10 ícones da arquitetura moderna em Santos
A história de Santos também se conta olhando pra cima
Santos também se lê pelas fachadas, tijolos e portões. Entre o mar e os morros, a cidade guarda, em concreto, pastilhas e varandas curvas, capítulos inteiros da história da arquitetura brasileira. Muitos desses capítulos você atravessa todos os dias, seja indo trabalhar, pegando ônibus na rodoviária, comprando peixe no mercado. E isso sem perceber que está passando por obras que dialogam com ícones de São Paulo, do Rio e até de Brasília.

O Juicy Santos te convida a diminuir o ritmo das passadas, erguer o olhar e reconhecer 10 ícones da arquitetura moderna que ajudam a contar quem somos como cidade: uma Santos portuária e de praia, popular e sofisticada, feita por arquitetos consagrados e também por gente que foi construindo, ocupando e reinventando os bairros ao longo das décadas.
Ao descobrir esses prédios, a gente não apenas aprende sobre estilos e movimentos estéticos. É uma oportunidade de reconexão com o território que enxerga o futuro ao mesmo tempo que olha para suas memórias.
Essas obras dialogam com o que havia de mais avançado na arquitetura do país entre as décadas de 1940 e 1970, quando a cidade recebeu nomes como Vilanova Artigas, Hélio Duarte, Zenon Lotufo e Artacho Jurado.
O rastro da arquitetura moderna no Brasil
A arquitetura modernista (ou moderna) surge nas primeiras décadas do século XX com a proposta de romper com a imitação de estilos históricos e criar uma linguagem verdadeiramente nova e coerente com seu tempo. Em vez de fachadas cheias de ornamentos e referências ao passado, os modernistas defendem que a forma do edifício deve nascer diretamente de sua função e das técnicas construtivas industriais, como o concreto armado, resultando em volumes mais limpos, plantas flexíveis e uma relação diferente entre interior e exterior.
Nessa lógica, paredes lisas, cores sóbrias, janelas em fita, pilotis, marquises e grandes vãos livres passam a compor a estética, em sintonia com ideias de progresso, racionalidade e vida urbana contemporânea.
Dentro do guarda‑chuva modernista, há várias correntes: o racionalismo, mais rigoroso e minimalista, que abandona radicalmente o ornamento; o modernismo orgânico, que se afasta das linhas rígidas e explora curvas, formas inspiradas na natureza e uma certa “poesia” espacial; e o brutalismo, que radicaliza a sinceridade construtiva deixando o concreto aparente, sem revestimentos.
No Brasil, especialmente a partir dos anos 1930, essas vertentes ganham força em edifícios públicos, residenciais e conjuntos habitacionais, dialogando com a industrialização, a expansão das cidades e o desejo de construir um país moderno. E é aí que Santos se destaca com mercados, arranha‑céus de praia, escolas e conjuntos residenciais que traduzem, à sua maneira, essas linguagens.
A ideia desta lista é simples: te ajudar a reconhecer esses 10 marcos e entender suas características modernas.
Na próxima vez que você passar por um deles, vai ser difícil não olhar para cima e se orgulhar da cidade.

1. Mercado do Marapé
Ano: 1954
Autor: Clóvis Graciano
Onde: Av. Senador Pinheiro Machado, 618 – Marapé
O mural criado por Clóvis Graciano transforma um mercado de bairro em galeria pública de arte modernista, aproximando linguagem abstrata e geometrizada do dia a dia de quem compra peixe, frutas e temperos por ali.
Ao colocar um painel desse porte em um espaço popular, o Marapé reforça a ideia de que cultura e beleza não são privilégio do Centro histórico ou da orla, mas parte do cotidiano de trabalhadores, famílias e comerciantes de diferentes origens que fazem a economia girar na Zona Noroeste e adjacências.

2. Mercado Municipal
Ano: 1954 (obra finalizada)
Arquiteto: José Maria da Silva Neves
Onde: Centro
Estamos falando da segunda versão do Mercado Municipal.
Inaugurado em 1902 em estilo acastelado, o Mercado Municipal ganhou o estilo protomoderno pelas mãos do mais importante arquiteto paulista do estilo da década de 1930. Como dependia do empenho – e dos recursos – do poder público municipal, as obras começaram em 1939, foram parcialmente concluídas em 1948 (com a adição do segundo andar) e a conclusão só veio 6 anos mais tarde.
Após a reforma finalizada em 2026, sua fachada foi mantida e a parte interna, alterada para novas funções e estrutura mais atual, com climatização.

3. Rodoviária de Santos
Ano: 1969
Arquiteto: Luigi Villavechia
Onde: Praça dos Andradas, 45 – Centro
Mais do que um ponto de embarque e desembarque, a rodoviária é uma porta de entrada brutalista para Santos, com grandes panos de concreto aparente, vãos generosos e uma estética que conversa com outras obras do mesmo arquiteto, como a sede da Prodesan. Pensada para dar conta do fluxo intenso de ônibus em uma cidade portuária e turística, ela democratiza acessos: é por ali que chegam trabalhadores de toda a Baixada, turistas de fim de semana e gente que vem estudar, trabalhar ou empreender na região, reforçando Santos como polo de oportunidades.

4. Edifício Verde Mar
Ano: 1955
Arquiteto: Artacho Jurado
Onde: Av. Vicente de Carvalho, 6 – Gonzaga
Assinado por Artacho Jurado, o Verde Mar é um ícone do modernismo orgânico: curvas, varandas sinuosas, volumes recortados e uso criativo das cores rompem com a rigidez do racionalismo e aproximam a arquitetura de um certo clima de lazer e veraneio. Construído em plena expansão do turismo de praia nos anos 1950, o prédio traduz a vocação da orla santista para acolher gente de vários lugares – de famílias da Baixada a visitantes do interior – e antecipa um estilo de morar com áreas comuns, jardins e espaços de convivência que hoje são quase padrão nos empreendimentos de alto padrão da cidade.

5. Casa Heitor de Almeida
Ano: 1949
Arquiteto: Vilanova Artigas
Onde: Rua Vergueiro Steidel, 57 – Embaré
Projetada por João Batista Vilanova Artigas, a Casa Heitor de Almeida é um raro exemplo de residência unifamiliar modernista assinada por um dos grandes nomes da arquitetura brasileira em Santos.
Organizada em dois volumes assimétricos articulados por um jardim, ela traduz o princípio modernista de integrar interior e exterior, criar espaços mais fluidos e adequar a planta ao modo de vida da família.
Tombado pelo Condepasa, hoje abriga uma escola infantil.

6. Fonte Vicente de Carvalho no Boqueirão
Ano: 1957
Arquiteto: Eduardo Costa Macedo
Onde: Orla de Santos, altura da Av. Conselheiro Nébias
A marquise da Fonte Vicente de Carvalho é um manifesto ao lema “menos é mais”: plano horizontal leve, vãos livres e integração direta com o jardim da orla, sem ornamentos desnecessários.
Esse gesto simples cria um espaço democrático de sombra, encontro e descanso para quem caminha, pedala, trabalha nas barracas ou simplesmente observa o mar – um bom exemplo de como a arquitetura moderna pode melhorar a vida cotidiana de diferentes corpos e idades com soluções acessíveis.

7. Edifício Enseada
Ano: 1955
Arquiteto: Artacho Jurado
Onde: Av. Bartolomeu de Gusmão, 180 – Ponta da Praia
Parceiro do Verde Mar na orla santista, o Enseada leva a linguagem exuberante de Artacho Jurado para a Ponta da Praia, com fachadas marcadas por curvas, panos coloridos e varandas que parecem desenhadas para enquadrar o horizonte. Em uma área que hoje reúne muitos e muitos prédios residenciais e um movimento constante do turismo, o edifício foi essencial para construir uma identidade visual santista da gema: nem cópia de São Paulo, nem caricatura de balneário, mas uma arquitetura de praia com sotaque próprio.
Foto: Refúgios Urbanos
8. Conjunto Indaiá
Ano: 1956
Arquitetos: Hélio Duarte e Ernest Mange
Onde: Av. Vicente de Carvalho, 30 – Boqueirão
O Conjunto Indaiá trouxe a Santos a experiência de arquitetos que participaram intensamente da renovação da arquitetura paulista, com blocos residenciais bem implantados, preocupação com insolação e ventilação e áreas coletivas que estimulam o uso compartilhado do espaço.
Em um Boqueirão que começava a se adensar, o projeto apontava para uma cidade mais inclusiva com vista para o mar (embora a área seja bastante elitizada desde sempre).
Os blocos “A” (9 pavimentos) e “B” (15 pavimentos) se ligam por meio de galerias e ficam sobre um espaço comum com garagens e lazer. Na época de sua construção, era inovador ao oferecer aos moradores serviços e comodidades de um hotel. Até pista de dança o Indaiá tinha!
O terceiro bloco veio em 1953, com quitinetes bem diferentes do projeto original.
Curiosidade: entre os blocos, as curvas da Moby chamam a atenção de quem passa por ali. Hoje, abriga uma casa noturna, mas esse local já foi salão de exposição, confeitaria e o famoso restaurante Baleia, por conta do seu formato.

9. Ed. Independência e galerias do Gonzaga
Ano: não precisado
Arquitetos: Eduardo Corrêa da Costa Júnior e outros
Onde: Av. Ana Costa, 523 – Gonzaga
No coração do Gonzaga, este conjunto mistura comércio, serviços e circulação interna em galerias, antecipando o modelo de “shopping de rua” que marcou a urbanidade santista antes da chegada dos grandes centros comerciais fechados. A solução modernista de térreos mais permeáveis, passagens internas e fachadas contínuas transforma um quarteirão inteiro em percurso público, conectando gente que vem de ônibus, a pé ou de carro e reforçando o bairro como polo de consumo, encontros e trabalho para moradores de toda a região metropolitana.
Foto: Refúgios Urbanos
10. Edifício Itamaraty
Ano: 1957
Arquiteto: Zenon Lotufo
Onde: Av. Mal. Deodoro, 32 – Gonzaga
Assinado por Zenon Lotufo, o Itamaraty representa o modernismo racionalista na escala do edifício residencial alto: planos verticais limpos, estrutura que permite vãos mais amplos e fachadas em que o desenho das janelas e brises compõe a estética. Em plena Av. Marechal Deodoro, ele simboliza uma Santos ousada, colorida, com moradias verticalizadas para diferentes perfis de moradores, mantendo a proximidade com comércio de rua, cinema, serviços e a praia.
Depois de percorrer estes dez endereços, fica mais fácil entender que a arquitetura moderna em Santos não é só pra quem é da área. Ela faz parte da paisagem afetiva de quem nasce, mora, trabalha, estuda ou sonha a vida aqui.
Cada marquise, painel, conjunto habitacional ou arranha‑céu da orla traduz um momento em que a cidade ousou experimentar novos modos de morar e circular. Além disso, revela como o povo passou a encontrar gente e ocupar o espaço público.
Da próxima vez que você estiver na fila do ônibus, caminhando pelo Gonzaga ou passando pelo Marapé, olhe para esses prédios como se fosse a primeira vez. Talvez ali você enxergue não só concreto e vidro. Em outras palavras, verá uma Santos plural, criativa e próspera, construída por muitas e muitas mãos e mentes.