Santos está pronta para o Super El Niño?
Especialistas e Prefeitura divergem sobre o que a cidade fez até agora para enfrentar o fenômeno climático mais intenso em décadas
Basta uma tarde de chuva forte para o trânsito travar nas regiões mais baixas de Santos. Em alguns morros, o mesmo aviso de temporal já significa o medo de famílias perderem suas casas. Agora, esse tipo de cena pode se repetir com mais frequência e mais força.

Foto: Prefeitura de Santos
Modelos climáticos do Cemaden e da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) apontam alta probabilidade de formação de um Super El Niño entre 2026 e 2027, com efeitos que podem se estender até o segundo semestre do ano que vem. A Baixada Santista está na rota direta desse fenômeno.
O que é um Super El Niño
O fenômeno acontece quando as águas do Pacífico Tropical esquentam de forma anormal, alterando ventos e chuvas em escala global. Ele se torna “Super” quando essa anomalia de temperatura ultrapassa 2°C acima da média histórica, algo que ocorreu apenas quatro vezes nos últimos 150 anos: 1877, 1982, 1997 e 2015.

Se 2026 confirmar a quinta ocorrência, o intervalo entre um Super El Niño e outro terá encolhido para menos de cinco anos. Os oceanos mais quentes, resultado do aquecimento global, potencializam o fenômeno natural e elevam o risco de eventos extremos.
Para o Sudeste, a previsão combina ondas de calor mais frequentes com baixa umidade do ar. Para o litoral, o pacote inclui chuvas intensas, alagamentos e ressacas mais fortes.
O que esse fenômeno já causou antes
O El Niño de 2023/2024 foi classificado como “Forte”, abaixo do nível “Super” agora projetado. Ainda assim, mais de 80% dos municípios brasileiros registraram algum grau de estiagem naquele período, e o Rio Grande do Sul enfrentou um dos maiores desastres climáticos de sua história.

Foto: Ricardo Stuckert / PR
Na Baixada Santista, a referência mais dura segue sendo 2020, quando chuvas fortes provocaram 45 mortes na região. Em 2023, São Sebastião somou outras 65 mortes em poucos dias de temporal.
Esses números mudam a forma de encarar o próximo episódio. O fenômeno em si é natural e cíclico. A intensidade do estrago, porém, depende diretamente do nível de preparação de cada cidade.
O que está em risco em Santos
A cidade reúne ocupação em morros, áreas de palafita junto a canais, prédios na orla expostos à erosão costeira e uma Zona Noroeste historicamente castigada por alagamento. Juntos, esses fatores ampliam a exposição ao Super El Niño.
A advogada Gabriela Peixoto Ortega, especializada em direito à cidade e justiça climática, resume o ponto central da discussão:
“O desastre acontece quando um evento climático extremo encontra uma cidade desigual, mal planejada e cada vez mais impermeabilizada”, afirma.
Para ela, os efeitos do fenômeno recaem de forma desigual sobre a população.
“Para uma parte da população, uma onda de calor significa ligar o ar-condicionado. Para outra, significa enfrentar temperaturas insuportáveis em uma moradia precária”, diz Gabriela.
O mesmo vale para os alagamentos, enquanto alguns enfrentam atraso no trânsito, outros perdem a casa, os documentos e o trabalho.
Gabriela também aponta a ausência de uma Secretaria Municipal de Habitação em Santos como sintoma dessa desigualdade. Sem ela, segundo a advogada, a política habitacional segue sem a centralidade que deveria ter numa cidade marcada por ocupações em áreas de risco.
O Parque Palafitas, projeto da Prefeitura para substituir moradias precárias na Vila Gilda, também entra na crítica.
“Não considero uma inovação construir habitações de interesse social, de madeira, à beira do canal”, avalia Gabriela.
A advogada lembra que estudos de adaptação climática recomendam reduzir a ocupação de áreas vulneráveis.
O que a ciência recomenda
O professor Adalberto Mohai Szabó Júnior, da São Judas Unimonte, especialista em gestão ambiental, defende uma combinação de prevenção e resposta rápida. Entre as medidas que considera essenciais estão limpeza constante das galerias, fiscalização de áreas de risco, educação ambiental e sistemas de alerta eficientes.
“É essencial que os sistemas de alerta sejam eficientes e capazes de informar a população com antecedência, permitindo que as pessoas possam se proteger em locais seguros”, explica o professor.
Adalberto também faz um alerta importante.
“Mesmo quando uma cidade possui uma boa infraestrutura, eventos extremos podem superar a capacidade das medidas preventivas existentes”.
Para o pesquisador, a força da natureza nunca deve ser subestimada, sobretudo em cidades litorâneas como Santos. E em caso de tragédias maiores, ele lembra qual deve ser a prioridade:
“Não existe patrimônio mais valioso do que a nossa segurança e a preservação da vida”.
O que a Prefeitura respondeu
Em nota, a Prefeitura informou que a Defesa Civil possui planos para enfrentamento de eventos extremos e trabalha integrada com os governos estadual e federal. O órgão também destacou ações em curso, como o Plano de Ação Climática de Santos, lançado em janeiro de 2022, e as obras de macrodrenagem na Zona Noroeste, com a primeira Estação Elevatória já em operação e outras três previstas via financiamento internacional.
A nota cita ainda o Parque Palafitas, com substituição gradual de moradias por unidades em laje na Vila Gilda, o programa Santos Sustentável, de plantio de árvores, e os ecobags entre o Aquário Municipal e a Ponte Edgard Perdigão, usados para conter erosão costeira.
Porém, a Prefeitura não apontou recomendações específicas para moradores de áreas de risco diante de chuva forte, não trouxe orientação prática para ondas de calor e não apresentou estimativa do impacto esperado do El Niño sobre a cidade.
O Ministério Público de São Paulo identificou lacuna semelhante. O Gaema (Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente) abriu, no início deste mês, um procedimento para cobrar dos nove municípios da Baixada Santista informações sobre planos de contingência, obras de contenção e simulados de evacuação. Em nota, a Prefeitura informou que vai se manifestar dentro do prazo estabelecido pelo órgão.
O hiato entre planejar e executar
Para Gabriela Ortega, a distância entre o que a Prefeitura anuncia e o que efetivamente executa revela as prioridades da gestão municipal.
“É justamente nessa lacuna que cabem os impactos do El Niño e das mudanças climáticas, que atingirão a população de forma profundamente desigual”, afirma a advogada.
A própria nota da Prefeitura reforça essa leitura ao informar que mantém tratativas com o BNDES para um planejamento estratégico de enfrentamento às mudanças climáticas, ainda em fase de estudo. Enquanto esse planejamento avança, moradores de áreas de risco seguem expostos ao próximo ciclo de chuvas.
Santos já sabe, desde 2020, o preço de subestimar uma chuva forte e a anomalia climática está anunciada. Resta saber se vai esperar a água chegar para descobrir, mais uma vez, quem tinha condição de se proteger.