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A Marquesa de Santos nunca colocou os pés na cidade. E por que esse nome?

A única ligação real dela com Santos foi uma doação para a construção de um chafariz, em 1845 - e olha que nem pra isso ela veio pessoalmente

Tempo de leitura: 5 minutos

Você chegou até aqui achando que Domitila de Castro Canto e Melo, mais conhecida como Marquesa de Santos, tinha alguma ligação direta com a cidade? Pois a real é bem mais surpreendente: apesar do nome, a famosa Marquesa nunca nasceu, morou, ou sequer passou por Santos durante a vida inteira.

E essa história aparece pra deixar muita gente de queixo caído pela quebra das expectativas sobre um dos personagens históricos que, por nome, parece ter tudo a ver com a nossa região, mas não tem.

Afinal, por que então a Marquesa de Santos carrega o nome de uma cidade que, na prática, fez parte de sua história apenas por tabela?

www.juicysantos.com.br - A Marquesa de Santos nunca colocou os pés na cidade. Mas por que ela tem esse nome?Imagens: Museu da Cidade de SP/Usp

Se você sempre ouviu lendas sobre casarões antigos ou imaginou encontros sigilosos entre Domitila e D. Pedro I aqui na Baixada, hora de descobrir o que realmente aconteceu e entender por que essa escolha de título foi, na verdade, uma provocação histórica.

Tipo Bridgerton

Antes de Domitila se tornar um nome conhecido nos corredores da corte, a vida dela passava longe de Santos.

Nascida em São Paulo, em 1797, ela se casou com um militar mineiro e acabou em uma situação complicada e violenta, da qual pediu desligamento diretamente ao então príncipe D. Pedro. Por causa dessa intervenção, acabou se tornando amante oficial do futuro imperador. Ali começou o capítulo polémico envolvendo sua ascensão ao título de nobreza.

O interessante é que o título de Marquesa de Santos não veio por acaso, nem como homenagem genuína à cidade.

O nome foi concedido por D. Pedro I como um ato de provocação ao santista José Bonifácio de Andrada e Silva, uma das grandes figuras da política nacional e defensor da independência, além de desafeto declarado do imperador.

www.juicysantos.com.br - marquesa de santos

Era também uma mexida no tabuleiro político e social da época, transformando Domitila em símbolo de uma disputa que marcou o Brasil Império.

Mesmo sem nunca ter pisado em Santos, a Marquesa passou a estampar o nome da cidade em sua identificação oficial e a inspirar diversas histórias, mitos e até apelidos que circulam até hoje. Não à toa, existem diversas “lendas urbanas” na Baixada Santista, sobre casas e casarões que teriam sido palco de encontros secretos entre ela e D. Pedro I. Tudo, no final das contas, invenção da imaginação popular.

Muito se fala, mas pouco se confirma

Quase dois séculos após os eventos, circulam diversas histórias sobre possíveis visitas de Domitila a Santos.

Já ouviu falar da “Casa da Marquesa”, na Avenida Conselheiro Nébias? Ou do suposto castelo na Rua Júlio de Mesquita? Ambos nunca existiram na época em que Domitila era viva. Da mesma forma, a tradicional casa do Pouso Paranapiacaba, na Estrada Velha de Santos, só foi construída em 1922, anos depois da morte da Marquesa e já com D. Pedro I de volta à Europa.

A única relação, ainda que indireta, entre a Marquesa de Santos e a cidade está ligada a uma doação financeira. Em 1845, ela contribuiu com dinheiro para a construção do Chafariz da Coroação, equipamento público que ajudou a abastecer água na região. Mas não há qualquer registro de que ela tenha vindo pessoalmente ao local nem de que tenha tido outra participação na comunidade santista.

Portanto, se você encontrar placas, casas ou qualquer referência física à presença de Domitila em Santos, saiba que fazem parte mais do folclore do que da história documentada. Mesmo durante os anos em que ostentou o título de Marquesa de Santos, ela nunca morou, visitou ou participou ativamente da vida local.

Uma provocação que ficou para sempre no nome

Hoje, a curiosidade sobre personagens históricos volta à tona. E a história da Marquesa de Santos serve como exemplo de como símbolos, nomes e títulos podem carregar significados e intenções muito além do que parecem. No caso, o batismo de Domitila como Marquesa de Santos foi uma resposta de D. Pedro I aos ataques políticos de José Bonifácio, confronto que ultrapassava os salões da monarquia e acertava em cheio o orgulho dos moradores do litoral.

Ainda assim, mesmo sem nunca colocar os pés por aqui, Domitila virou tema de conversas, crendices e, claro, da própria identidade santista ao longo das décadas. A história de que a Marquesa de Santos não nasceu e nem viveu por aqui vai muito além de uma simples curiosidade: é sinal de que, em Santos, até as lendas têm endereço garantido na memória coletiva.

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