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Ilha Diana: onde fica o último refúgio caiçara raiz de Santos

A 20 minutos do Centro, comunidade de pescadores resiste como último reduto da cultura caiçara em Santos

Tempo de leitura: 9 minutos

O santista tem orgulho de bater no peito e afirmar “eu sou caiçara”. Mas espera aí um pouquinho, você sabe o que é caiçara de verdade? O caiçara roots, afinal, significa o que? E a maior pergunta é: somos, de fato, caiçaras?

Bom, talvez o termo não seja tão compatível com a maioria dos santistas, mas tem uma pequena, misteriosa e carismática parte da cidade de Santos que pode, sim, bater no peito com orgulho, se autodeclarar caiçara e chamar todo o resto de caiçara nutella. Estamos falando da Ilha Diana.

www.juicysantos.com.br - Aniversário da Ilha Diana o último refúgio caiçara raizFoto: Prefeitura de Santos

E, no dia 15 de janeiro, este pedaço de terra que resiste ao tempo celebra mais um ano de história. Embora não haja uma data exata de fundação, a ocupação da ilha por pescadores começou por volta da década de 1940, tornando esta uma data especial para celebrar as raízes e a cultura caiçara que se mantêm vivas na comunidade.

O que significa ser caiçara de verdade

Do tupi, caiçara significa “morador da mata” e se refere aos habitantes das zonas litorâneas que surgiram a partir do século XVI, com a mistura de brancos e índios. Esses povos se estabeleceram nos costões rochosos, restingas, mangues e encostas da Mata Atlântica, mantendo uma relação íntima com a natureza.

Os caiçaras raiz são conhecidos por preservarem tradições que remontam ao período colonial. Suas atividades econômicas incluem a pesca artesanal, a agricultura e o artesanato. São hospitaleiros, vivem em comunidades formadas por famílias que historicamente habitavam casas de pau a pique e palha, e mantêm um vínculo profundo com os recursos naturais.

A Ilha Diana é, sem dúvida, o lugar em Santos onde essa definição ainda faz sentido no dia a dia.

O nascimento de um refúgio

A história da Ilha Diana começa com um desalojamento. Na década de 1940, quando a Aeronáutica do Brasil decidiu construir a Base Aérea de Santos (BAST), os moradores da Vila da Bocaina, em Vicente de Carvalho, precisaram deixar suas casas para dar lugar à pista de pouso.

Entre os despejados estava Dona Antônia Bitencourt de Souza (mais conhecida como Dona Diana) que junto com seu esposo se mudou para a ilha em torno de 1941. Ela seria a primeira moradora do território que hoje leva seu nome. Outras famílias despejadas seguiram para diferentes destinos: Monte Cabrão, Valongo e Ilha Barnabé. Mas foram as famílias Gomes, Hipólito, Quirino e Souza que formaram o núcleo original da Ilha Diana.

Localizada na foz do Rio Diana com o Canal de Bertioga, ao lado do Rio Jurubatuba, a pequena ilha se tornou lar de pescadores que trouxeram consigo não apenas suas canoas e redes, mas também suas tradições, sua fé e seu modo de vida caiçara.

A vida na ilha: a apenas 20 minutos do caos urbano

Enquanto Santos movimenta 60% da balança comercial do país através do maior complexo portuário da América Latina, a Ilha Diana parece existir em outra dimensão temporal. A apenas 20 minutos de barco do Centro Histórico, o lugar é um oásis praticamente isolado do mundo urbano.

Atualmente, segundo o último censo do IBGE (2022), 177 pessoas vivem distribuídas em 63 domicílios na ilha. É uma comunidade onde todos se conhecem por apelidos, onde os mesmos sobrenomes se repetem de geração em geração, e onde a pesca artesanal ainda é a principal atividade econômica.

A ilha possui infraestrutura básica, como escola e posto de saúde, mas a vida ali segue ritmos bem diferentes do resto de Santos. Não há carros, não há pressa. O único meio de acesso é por barcas que partem do cais atrás da Alfândega, no Centro Histórico, por apenas R$ 0,50 (ida e volta), com parada na Base Aérea.

“A Ilha Diana é um dos últimos espaços remanescentes da cultura caiçara em nossa região”, afirma José Dionísio de Almeida, historiador da Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams). “Ela começa a ser ocupada na primeira metade do século 20 por pescadores vindos de vários locais da região como Litoral Sul, Praia do Goés e da Ponta da Praia, que até a década de 1960, era um bairro de pescadores.”

Conquistas que parecem básicas

A cronologia das conquistas da Ilha Diana revela o quanto a comunidade precisou lutar por direitos básicos. Durante décadas, os moradores viveram sem água encanada, sem energia elétrica e com estruturas precárias.

  • Em 1980, o primeiro prefeito santista visitou a região: Paulo Gomes Barbosa. Na época, as reivindicações eram bem básicas: água, luz e um novo galpão para aulas e missas.
  • Em 7 de janeiro de 1981, depois de cerca de 40 anos desde a chegada das primeiras famílias, foi inaugurada a água encanada. Para comemorar, os moradores instalaram um chuveiro e, um a um, foram tomar banho.
  • Em 16 de julho de 1983, foi inaugurado o primeiro prédio de alvenaria da ilha, que abriga a escola e o centro comunitário. Era também a primeira construção com estrutura para receber energia elétrica.
  • Às 19h15 do dia 8 de setembro de 1983, a iluminação finalmente chegou à ilha. Só que a energia era de baixíssima qualidade, fornecida inicialmente pela Codesp (que tinha um acordo com a Eletropaulo, então responsável pelo fornecimento de luz em Santos).
  • Foi em 2010 que a energia elétrica passou a ser fornecida pela CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), com assistência do terminal da Embraport, trazendo mais um direito básico para a comunidade.
  • Nos últimos anos, a Ilha Diana teve sua iluminação pública modernizada com a instalação de 30 pontos de luz e, em 2026, tornou-se o 15º bairro de Santos a ter 100% de sua iluminação em LED.
www.juicysantos.com.br - capelaFoto: Prefeitura de Santos

Em agosto de 1986, a primeira capela foi inaugurada. A construção contou com a ajuda inusitada de dois noivos que queriam casar no religioso depois de assinar os papéis no cartório. No dia do casamento, aconteceram duas cerimônias e até batizados, tudo junto, como é típico da simplicidade e união da comunidade.

Vale destacar que, para construir na ilha, era necessário ter aprovação da Capitania dos Portos (donos do território), que exigia carteira de pescador. Por isso, a população é composta praticamente só de pescadores e seu crescimento é pequeno, uma vez que novos moradores geralmente só chegam quando nascem bebês.

Tradição e turismo de base comunitária

Apesar das dificuldades históricas, a comunidade da Ilha Diana encontrou formas de preservar suas tradições e gerar renda. O turismo de base comunitária, com educação ambiental e gastronomia, tornou-se uma alternativa importante.

A Festa do Bom Jesus, realizada em agosto, já virou tradição pela fé e por um dos pratos de destaque no local: a tainha. Aos finais de semana, visitantes podem aproveitar passeios pelo canal do estuário e frequentar bares e restaurantes oferecidos pelos próprios moradores.

Os ilhéus mantêm a fama caiçara de hospitalidade. Não é raro oferecerem um prato de comida aos visitantes ou até uma cama para dormir, caso o último barco já tenha partido.

Entre o progresso e a preservação

A Ilha Diana vive um paradoxo interessante. Vizinha ao maior complexo portuário da América Latina, consegue preservar seu estilo de vida totalmente ligado à natureza.

Mas essa proximidade também traz desafios. A expansão do turismo, a especulação imobiliária e a degradação ambiental são ameaças constantes à preservação do modo de vida caiçara, não apenas na Ilha Diana, mas em toda a costa brasileira.

Por isso, iniciativas como a Semana da Cultura Caiçara, que faz parte do calendário oficial da cidade de Santos e é celebrada em maio, são tão importantes. Preservar as memórias e tradições dos caiçaras é responsabilidade de todos, do poder público, da sociedade e de cada santista que se orgulha de dizer “eu sou caiçara”.

O segredo mais bem guardado de Santos

Poucos santistas sabem que a Ilha Diana existe e que pertence ao município. Localizada na Área Continental de Santos, ela permanece como um dos segredos mais bem guardados da cidade, um refúgio onde o tempo parece correr mais devagar, onde as pessoas ainda se cumprimentam pelo apelido, onde a fé e a pesca artesanal organizam a rotina.

“Será que o mundo moderno, agitado e desenvolvido tomará conta do lugar?”, questionava uma matéria de 2011 do Juicy Santos. A resposta, décadas depois, é que a Ilha Diana resiste. E seu povo continua sendo seu melhor cartão postal: caiçaras simples, que tratam a todos com hospitalidade, respeito e admiração.

A Ilha Diana nos lembra que ser caiçara de verdade é mais do que morar no litoral. É preservar tradições, é manter viva uma relação respeitosa com a natureza, é construir comunidade. É, acima de tudo, resistir.

Então, da próxima vez que você bater no peito e dizer “eu sou caiçara”, lembre-se: existe um lugar a 20 minutos daqui onde essa afirmação é vivida todos os dias, de verdade.

Como chegar: Barcas partem do cais atrás da Alfândega de Santos, no Centro Histórico. Passagem: R$ 0,50 (ida e volta). Travessia: cerca de 20 minutos, com parada na Base Aérea.

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