Livro vira mapa afetivo da Zona Noroeste de Santos
Pesquisa e entrevistas levaram 3 anos e resultaram em uma obra inédita sobre a memória da cidade
Santos não cabe só na linha reta da orla. É do morro pra cá que chegam as vozes de quem ergueu casa em terreno alagado, construiu prédio na praia e inventou um jeito próprio de ser santista. Em “Do Morro Pra Cá – A História e as Histórias da Zona Noroeste”, há um resgate inédito da memória dessa parte da cidade. O professor Rafael Moreira e o músico e ativista social Ney Paiva transformam três anos de pesquisas e conversas de calçada em um grande tratado coletivo. Assim, cada bairro vira personagem e cada morador conta suas memórias da querida ZN.

Essa é uma daquelas obras que ajudam o santista a se olhar no espelho. Além disso, ajuda a reconhecer na Zona Noroeste a sua devida importância.
Identidade: quando Santos chega à Zona Noroeste
A Zona Noroeste concentra hoje cerca de 40% da população santista. Mesmo assim, ainda é tratada como um “lado de lá” por muita gente que vive na orla. O livro parte justamente dessa virada de olhar: do morro pra cá, como dizem os próprios moradores. Isso lembra que a cidade chegou depois à região, e não o contrário. Ao reconstituir a história do antigo matadouro, dos primeiros loteamentos em área de mangue e da chegada dos equipamentos públicos, a obra mostra como a ZN foi sendo empurrada para os limites da ilha. Ainda assim, seguiu construindo pertencimento e orgulho local.
16 bairros e muitas vozes
Muita gente nem sabe que a Zona Noroeste não é um bairro, mas uma região formada por 16 bairros, cada um com sua cartografia social, seus sotaques, lideranças e memórias.
O livro se divide em três partes. Primeiro, a história de Santos e da ZN. Depois, a expansão urbana para além dos morros. Por fim, um capítulo para cada bairro, com entrevistas e um resgate do histórico local. Esse formato transforma a obra em um verdadeiro mapa afetivo. Assim, Rádio Clube, Saboó, Areia Branca, Chico de Paula, Alemoa e tantos outros deixam de ser uma periferia genérica. Eles passam a ter rosto, nome, memórias e sonhos.
Mosaico cultural
Foram cerca de 25 pessoas entrevistadas, muitas delas pioneiras que ajudaram a abrir rua, cavar vala, erguer casa em regime de mutirão, antes que qualquer infraestrutura chegasse.

As narrativas mostram uma ZN que vai muito além das enchentes e dos incêndios que costumam estampar manchetes. Elas falam de festas de rua, redes de apoio entre vizinhos, time de várzea, terreiros, igrejas e escolas que seguram o dia a dia. O livro, contemplado pelo Facult Santos (10º Concurso de Apoio a Projetos Culturais Independentes), também reúne imagens históricas e documentos que dificilmente circulariam fora desses círculos. Além disso, costura um mosaico poderoso de memória coletiva.
Quem construiu a orla mora na ZN
Um dos fios condutores da obra é a presença nordestina na Baixada Santista. Homens e mulheres vieram, a partir dos anos 1950, trabalhar na construção civil, no porto e no polo industrial de Cubatão. Construíram os prédios da orla, mas foram morar na Zona Noroeste.
Ao registrar essas vozes sem estereótipos, o livro reposiciona a ZN no imaginário santista: de espaço estigmatizado a território de potência negra, nordestina e popular.
O futuro do território
Ao mostrar que a especulação imobiliária já começa a rondar a região, os autores lembram que discutir a Zona Noroeste é falar do futuro de Santos. Se quem construiu a cidade segue concentrado em áreas sujeitas a alagamentos e pressão imobiliária, que tipo de desenvolvimento queremos permitir? A obra não traz respostas prontas, mas oferece base para políticas públicas, projetos sociais, iniciativas culturais e decisões urbanas mais responsáveis.
O livro está à venda com os próprios autores pelo Instagram: Rafael Moreira e Ney Paiva.
Essa é uma leitura essencial para quem ama Santos – especialmente para quem quer entender que a cidade não é só jardim, porto e orla.