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Ela fez história no esporte santista. Mas por que não conhecemos Jureminha?

Uma dupla de pesquisadores da Unifesp Baixada Santista levantou 343 registros em 27 publicações para trazer essa história de volta

Tempo de leitura: 9 minutos

Não tem rua em Santos com o nome dela, nem museu. Ninguém a homenageou com uma placa em ginásio ou organizou uma corrida superfaturada pra celebrar suas conquistas. Não se conversa sobre ela nas mesas de bar ou programas de televisão sobre esportes.

Se você nunca ouviu falar em Jureminha, a gente entende. É que esta personagem ficou meio que esquecida por décadas – até agora.

Ela tinha só 17 anos quando venceu provas de salto em distância, salto em altura e arremesso de dardo, ficou em segundo lugar no lançamento de disco e conquistou um título paulista com uma marca então considerada recorde brasileiro.

Quando saía da pista, ainda encontrava tempo para jogar basquete e vôlei pela cidade de Santos.

O ano? 1944.

Foto: Santos FC

Uma vida de movimento

Apesar do apelido no diminutivo, Jurema Cléa Figueirôa era grandona.

A santista atravessou os anos 1940 e 1950 acumulando vitórias em três modalidades. Foi campeã brasileira de basquete por São Paulo, campeã estadual de vôlei e ganhou três ouros nos Jogos Abertos do Interior referentes a uma única edição, um em cada esporte.

Os jornais da época é que começaram a chamá-la de Jureminha. Era comum ver registrada nas páginas a admiração das meninas que queriam ser como ela.

Com tudo isso, como foi que seu nome quase desapareceu das histórias que Santos, a cidade mais esportiva do Brasil, conta?

Essa pergunta levou a estudante de Educação Física Isabele Bonfim Pereira e o professor André Dalben, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Baixada Santista, a procurar Jureminha em antigos meios de comunicação.

Eles encontraram 343 registros em 27 publicações que mostravam uma atleta celebrada em seu tempo e que, no mundo em que vivemos hoje, precisa ser apresentada para novas gerações.

A publicação se chama Entre silêncios e conquistas: a trajetória esportiva de Jurema Cléa Figueirôa (1940–1959).

A pesquisa nasceu de discussões desenvolvidas na disciplina de Filosofia e História da Educação Física da Unifesp, que busca pensar as disputas pela memória e a participação histórica de grupos que muitas vezes ficaram à margem das narrativas tradicionais do esporte, como mulheres, população negra e pessoas LGBTQIA+.

O levantamento teve duração de um ano, com bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da instituição.

Quem foi Jureminha?

Jurema nasceu em 1927 e começou sua vida esportiva aos 13 anos, no basquete. Em pouco tempo, vieram o voleibol e o atletismo.

A história parece quase impossível de imaginar no esporte contemporâneo, tão especializado e cada vez mais acirrado. Jureminha competia – e vencia! – em modalidades diferentes, muitas vezes no mesmo período, quando não no mesmo evento.

Em 1941, com 14 anos, ela já estava levando ouro no campeonato colegial de basquete e vôlei representando a Associação João Otávio dos Santos, depois rebatizada como Escolástica Rosa.

Naquele momento, os jornais a descreviam como uma das mais rápidas jogadoras de basquete de Santos, com cestas “brilhantes e inacreditáveis”.

O atletismo entrou na vida de Jureminha em 1941. Aos 15, a jovem já estava entre as melhores atletas paulistas no salto em distância. Aos 17, em 1944, venceu salto em distância, salto em altura e arremesso de dardo na 1ª Olimpíada Colegial de Atletismo, ficando em segundo lugar no lançamento de disco.

No mesmo ano, chegou a um dos marcos de sua carreira: conquistou o Campeonato Paulista no arremesso de dardo e registrou uma marca considerada recorde brasileiro à época.

Jureminha é a segunda atleta da esquerda para a direita/Foto: Santos Futebol Clube

A imprensa não economizou nos elogios e a apresentou como “a melhor arremessadora de dardo do Brasil”.

E ela não era especialista apenas no dardo. A moça era fera em corridas de velocidade, revezamentos, salto em altura, salto em distância, lançamento de disco e arremesso de dardo.

Em 1945, depois de passar pelas principais etapas do atletismo estadual e nacional, recebeu um convite da Federação Paulista de Atletismo para os treinamentos preparatórios para o Campeonato Sul-Americano em Montevidéu, no Uruguai.

A documentação levantada pela dupla da pesquisa indica que ela teria sido convocada para representar o Brasil.

Três modalidades, muitos títulos

No vôlei, Jureminha foi campeã estadual pelo Boqueirão Praia Clube e, mais tarde, defendeu times como Santos FC, Brasil FC, Clube Náutico e Saldanha da Gama. Em 1953, aos 26 anos, jogou pela seleção paulista de voleibol.

No basquete, o currículo também é daqueles que fariam qualquer fã de esporte pedir replay.

Em 1951, representando São Paulo, ela conquistou o Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, foi convocada pela Confederação Brasileira de Basketball para a seleção brasileira que disputaria o IV Campeonato Sul-Americano Feminino.

Os Jogos Abertos do Interior ajudam a entender o tamanho de sua presença.

Até 1949, Jurema havia vencido seis de nove edições disputadas no basquete, seis de nove no vôlei e seis de oito no atletismo.

Em 1947, recebeu três medalhas de ouro por sua atuação nos Jogos Abertos do ano anterior: uma em cada modalidade.

No ano seguinte, veio outro reconhecimento simbólico. Em um concurso esportivo do jornal O Diário, Jureminha foi eleita “atleta espetáculo dos Jogos Abertos” e ficou em segundo lugar na categoria “atleta mais querido e completo”, disputa que reunia homens e mulheres.

Ela recebeu um cheque de 2.500 cruzeiros pelo prêmio.

Brilha muito

Jureminha virou uma personagem pública de Santos.

“Jurema não era uma personagem desconhecida em seu tempo. Pelo contrário: aparecia com frequência nos jornais, acumulava títulos e era tratada como uma referência do esporte feminino santista”, afirma Dalben.

Só que uma pergunta não saía da cabeça de Isabelle e André: por que uma atleta tão celebrada ficou de fora das narrativas mais conhecidas sobre o esporte em Santos?

Compilação de fotos feita pelos pesquisadores da Unifesp

A resposta passa, obviamente, pelo seu gênero.

A carreira de Jureminha aconteceu em um tempo em que as mulheres nos esportes tinham limites tanto concretos quanto subjetivos. Força, competitividade, vigor físico e risco sempre foram atributos masculinos. A elas, estavam reservadas as expectativas de delicadeza, maternidade e vida doméstica.

O estudo da Unifesp lembra que o Decreto-Lei de 1941 proibiu mulheres de praticar modalidades consideradas incompatíveis com sua “natureza”, inclusive o futebol, que só foi liberado em 1983.

Jogar, correr, arremessar, viajar para competir e ocupar quadras já eram gestos de enfrentamento, ainda que as atletas talvez não usassem essa palavra no dia a dia.

“A história da Jureminha mostra que as mulheres não foram coadjuvantes na construção da identidade esportiva de Santos, mas parte ativa do processo que fez a cidade se afirmar como referência esportiva no Brasil”, diz Dalben.

Ela também virou uma referência para crianças e adolescentes. Em 1945, uma matéria em A Tribuna registrou que Jurema tinha fãs mirins. Eram meninas que queriam ser como ela.

A imprensa a apresentava como alguém capaz de inspirar novas gerações a ocupar espaços que ainda eram majoritariamente masculinos.

E teve uma mulher que foi super importante para que isso acontecesse. O nome dela era Lídia Federici.

Memória escrita por mulheres

Se Jureminha chegou até nós por meio dos jornais, parte desse caminho passa por mulheres que escreveram sobre esporte. A pesquisa de Dalben e Isabelle dá uma atenção especial a Lydia Federici, ex-atleta e cronista que assinava textos sobre esportes femininos em A Tribuna, muitas vezes como L.Y.

Mulher idosa sorrindo com cabelo branco e camisa polo azul-claro, em meio a folhagem verde tropicalLydia Federici/foto: Memória Santista

No periódico local, Lídia não se limitava aos resultados. Acompanhava aniversários, jogos, lesões, doenças, vitórias e ausências de Jurema. Sua escrita era próxima, pessoal e cheia de adjetivos, aquele tipo de cobertura humanizada e instigante que ajudava a construir a atleta como figura pública, e não apenas como um nome na súmula.

“Quando olhamos apenas para os nomes que permaneceram consagrados, podemos ter a impressão de que as mulheres estavam ausentes de determinados espaços. A documentação mostra outra coisa. Elas competiam, venciam, eram notícia e também ajudavam a construir o esporte da cidade”, declara Dalben.

Silêncio depois dos aplausos

Em 1953, aos 26 anos, Jureminha deixou as competições.

Ela iria se casar.

Uma coluna em jornal encontrada no estudo lamentou a ausência da craque da seleção santista de vôlei depois de 13 anos de presença constante.

Depois disso, Jureminha continuou a surgir, mas só de maneira pontual, em notícias sobre recordes e comparações com novas atletas. Mas não voltou a competir nem a treinar as três modalidades. A atleta que havia sido símbolo de uma Santos vencedora ficou cada vez mais distante das memórias oficiais.

Isabele e André reconhecem que o levantamento ainda tem alguns mistérios a resolver. Os próprios autores apontam a necessidade de buscar arquivos privados, acervos fotográficos familiares e relatos orais de pessoas que viveram naquele tempo. Mas ela já oferece algo importante: uma base documental ampla para tirar Jureminha do esquecimento e colocá-la de volta em evidência.

“Recuperar sua trajetória também é uma forma de valorizar as mulheres que fizeram parte da história do esporte santista e contribuir para que essas histórias possam inspirar outras meninas e mulheres no esporte”, afirma Isabele.

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