Ludmilla Rossi
Texto porLudmilla Rossi
38 anos - Santos

Quem foi além do óbvio no dia das mães da pandemia

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Ao escrever o texto sobre os os restaurantes em Santos e o colapso no dia das mães da pandemia, recebi feedbacks interessantes. Um feedback através de comentário que mais gostei foi esse, da Amanda Marx:

“O único sobre o assunto que trouxe uma visão de esperança, e não de tristeza”.

Tive a intenção, por meio da escrita, de chamar a atenção para a desigualdade que praticamos como consumidores – na maioria das vezes, de forma não intencional. Tomamos decisões por conta de nossas memórias e de uma soma de sinapses.

Alguns acham que isso é fruto de um marketing bem feito. Mas, na real, vivemos um momento em que a nossa jornada de consumo é cada vez mais caótica. É rede social de amigo, é influenciador, é publicidade, é a pesquisa que a gente faz. Tudo isso forma nosso repertório como consumidor e o mais incrível é que não deixamos de nos comportar assim em plena pandemia.

Enquanto isso, os empreendedores tentam decodificar a jornada de consumo, especialmente do consumo local, tentando encontrar as “balas de prata”. A da vez, ou pelo menos até antes da pandemia, eram os influenciadores digitais com “muitos seguidores”.

A verdade é que, nesse momento que vivemos desde março de 2020, passamos a entender outras coisas e olhar quem está por trás das marcas. Nas palavras que vêm a seguir, tento reforçar a visão de esperança do feedback que recebi. E a esperança, para mim, sempre tem origem em tudo o que vai além do óbvio.

O dia das mães sem pandemia (na cozinha)

O chef Mario Amorim começou no restaurante Estrela de Ouro em 2002, lavando pratos. Depois de uma longa jornada, participou do reality show Hell’s Kitchen Brasil em 2015. Rodou o Brasil e vários países. Retornou ao Estrela depois de estudar muito e entendeu que o restaurante precisava passar por transformações. A primeira foi uma renovação da equipe ao olhar para a “molecada”.

“Tem que investir nesses meninos” – pensou.

Começou a capacitar Edvan, que era estoquista, e liderar pelo exemplo. Assim, formou a equipe do seu jeito e com aquele sotaque alagoano gostoso de se ouvir.

Equipe do restaurante Estrela de Ouro com o Chef Mario Amorim

Na imagem enviada pelo chef Mario (agachado), está seu time composto por Regis, Jonathan, Josivan, Edvan, Andrey , Rodrigo, Hatsumi, Daise, Suzana e Sueli.

Com essa visão humana e uma equipe formada, Mario tinha um território fértil para fazer o que viesse adiante dar certo.

Um mês antes da pandemia, Mario tinha feito o Empretec do Sebrae e ouviu de um professor: “se isso explodir pelo mundo, vocês precisam estar preparados”, falando sobre o novo coronavírus.

O chef conta que começou a pensar nisso e em como aplicar os conhecimentos do curso. A pandemia foi a oportunidade emergente para isso.

“Eu acho injusto, como chef de cozinha, visto que nós temos um nome, colocar nossa operação no iFood. Eles ficam com 27% do que a gente ganha. É muita coisa”.

Até então, o restaurante do Clube Estrela de Ouro não tinha delivery e ele conta que todo o time teve que aprender tudo em 1 mês. A estratégia de Mario foi muito inteligente. Mas, para isso acontecer, ele precisou contar com uma equipe versátil e com um potencial múltiplo. Reuniu o time e para não dispensar ninguém fez a seguinte pergunta: “Quem de vocês topa ser motoboy?”.

“Eu quero, chefe”

Com essa resposta, Mario tirou do time três cozinheiros e três sushimen, formando uma equipe de seis entregadores. Pegou os 27% que daria para o iFood e investiu no time. Não dispensaram ninguém por conta dessa movimentação estratégica para levantar o delivery. Começaram a publicar os conteúdos em redes sociais e aprenderam o que precisavam nesse meio tempo. Ele conta que foi importante errar na Páscoa para acertar no Dia das Mães.

Ajustar o cardápio, cuidar rigorosamente do mise en place, optar por um cardápio 50% de forno e contratar mais dois motoboys foram decisões assertivas e que impactaram positivamente o dia das mães da pandemia, enquanto os outros restaurantes tradicionais de Santos “nadaram na cozinha”, como dizem por aí. Das centenas de pedidos, eles tiveram apenas quatro reclamações, nenhuma por atraso ou por sabor.

Oito motoboys, separar a entrega da sobremesa e dos pratos, além da equipe que chegou para trabalhar às três da manhã foram outros fatores essenciais.

“Vou sair da pandemia de cabeça erguida e mais forte. Não mandamos nenhum funcionário da cozinha embora e alguns vão ter dinheiro para comprar uma moto nova”, diz o chef do Estrela de Ouro. 

Dizer não abre espaço para muitas coisas novas e boas

A chef de cozinha Maísa Campos, fundadora da Casa 147, também adotou uma estratégia diferente no dia das mães da pandemia. Diferentemente de outros restaurantes que esperavam o dia das mães com ansiedade, Maísa fechou para o almoço do tão esperado segundo domingo de maio. O empreendimento dela, que funciona sem salão no modelo delivery, takeway ou mesmo em cursos (agora paralisados por conta da quarentena), está experimentando novos serviços e modelos de negócio.

Antes do dia das mães, Maísa já tinha ido além do óbvio.

Fechou a Casa 147 por 30 dias para tirar um tempo para si e oferecer um pouco de paz mental para os colaboradores, justamente naquelas primeiras semanas mais caóticas da quarentena. Depois desse prazo e devido à necessidade financeira, reabriu a casa, mas não como antes. Graças a vários parceiros, Maísa criou a Casa 147 Solidária e passou a cozinhar para pessoas em condições vulneráveis às quartas-feiras.

No dia das mães, trabalhou por dois dias de porta fechada. No domingo, colocou sete carros na rua para fazer as entregas de cestas de café da manhã. Terminou as entregas cedinho, contando que preferiu se resguardar da pressão que viria nesse dia.

O efeito disso, além da priorização da saúde mental própria e do seu time, traz um efeito colateral lindo: os colaboradores puderam passar o domingo de dia das mães em casa, alguns com a sua presencialmente. Outros em contato com as suas mães.

Maísa Campos e seu time no dia das mães 2020

Pensar diferente em relação à mão de obra é um dos pontos importantes desse texto.

O que fez Maísa e Mario não entrarem em colapso – e principalmente – não frustrarem seus clientes.

Os apps são o novo normal, mesmo?

Além do chef Mario Amorim do Restaurante Estrela, alguns donos de restaurante preferem abrir mão da plataforma.  Um deles, que prefere não ter seu nome divulgado, comentou que no começo da pandemia, entrou em contato com o gestor da plataforma Box Delivery para falar das máscaras e álcool gel para os entregadores. Depois de quatro tentativas, o gestor respondeu que “os rapazes eram autônomos e que deveriam se responsabilizar por si mesmos”.

Com essa resposta, mudou a estratégia e contratou motoboys diretamente para trabalharem duas horas por dia. Esses profissionais acabaram recebendo por essas duas horas a mesma coisa que receberiam por seis ou sete horas trabalhando para o iFood. Essa história acima não é uma visão de negócios poliana. Ela é sobre fazer escolhas.

Eu uso os aplicativos pela conveniência, com ressalvas sobre a precarização do trabalho residual da economia dos bicos (a chamada “gig economy”). Mas, quando conheço histórias de restaurantes que tem seu próprio time de entrega, juro que eu consigo entender o que está por trás dessas decisões. Quando os consumidores ganham esse tipo de consciência, é mais justificável para que os empreendedores tomem suas decisões além do bolso.

Do outro lado, o iFood liberou recursos para restaurantes, como iniciativa de suporte aos pequenos empreendedores, criando um fundo de apoio iFood que beneficia mais de 132 mil estabelecimentos. Desse total, aproximadamente 100 mil pequenos restaurantes receberão 20% de redução nas taxas do iFood. E o iFood ainda conta que mais de 90% estarão aptos a receber esses benefícios. Nesse site, a empresa publicou todas suas iniciativas de impacto positivo.

Essa não é uma pauta para resolvermos durante uma pandemia com recheio de impeachment.

Mas é mais uma das questões que ficarão para o que temos chamado de novo normal, assim como a inteligência civil, as novas relações de trabalho, as decisões de consumo, entre tantas outras.

Nosso imenso respeito a Mario AmorimMaísa Campos, por desafiarem o óbvio.

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