Amor e tragédia: a lenda da Pedra da Feiticeira em São Vicente
Na Praia do Itararé, uma rocha banhada pelo mar guarda uma história de amor, abandono e loucura que virou um dos símbolos da cidade mais antiga do Brasil
Uma deusa, uma louca, uma feiticeira? Na Praia do Itararé em São Vicente, a resposta é feiticeira! E não é apenas uma formação rochosa que aparece conforme a maré. Ela é na prática, o cenário de um dos romances mais mal resolvidos da história da Baixada Santista – e olha que a concorrência para romances que dão o que falar na cidade são muitas.
Foto: Julio Domingues
Um amor que veio de Portugal e foi embora com o barco
A lenda começa como toda história trágica de amor: com um marinheiro bonito (supostamente) , palavras doces e uma promessa que não valeu nada.
Nos tempos coloniais do século XVI, quando São Vicente ainda era um pequeno e suado núcleo de colonização, uma jovem mulher se apaixonou por um navegador português que chegou por lá. O romance rolou, o bebê veio a caminho, e ele prometeu voltar para buscar a amada e o filho. Spoiler: não voltou.
Segundo a lenda, ela ficava na pedra acenando para cada barco que passava. Não era loucura, tinha muita esperança, que é quase a mesma coisa.

Desmoralizada, de coração partido e sem a gestação que não sobreviveu ao trauma, a mulher se isolou. Escolheu como morada exatamente a pedra onde o casal se encontrava, que o povo logo batizou de a cama da velha. Apesar de jovem, a pele castigada pelo sol, os cabelos desgrenhados e os trajes maltratados faziam com que ela parecesse – com todos aqueles estereótipos – uma velha bruxa. E assim nasceu a lenda!
Se você for marinheiro, cuidado!
Diferente do que o título sugere, ela não era exatamente aterrorizante. Não lançava feitiços, não amaldiçoava pescadores, não fazia simpatias com ossos de peixe.
O que ela fazia era dançar, cantar e acenar para os navios que passavam na barra, na eterna esperança de que um deles trouxesse o tal marinheiro de volta.
Portanto, o pessoal da cidade a conhecia, respeitava à distância e deixava ela em paz. Havia, inclusive, uma espécie de tolerância coletiva com a sua dor. Coisa que, convenhamos, o século XVI não era exatamente famoso por oferecer.
O final que ninguém queria
Certo dia, durante uma maré cheia, ela achou que alguém acenava de um barco ao longe, entrou no mar e não voltou. A correnteza que não perdoa levou a feiticeira e a pedra ficou ali como cenário da história até os dias de hoje.
Dizem que, ainda nas noites de luar, dá para ouvir vozes de socorro vindo daquela direção. Muita gente jura que são os gritos do espírito da feiticeira. Outros dizem que é o vento. A verdade? Provavelmente, a verdade não interessa tanto quanto a dúvida.
Séculos depois
Nos últimos anos, a Pedra da Feiticeira ganhou uma escultura em fibra de 3,5 metros de altura, assinada pelo artista Francisco Telles. A obra representa a figura da feiticeira e foi instalada ali em homenagem à lenda.
Assim, além de aparecer e desaparecer nas marés, a pedra agora também tem uma guardiã permanente olhando para o horizonte. Poético? Sim. Levemente perturbador à meia-noite? Também sim.
São Vicente, aliás, é especialista nesse tipo de patrimônio que mistura história real com camadas de imaginário popular. O monstro de São Vicente é a prova que a cidade mais antiga do Brasil tem muito material para isso.
Foto: Antônio Ferreira/Seicom/PMSV
Vale a visita!
Se você mora na Baixada e nunca foi até lá, saiba que a pedra fica na Av. Manoel da Nóbrega, em frente ao Posto dos Bombeiros, no Itararé. É a pé da orla, sem custo nenhum, e com vista para o mar.
Além disso, o passeio combina muito bem com um mergulho nas praias de São Vicente ou com um café no calçadão. Portanto, não tem desculpa.
Serviço
Local: Pedra da Feiticeira, Praia do Itararé, São Vicente (SP)
Endereço: Av. Manoel da Nóbrega, em frente ao Posto dos Bombeiros, Itararé
Gratuita, acesso livre pela orla
Escultura: Francisco Telles