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Rumo a Ushuaia, Georgios partiu de São Vicente com uma bike e R$ 48 no bolso

Há mais de 100 dias na estrada, Georgios Aciro desafia a ideia de que toda vida precisa seguir o mesmo roteiro

Tempo de leitura: 5 minutos

Existe um momento da vida em que quase todo mundo recebe um roteiro. Estudar, trabalhar, guardar dinheiro, buscar estabilidade, comprar uma casa, formar família. E, às vezes, é preciso adiar algumas vontades para quando as coisas “estiverem mais organizadas”. O problema é que ninguém explica quando esse “depois” chega.

Aqui na Baixada Santista, onde boa parte das histórias é construída entre jornadas longas, ônibus cheios e contas para pagar, aprender a ser responsável costuma acontecer cedo. Sonhar, muitas vezes, fica para mais tarde.

Georgios Aciro passou boa parte da vida acreditando nisso.

www.juicysantos.com.br - Rumo a Ushuaia: de São Vicente ao fim do mundo
Foto: Arquivo pessoal 

Até perceber que estava ficando bom demais em cumprir expectativas que nem eram necessariamente suas.

“Eu percebi que estava sobrevivendo, mas não estava vivendo. Dentro de mim existia um sonho que crescia a cada dia.”

Até abril de 2026, Georgios trabalhava como ajudante de pedreiro. Aos 31 anos, a rotina era a mesma de muita gente: acordar cedo, encarar o expediente e voltar para casa com a sensação de que os dias passavam rápido demais.

Mas havia uma ideia que insistia em permanecer.

Ele queria atravessar a América do Sul de bicicleta.

No dia 3 de abril, fez o tipo de escolha que costuma dividir opiniões em qualquer roda de conversa. Pediu demissão, pegou uma bicicleta usada, colocou R$ 48 no bolso e saiu de São Vicente em direção a Ushuaia, cidade argentina conhecida como “o fim do mundo”. 

Mais de 100 dias depois, ele continua pedalando.

Estabilidade pra quem?

Existe uma palavra que acompanha boa parte dos adultos brasileiros: estabilidade.

Ela aparece em conversas de bar, reuniões de família e vagas de emprego. É quase uma entidade.

Georgios conhecia bem essa lógica. Afinal, trabalhar na construção civil nunca foi apenas um trabalho. Também era a forma de saber que as contas seriam pagas no fim do mês.

Por isso, não foi surpresa quando começaram os questionamentos.

“Muita gente perguntou se eu era louco. Algumas pessoas disseram que eu desistiria em poucos dias.”

A matemática até aqui realmente parece ser ruim. Não havia patrocínio, planejamento financeiro ou equipamento de ponta. Existia apenas uma bicicleta, fé e uma disposição considerável para conviver com o improviso.

“Eu entendi que nunca existiria a hora perfeita. Se eu esperasse ter todo o dinheiro e todas as certezas, talvez nunca saísse de casa.”

A frase pode soar como legenda de rede social. Mas, na prática, significou dormir em barracas, comer alimentos enlatados e depender da ajuda de desconhecidos para seguir viagem.

A estrada tem um jeito curioso de colocar as coisas em perspectiva

Atualmente, o vicentino está na província de Santa Fé, na Argentina. Já percorreu cerca de 3,6 mil quilômetros desde que deixou São Vicente.

No caminho, atravessou o Uruguai, conheceu pessoas que jamais encontraria em outra circunstância e descobriu que a estrada tem pouco interesse pelas idealizações humanas.


Foto: Arquivo pessoal 

A bike azulzinha, como foi batizada, está com problemas mecânicos. Os dois freios deixaram de funcionar corretamente e as marchas também começaram a apresentar falhas. Para custear os reparos, Georgios lançou uma rifa nas redes sociais.

“A estrada ensina muito rápido que nem tudo são paisagens bonitas. Eu foco no próximo quilômetro, na próxima cidade, no próximo amanhecer.”

Talvez seja justamente por isso que ele tenha aprendido a dividir a viagem em pedaços menores.

Esse é um conselho útil para quem pedala até Ushuaia. E, honestamente, talvez também sirva para quem está preso no trânsito da orla da praia às seis da tarde.

O que a Baixada Santista tem a ver com Ushuaia?

A história de Georgios não é só sobre abandonar tudo e sair pelo mundo.

Ela conversa com uma pergunta que aparece com frequência em uma região acostumada a trabalhar muito: em que momento a busca por segurança começa a custar caro demais?

Isso não significa que todo mundo precise pedir demissão amanhã. Mas talvez explique por que tanta gente acompanha a viagem de um ex-ajudante de pedreiro pela Argentina.

“Aprendi que sucesso não é apenas ter estabilidade financeira. Também é acordar todos os dias sentindo que você está vivendo de acordo com os seus valores e seu propósito.”

O plano dele é passar por Córdoba e Mendoza antes de iniciar a descida até Ushuaia. Depois, voltar para casa entre novembro e dezembro.

Quem quiser acompanhar a expedição e contribuir com a manutenção da bicicleta pode acompanhar as atualizações publicadas por Georgios em suas redes sociais.

Enquanto esta matéria era escrita, Georgios seguia pedalando pela Argentina. Nos próximos meses, deve passar por Córdoba e Mendoza antes de chegar a Ushuaia. Depois, pretende voltar para casa.

É curioso pensar que alguém que saiu de São Vicente com R$ 48 no bolso esteja, neste momento, decidindo onde montar uma barraca do outro lado do continente.

Talvez seja esse o motivo de tanta gente acompanhar sua jornada. Não pela bicicleta, nem pela distância percorrida. Mas porque histórias como a dele lembram que existe vida para além dos caminhos que aprendemos a considerar inevitáveis.

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Vitor Fagundes
Texto por

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