Santos já foi o “porto maldito” – e o café salvou a cidade
Entre 1880 e 1900, a cidade mais importante para o café brasileiro era também a mais temida do continente. Esta é a história de como Santos foi da morte à modernidade
Imagine chegar a um porto e ver dezenas de navios com bandeira a meio mastro. Não era luto por um rei ou general. Era o aviso de que mais tripulantes tinham morrido ancorados, esperando para descarregar café.
Pintura: Benedito Calixto
Era assim em Santos no final do século XIX. E foi justamente o café que finalmente obrigou a cidade a se salvar. Não por bondade, claro, mas por negócio. No dia 14 de abril, quando se comemora o Dia Mundial do Café, nada melhor do que relembrar essa história.
A cidade que cresceu rápido demais
O café transformou Santos em potência econômica. A ferrovia chegou em 1867, o porto virou o principal exportador do produto mais valioso do Brasil, e a cidade explodiu em população. De 9 mil habitantes em 1872, Santos saltou para quase 50 mil em 1900.
O problema é que esse crescimento não veio acompanhado de nada. Sem planejamento, sem saneamento, sem infraestrutura.
O sítio urbano era alagadiço, cortado por rios e córregos sem qualquer sistema de drenagem. Águas paradas se acumulavam em cada esquina. O solo encharcado não drenava coisa alguma. Assim, imigrantes e trabalhadores se amontoavam em cortiços sem água, sem esgoto e sem ventilação, espalhados por becos e vielas. O resultado foi catastrófico.
22 mil mortos em dez anos
Entre 1890 e 1900, cerca de 22 mil pessoas morreram em Santos vítimas de varíola, febre amarela e peste bubônica. Isso equivalia à metade da população da cidade na época. Um viajante alemão que passou por Santos em 1887 registrou que a cidade se transformava em “vasto cemitério internacional” nos meses de verão.
A expressão “porto maldito” surgiu.
Em 1892, por exemplo, 63 das 65 embarcações ancoradas no porto tiveram tripulações dizimadas pela febre amarela. No navio Japhet II, todos a bordo morreram. Portanto, não demorou para que companhias marítimas de todo o mundo parassem de enviar navios para cá. Os fretes encareceram. Passageiros com destino a São Paulo desembarcavam em Buenos Aires e voltavam por terra.
O porto mais importante do Brasil virou um lugar que ninguém queria encostar. Santos estava morrendo. E com ela, o escoamento de todo o café paulista.
O medo que tomou conta da cidade
Além disso, o terror não era só dos de fora. Quem morava em Santos também fugia.
Setenta por cento dos comerciantes e corretores estrangeiros deixaram a cidade em apenas quatro meses. Políticos pediam demissão para escapar. O próprio presidente da Intendência Municipal renunciou em plena epidemia de 1893. Vereadores adoeciam e largavam os mandatos.
Enquanto isso, quem não podia fugir enfrentava um cotidiano de horror. O Cemitério do Paquetá, no centro da cidade, ficou tão superlotado que os enterramentos passaram a acontecer em valas comuns, à noite, sem qualquer ritual. Os portões ficavam permanentemente abertos com uma lanterna de luz vermelha, sinalizando a chegada constante de novos mortos.
Por que ninguém resolvia o problema
A medicina da época ainda não sabia ao certo o que causava a febre amarela. Alguns médicos culpavam o contágio direto. Outros apontavam o clima úmido, os manguezais e o vento noroeste, os famosos “miasmas”. Contudo, ninguém imaginava ainda que o culpado era o mosquito.
Assim, as ações de controle eram imprecisas e mal executadas. As quarentenas existiam no papel, mas a estrutura para cumpri-las não existia na prática. Os hospitais de isolamento eram tão precários que a população os temia mais do que a própria doença. As pessoas escondiam doentes em casa para não ser levadas a esses lugares. Havia relatos de corpos encontrados junto a enfermos em quartos fechados.
A virada que veio pela pressão econômica
Aqui está o ponto mais brutal dessa história: não foi a compaixão pelos mortos que forçou uma solução. Foi o dinheiro.
Quando o café parou de fluir e os negócios travaram de vez, a Associação Comercial de Santos declarou publicamente que o saneamento era uma necessidade inadiável. Não por humanidade. Para proteger a economia.
Foi o mercado do café pressionando o Estado. E o Estado, finalmente, agiu.
O governo estadual então formou duas comissões: uma sanitária, liderada pelo médico Guilherme Álvaro da Silva, e uma de saneamento, sob o comando do engenheiro Francisco Saturnino de Brito. A identificação do mosquito Aedes aegypti como transmissor da febre amarela, comprovada no fim do século XIX, também mudou o jogo. Brigadas de combate ao mosquito começaram a atuar e o Serviço de Febre Amarela foi oficializado em 1902 e 1903.
Mas a transformação definitiva veio com Saturnino de Brito.
Os canais que salvaram a cidade
O projeto de Saturnino atacava o problema pela raiz. Um sistema de canais em cimento armado drenaria o solo alagadiço, eliminaria as águas paradas onde os mosquitos se reproduziam e ainda criaria avenidas largas com árvores e circulação de brisa marítima.
Foto: Prefeitura de Santos
As obras começaram em 1905. Em 1907, o Canal 1, o maior deles, foi inaugurado em festa. Em 1908, já eram 45 quilômetros de canais. Esses canais, por sua utilidade e beleza, passaram a marcar a memória afetiva da cidade, alterando de vez as representações urbanas de Santos.
Visitantes que antes só queriam partir passaram a registrar outra impressão. Um viajante uruguaio que esteve aqui em 1907 escreveu que Santos havia se tornado “um porto limpo na acepção completa do vocábulo”. Um italiano que acompanhou a transformação resumiu assim: antes, a cidade era perseguida pelo “fantasma da morte”. Depois do saneamento, ela havia ressurgido para uma nova vida.
As praias, antes associadas a enterramentos e doenças, passaram a atrair visitantes. Hotéis de luxo se instalaram à beira-mar. Santos começou a se tornar estância balneária.
Mas vale lembrar: a história do “porto maldito” só terminou bem porque uma crise econômica grande o suficiente finalmente obrigou o Estado a agir. Não foram as 22 mil mortes que moveram o poder público. Foi a paralisação do comércio de café.
Parece familiar?