Em livro, pesquisador revela memória da luta operária em Santos
O 1º de maio pioneiro e a luta pela jornada de 8 horas são apenas alguns dos registros da pesquisa minuciosa da obra
Quando a História vai além dos arquivos, ela se transforma em um registro que explica não só o passado, mas também o presente e o futuro. E ninguém duvida que Santos tem, de fato, muitas histórias pra contar. Não estamos falando apenas dos tempos áureos do café ou das façanhas futebolísticas. Este livro recém-lançado mergulha em um capítulo menos conhecido (mas super relevante) para quem gosta de entender a cidade. O tema é o movimento anarquista e sindicalista em Santos.
Foto: Reprodução/Anarquismo e Sindicalismo em Santos – Volume 1
De autoria de Marcolino Jeremias, Anarquismo e Sindicalismo em Santos – Volume 1 promete reacender discussões sobre a origem das lutas sociais e trabalhistas que marcaram não só o nosso território, mas também o país inteiro.
Se você ama descobrir personagens e eventos que moldaram a nossa realidade, vem saber mais sobre essa publicação.
Uma pesquisa cheia de minúcias
Para entender melhor esse contexto, Jeremias se debruçou por mais de 25 anos nessa pesquisa. E encontrou dados que, muitas vezes, ficaram de fora dos livros didáticos. Seu resgate incansável mistura pesquisa tradicional com métodos nada convencionais. Tem até história de investigação em arquivos públicos e jornais do Brasil e do extrior. Além disso, há busca por túmulos de cemitérios para encontrar familiares de militantes daquela época.
Por dentro do sindicalismo santista
A gente ouve falar de sindicatos e manifestações desde cedo. Porém, se engana quem pensa que o sindicalismo em Santos foi algo passageiro ou periférico. A cidade foi um dos polos mais ativos do país na virada do século XIX para o XX. Havia ligações diretas com o anarquismo europeu e influências vindas do movimento abolicionista, dos imigrantes da orla e do Porto. Além disso, havia participação importante das comunidades negras e operárias.
Pois é, nessa época, Santos era uma cidade próspera e diversa (etnicamente falando).
Não por acaso, Santos foi o palco da primeira manifestação de 1º de maio no Brasil, além de experiências pioneiras de lutas por direitos como a jornada de 8 horas e o salário mínimo.
Outro aspecto pouco explorado diz respeito à presença das mulheres e das crianças nessas mobilizações. Eram comuns fábricas onde toda a família trabalhava, o que fez com que mulheres liderassem atos e crianças também participassem das reivindicações. Isso acabou influenciando a forma como a cidade se organizou socialmente, assim como marcou o imaginário santista na construção de causas sociais coletivas.
Entre arquivos e histórias de família
O projeto que deu vida a Anarquismo e Sindicalismo em Santos não ficou só na pesquisa em bibliotecas ou centros acadêmicos.
Membro do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA), Jeremias passou mais de 20 anos rastreando documentos raros, cartas e relatos familiares para tentar montar um quadro mais completo possível. O método incluiu bater na porta de parentes de antigos sindicalistas, procurar nomes em listas telefônicas. E, em datas simbólicas, frequentar cemitérios em busca de pistas sobre os protagonistas da história santista.
A publicação reúne, pela primeira vez, fotos que não fazem parte dos arquivos públicos e textos inéditos de figuras que ajudaram a construir o sindicalismo local. Além disso, personagens como o médico Dr. Silvério Fontes e seu filho, o poeta Martins Fontes, aparecem lado a lado com operários, líderes sindicais e figuras ligadas ao movimento abolicionista.

Segundo Jeremias, a obra traz à luz a memória da luta operária em Santos, além de mostrar como o anarquismo e o sindicalismo foram motores para importantes conquistas trabalhistas. Isso inclui a inspiração na Liga Antimilitarista Brasileira, uma das faíscas da Revolta da Chibata.
O volume ainda traz fotos raras e documentos que falam do cotidiano das greves, dos bastidores das reuniões secretas e até da participação de marinheiros afro-brasileiros ligados ao movimento. Tudo foi construído para que o leitor de hoje possa entender de onde vieram muitos dos direitos sociais presentes atualmente.
Até o fim do ano de 2026, o autor pretende lançar a segunda parte.
Quer ler essa obra? Mande um e-mail para [email protected] para adquirir seu exemplar.
A publicação nos convida a olhar de forma diferente para nossa história, especialmente para quem ainda desconhece o quanto as conquistas trabalhistas nasceram de episódios de coragem e articulação popular, com uma participação gigante da “Barcelona brasileira”. Com o livro de Jeremias, as novas gerações e quem mais se interessa pelo tema conseguem compreender melhor o que faz de Santos uma cidade de luta e diversidade social.