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Por onde Chorão andou: um passeio pelos lugares de Santos que marcaram sua vida

Se ele estivesse aqui, o Alê completaria 55 anos neste 9 de abril. Santos não esqueceu — e os endereços da cidade contam isso melhor do que qualquer disco

Tempo de leitura: 7 minutos

Tem gente que deixa rastro em fotografia. Mas só os loucos sabem que Chorão deixou em asfalto, em parede de skatepark e em mesa de pizzaria. Alexandre Magno Abrão ganhou o apelido ainda em São Paulo, quando andava de skate com uma galera mais velha embaixo da marquise do Ibirapuera.

Reclamava muito, diziam. O amigo Bolota foi o primeiro a chamá-lo de Chorão. O nome pegou e ele não negava: “Eu sou emotivo pra caramba e choro mesmo.” O choris, para os íntimos, nasceu em 9 de abril de 1970 e faria 55 anos em 2026. Treze anos após sua morte, em 6 de março de 2013, Santos ainda carrega marcas físicas de quem ele foi.

A gente resolveu fazer esse passeio junto. Bairro a bairro, esquina a esquina.

www.juicysantos.com.br - 55 anos de Chorão um passeio pelos cantos de Santos marcaram a vida de chorisFoto: Divulgação

O apartamento onde tudo começou e quase terminou em chamas

O primeiro endereço da vida adulta de Chorão em Santos foi o Carina Flat, na Rua Ministro João Mendes, no bairro Aparecida. Um apartamento simples, de um quarto, sem planta, sem objeto decorativo. Nada que sugerisse o que aquele homem carregava por dentro. Só um skate encostado na parede.

Era ali que ele vivia quando a banda ainda engatinhava e as contas atrasavam.

Quem conhece bem a discografia do Charlie Brown Jr. sabe que a música “Tudo Que Ela Gosta de Escutar” tem um verso revelador: “só tinha uma magrela e um apê no BNH.” O Carina Flat ficava justamente na vizinhança do antigo conjunto do BNH.

Quando as músicas tocaram nas paradas pela primeira vez, Chorão comemorou com sua amada, Graziela Gonçalves, à luz de velas, porque a energia havia sido cortada. O problema é que os dois dormiram sem apagar as velas. O resultado foi um incêndio com danos consideráveis ao apartamento.

Portanto, o sucesso do Charlie Brown Jr. literalmente começou pegando fogo.

O bar onde o amor começou pela mecha vermelha

Antes do casamento, houve uma noite no World Rock Café, na Rua Azevedo Sodré, no Boqueirão. Era por volta de uma da manhã quando Graziela entrou no bar e avistou um cara grande, de costas, cabelo na altura do ombro e uma mecha vermelha que brilhava com a luz contrária. Ela achou seu cabelo engraçado.

Ela foi até ele, puxou os fios e disse: “Nossa! O seu cabelo é vermelho fluorescente!”

Ele se virou, abriu um sorriso enorme e falou: “Você!”

A conversa foi até as 3 da manhã. Sem parar. Skate, underground paulistano, o programa Grito da Rua do Turco Loco. O World Rock não existe mais. Mas essa noite ficou marcada para sempre na história do rock nacional.

A igreja do casamento

Em 2003, Chorão e Graziela se casaram na Igreja Ortodoxa São Jorge, na Avenida Ana Costa, 323, no Gonzaga. A escolha foi prática e afetiva ao mesmo tempo: ele já havia se casado numa cerimônia católica antes, então a ortodoxa era o caminho. Graziela definiu a si mesma como uma noiva “desencanada”.

A mãe dela, que nunca imaginou ver a filha mais velha casando na igreja, adorou cada segundo.

www.juicysantos.com.br - A história de Proibida Pra Mim, uma das melhores músicas do Charlie Brown JrFoto: Reprodução/Melhorada pelo Google AI Studio

A Igreja São Jorge ainda está lá, discreta e bonita na Ana Costa. Vale uma visita só pela arquitetura.

A pizzaria da surpresa

A Pizzaria Piccola, na Rua Minas Gerais, 57, no Boqueirão, era o restaurante favorito do casal. Foi lá que Graziela armou uma festa surpresa num aniversário difícil. Chorão acordou desanimado, ela sugeriu cinema e depois um “jantar rápido” na Piccola.

Mas, lá dentro, estavam todos os integrantes da banda, esposas, namoradas, o filho, a mãe, os irmãos e os amigos mais próximos.

Um garçom quase estragou tudo.

Quando ele subiu as escadas e ouviu o “Parabéns pra você” em coro, o rosto iluminou. Graziela queria exatamente isso: que ele recebesse um banho de amor.

A barraca de coco que batizou uma era

A história do nome Charlie Brown Jr. começa com uma chuva forte, um carro boiando na enxurrada e uma barraca de coco na praia de Santos. O nome da barraca: Charlie Brown.

Chorão viu o personagem desenhado na estrutura e sentiu o que sempre chamou de sinal. O “Jr.” veio com intenção: não queria vincular totalmente ao desenho animado, porque a banda tinha proposta mais ampla. Além disso, ele via o grupo como herdeiro de algo maior, como os últimos de uma geração dos anos 90.

Portanto, o nome não nasceu de uma reunião de marketing. Nasceu da chuva e do sal da praia de Santos.

O primeiro show do Charlie Brown Jr

O Sítio do Silveira, no Morro Nova Cintra, foi palco da estreia da banda, em uma festa de aniversário do próprio Chorão. A banda ainda cantava em inglês e fazia covers. Era tudo muito inicial, muito diferente do que viria a seguir.

www.juicysantos.com.br - primeiro show charlie brow

Dali, foram para os bares da cidade. Tocaram na Concha Acústica. Tocaram no Clube Vasco da Gama. E foram ficando.

Santos foi o laboratório. A cidade ouviu primeiro o som que mudaria o rock nacional para sempre.

Cine Roxy com pista de skate na calçada

Poucos sabem, mas Chorão foi roteirista de cinema. O Magnata (2007), dirigido por Johnny Araújo, tem roteiro do cantor.

O lançamento aconteceu no Cine Roxy, em Santos, com tapete vermelho, banda presente e, claro, uma pista de skate montada na entrada do cinema.

Assim mesmo. Pista de skate na estreia de um filme. Por que não?

Chorão ainda ganhou uma estrela na calçada da fama do Roxy. Ela existe até hoje.

Chorão Skate Park, o lugar dos sonhos que ele construiu

Num terreno com placa de “aluga-se” na Vila Mathias, Chorão viu uma oportunidade. Em poucas semanas, começou a obra do Chorão Skate Park: bowl gigante, rampas, corrimões, lanchonete e arquibancadas. Na parte de cima, o estúdio de ensaio da banda.

Ele pensou no espaço como particular no início. Depois abriu ao público. Porque era assim que o “Choris” funcionava: construía pra si e acabava dividindo com a cidade. Infelizmente, o local fechou e virou uma igreja neopentecostal.

Praça Palmares e o Emissário

A Praça Palmares, no Aparecida, era um dos redutos favoritos de Chorão para andar de skate e interagir com os jovens do bairro. Após sua morte, a pista se tornou ponto de homenagem espontânea: fãs, skatistas e gente de todo canto.

Além disso, o Parque Roberto Mário Santini, no Emissário Submarino, abriga hoje o maior legado físico: a Pista de Skate Chorão, nomeada oficialmente em julho de 2013. São 2.400 m² de área, com modalidades street e park, painel artístico do cantor, vista para o mar e o monumento de Tomie Ohtake.

A memória de Chorão

Chorão não era de Santos de nascimento, era de São Paulo, mas escolheu aqui para criar sua arte e deixar uma marca.

Cada um desses endereços carrega um pedaço de uma trajetória que começa num apartamento sem luz e termina com uma pista de skate à beira-mar com o nome dele gravado em pedra. O que fica, de verdade, não é a homenagem oficial. É a memória afetiva de quem passou pela Piccola numa noite fria, de quem andou de skate na Praça Palmares sem saber que aquela pista tinha história, de quem ouviu “Proibida pra Mim” numa barraca de coco na praia.

Em mais esse 9 de abril, Chorão faria aniversário. É momento de sentir, lembrar e continuar.

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