminação finalmente chegou à ilha. Só que a energia era de baixíssima qualidade, fornecida inicialmente pela Codesp (que tinha um acordo com a Eletropaulo, então responsável pelo fornecimento de luz em Santos).
- Foi em 2010 que a energia elétrica passou a ser fornecida pela CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), com assistência do terminal da Embraport, trazendo mais um direito básico para a comunidade.
- Nos últimos anos, a Ilha Diana teve sua iluminação pública modernizada com a instalação de 30 pontos de luz e, em 2026, tornou-se o 15º bairro de Santos a ter 100% de sua iluminação em LED.
Foto: Prefeitura de SantosEm agosto de 1986, a primeira capela foi inaugurada. A construção contou com a ajuda inusitada de dois noivos que queriam casar no religioso depois de assinar os papéis no cartório. No dia do casamento, aconteceram duas cerimônias e até batizados, tudo junto, como é típico da simplicidade e união da comunidade.
Vale destacar que, para construir na ilha, era necessário ter aprovação da Capitania dos Portos (donos do território), que exigia carteira de pescador. Por isso, a população é composta praticamente só de pescadores e seu crescimento é pequeno, uma vez que novos moradores geralmente só chegam quando nascem bebês.
Tradição e turismo de base comunitária
Apesar das dificuldades históricas, a comunidade da Ilha Diana encontrou formas de preservar suas tradições e gerar renda. O turismo de base comunitária, com educação ambiental e gastronomia, tornou-se uma alternativa importante.
A Festa do Bom Jesus, realizada em agosto, já virou tradição pela fé e por um dos pratos de destaque no local: a tainha. Aos finais de semana, visitantes podem aproveitar passeios pelo canal do estuário e frequentar bares e restaurantes oferecidos pelos próprios moradores.
Os ilhéus mantêm a fama caiçara de hospitalidade. Não é raro oferecerem um prato de comida aos visitantes ou até uma cama para dormir, caso o último barco já tenha partido.
Entre o progresso e a preservação
A Ilha Diana vive um paradoxo interessante. Vizinha ao maior complexo portuário da América Latina, consegue preservar seu estilo de vida totalmente ligado à natureza.
Mas essa proximidade também traz desafios. A expansão do turismo, a especulação imobiliária e a degradação ambiental são ameaças constantes à preservação do modo de vida caiçara, não apenas na Ilha Diana, mas em toda a costa brasileira.
Por isso, iniciativas como a Semana da Cultura Caiçara, que faz parte do calendário oficial da cidade de Santos e é celebrada em maio, são tão importantes. Preservar as memórias e tradições dos caiçaras é responsabilidade de todos, do poder público, da sociedade e de cada santista que se orgulha de dizer “eu sou caiçara”.
O segredo mais bem guardado de Santos
Poucos santistas sabem que a Ilha Diana existe e que pertence ao município. Localizada na Área Continental de Santos, ela permanece como um dos segredos mais bem guardados da cidade, um refúgio onde o tempo parece correr mais devagar, onde as pessoas ainda se cumprimentam pelo apelido, onde a fé e a pesca artesanal organizam a rotina.
“Será que o mundo moderno, agitado e desenvolvido tomará conta do lugar?”, questionava uma matéria de 2011 do Juicy Santos. A resposta, décadas depois, é que a Ilha Diana resiste. E seu povo continua sendo seu melhor cartão postal: caiçaras simples, que tratam a todos com hospitalidade, respeito e admiração.
A Ilha Diana nos lembra que ser caiçara de verdade é mais do que morar no litoral. É preservar tradições, é manter viva uma relação respeitosa com a natureza, é construir comunidade. É, acima de tudo, resistir.
Então, da próxima vez que você bater no peito e dizer “eu sou caiçara”, lembre-se: existe um lugar a 20 minutos daqui onde essa afirmação é vivida todos os dias, de verdade.
Como chegar: Barcas partem do cais atrás da Alfândega de Santos, no Centro Histórico. Passagem: R$ 0,50 (ida e volta). Travessia: cerca de 20 minutos, com parada na Base Aérea.