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Santos vai se despedir de vez dos orelhões e quase ninguém percebeu

Com uso quase zerado e sem obrigação legal, os orelhões vão desaparecer de Santos, mas deixam para trás uma história que ajudou a conectar gerações.

Tempo de leitura: 5 minutos

Eles estão aí, na calçada, quebrados, pichados, empoeirados. Ocupando espaço, enferrujando devagar. Os 357 orelhões de Santos que ainda resistem estão com os dias contados e a maioria dos santistas nem vai sentir falta. Mas, antes de ir embora de vez, eles merecem ao menos uma despedida com história.

www.juicysantps.com.br - O fim dos orelhões em Santos

Porque a história, essa é boa.

Ninguém mais usa e os números comprovam

A Vivo confirmou que a retirada total dos orelhões começa ao longo de 2026, mas o cronograma ainda não foi divulgado. O motivo da saída dispensa muito debate: entre abril de 2024 e abril de 2025, a média de uso no estado de São Paulo foi de apenas 0,6 crédito por mês por aparelho. Mais da metade dos equipamentos não registrou nenhuma ligação no período. O uso despencou 93% nos últimos cinco anos.

Santos é a cidade com mais orelhões da Baixada Santista, são 357 no total, para comparação, Guarujá tem 174 e Praia Grande 160. São 357 equipamentos que, em grande parte, estão quebrados, sem manutenção e sem perspectiva de conserto. A Vivo, quando questionada sobre vandalismo e desgaste dos aparelhos, preferiu não se posicionar.

Ou seja: estão aí, ocupando calçada e sem utilidade prática para quase ninguém.

Por que eles estão saindo agora

Em 2025, a Anatel formalizou a migração da Vivo do regime de concessão para o de autorização, pelo Termo de Autorização nº 1/2025. Com isso, acabou a obrigação legal de manter os orelhões. Os recursos serão redirecionados para cobertura 4G e 5G em mais de mil municípios e para a expansão da fibra óptica.

A Prefeitura de Santos, também consultada, deixou claro: não é responsabilidade municipal. O serviço sempre esteve sob gestão da Anatel e das operadoras. A cidade apenas vê os aparelhos irem embora.

Os orelhões em localidades sem nenhuma cobertura de celular ficam protegidos até 2028. Em Santos, com cobertura ampla de 4G e 5G, esse critério praticamente não se aplica.

Mas espera, o orelhão foi inventado por uma mulher incrível

Antes de mandar esse ícone urbano para a lata do lixo, vale conhecer quem o criou.

Chu Ming Silveira nasceu em Xangai, China, em 4 de abril de 1941. Filha de engenheiro, deixou a China com a família em 1950 em meio à instabilidade política. A viagem durou três meses de navio, com destino ao Brasil. A família se instalou em São Paulo, no bairro de Pinheiros, em 1951. Chu Ming tinha menos de dez anos.

www.juicysantos.com.br - chu ming no orelhão

Foto: Acervo de Chu Ming Silveira/reprodução

Ela cursou Arquitetura na Universidade Mackenzie e se formou em 1964. Em 1966, entrou na Companhia Telefônica Brasileira. Em 1971, chefiando o Departamento de Projetos, recebeu um desafio: criar um protetor para telefones públicos que unisse funcionalidade e beleza.

A inspiração veio da forma do ovo. Simples, acusticamente eficiente, visualmente marcante e muito mais prático que as cabines inglesas. Dali nasceram o Orelhinha e o Orelhão. Rio de Janeiro e São Paulo receberam os primeiros modelos em janeiro de 1972. A população logo batizou a novidade com apelidos: “Tulipa”, “Capacete de astronauta” e, por fim, o definitivo “Orelhão”.

www.juicysantos.com.br - projeto chu ming silveira

Foto: Acervo de Chu Ming Silveira/reprodução

Em 1973, os primeiros orelhões foram exportados para Moçambique. Depois vieram Angola, Peru, Colômbia, Paraguai. E até a China, país de origem da própria criadora. Chu Ming Silveira faleceu em 18 de junho de 1997, em São Paulo, aos 56 anos.

Da ficha de 7 créditos ao celular no bolso

Quem viveu os anos 1980 e 1990 em Santos sabe o quanto o orelhão fazia parte do dia a dia. A fila para ligar, a ficha de 7 créditos que mal dava pra dizer oi, os cartões colecionáveis. Era tecnologia de ponta acessível na rua, para qualquer pessoa, independente de ter telefone em casa.

Esse foi o grande mérito do orelhão: democratizar a comunicação na medida do possível. Antes dos celulares, ele era o único meio de falar à distância fora de casa. E Chu Ming, uma imigrante chinesa criada em São Paulo, foi a cabeça por trás desse design que atravessou décadas e fronteiras.

A calçada vai ficar mais bonita, mas e daí?

A saída dos orelhões é inevitável e, honestamente, bem-vinda. Equipamentos quebrados e abandonados não prestam serviço a ninguém. Eles só ocupam espaço e degradam a cidade.

A questão é: o que vem agora? Outros municípios estão discutindo usar os pontos liberados para instalar Wi-Fi público gratuito, totens de emergência ou mesmo equipamentos de acessibilidade urbana. Santos tem calçadão, movimento turístico e infraestrutura para fazer algo útil com esses espaços. Que tal complementar com mais bicicletários que, convenhamos, não dão conta atualmente?

Os orelhões que marcaram época em Santos estão indo embora. Mas o que a cidade vai colocar no lugar?

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