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Pedra da Feiticeira: São Vicente perde mais um ponto turístico na cidade

Incêndio destruiu escultura na Praia do Itararé e reacendeu o debate sobre patrimônio, segurança e a proteção dos símbolos que fazem parte da história vicentina.

Tempo de leitura: 14 minutos

Em 2016, o monumento ao Ipupiara já havia sido quase inteiramente destruído pelo fogo. Agora, dez anos depois, a cidade de São Vicente volta a lidar com a perda de uma obra que fazia parte da paisagem.

O incêndio que destruiu a escultura da Pedra da Feiticeira na praia do Itararé deixa perguntas sobre segurança, memória coletiva e proteção do patrimônio cultural de São Vicente. 

A Feiticeira ocupava esse lugar para moradores que incorporaram sua presença à rotina. Para alguns, era parte do caminho até a praia. Para outros, tinha um significado que não cabia na descrição de um ponto turístico.


Foto: Prefeitura de São Vicente / Reprodução

Quando o fogo consumiu a escultura em 30 de setembro de 2026, a cidade perdeu uma obra de Francisco Telles, instalada em 2010. Mas também perdeu uma referência visual que, ao longo dos anos, passou a integrar a memória afetiva de quem vive ou circula por São Vicente.

A Prefeitura aponta que pretende reconstruir o monumento. A iniciativa abre caminho para recuperar a paisagem, mas deixa outras questões em aberto: como a escultura será protegida daqui para a frente? O que a cidade aprendeu com a destruição do Ipupiara? E como preservar aquilo que a população reconhece como patrimônio, mesmo quando esse valor não depende de um tombamento formal?

São perguntas que merecem espaço para além da repercussão imediata do incêndio.

Parte da paisagem

A Pedra da Feiticeira faz parte da paisagem da Praia do Itararé e carrega uma narrativa tradicional de São Vicente.

Segundo a lenda local, uma mulher se apaixonou por um marinheiro português que partiu prometendo voltar. Ele nunca retornou. Tomada pela tristeza, ela teria passado a esperar por ele na pedra, até entrar no mar ao acreditar que havia avistado sua embarcação e morrer afogada.

Francisco Telles transformou essa história em escultura e entregou a obra à cidade em 2010. Com aproximadamente 3,5 metros de altura, a peça utilizava fibra de vidro e ocupava as rochas junto à praia.

A escultura transformou uma narrativa que atravessou gerações em algo que as pessoas encontravam no cotidiano. Quem passava pelo Itararé não precisava conhecer todos os detalhes da lenda para reconhecer a figura.

Uma obra pode começar como projeto artístico e, aos poucos, ganhar outros significados conforme as pessoas passam a conviver com ela.

A Feiticeira seguia esse caminho. Sua presença não dependia apenas de placas, registros ou reconhecimento institucional. Ela também vivia na memória de quem a encontrava durante uma caminhada, uma ida à praia ou um trajeto habitual.

A Feiticeira 

A professora e pesquisadora Daniela Marino conhecia a escultura por suas caminhadas. Depois de se divorciar, ela passou a morar perto da Pedra da Feiticeira e encontrou naquele lugar uma relação particular com uma nova fase da vida.

A ligação com o mar também fazia parte dessa experiência. Para Daniela, a figura evocava proteção e acolhimento, especialmente naquele período de mudanças.

“A Pedra da Feiticeira tem um significado para mim de recomeço”, conta.

Ela descreve a sensação de encontrar a escultura durante as caminhadas como uma presença que parecia acompanhar sua nova vida. A associação com a maternidade e a proteção de Iemanjá tornava esse vínculo ainda mais pessoal.

“Para mim, principalmente, essa ideia de recomeço, assim, parece que ela estava sempre abençoando a minha nova vida”, relata.

Por isso, a notícia do incêndio provocou tristeza. A escultura fazia parte de uma experiência que não aparece em inventários de bens culturais nem em fotografias de pontos turísticos. O relato de Daniela mostra uma dimensão da perda que merece atenção. Uma obra pública pode adquirir sentidos diferentes para cada pessoa, sem deixar de pertencer à experiência coletiva da cidade.

A relação dela com a Feiticeira também evidencia a presença de referências espirituais na maneira como as pessoas ocupam e interpretam os espaços urbanos. Esse vínculo merece ser tratado com respeito, sem presumir que todos atribuam à escultura o mesmo significado.

Até o momento, a motivação do incêndio não foi esclarecida oficialmente. Portanto, a associação da obra com símbolos religiosos não permite concluir que tenha ocorrido um crime motivado por intolerância religiosa.

A hipótese merece apuração caso existam elementos que a sustentem. A investigação precisa esclarecer as circunstâncias do fogo antes que qualquer motivação seja apresentada como fato.

Patrimônio também é aquilo que a população reconhece como seu

Para Mario Rodrigues, guia de turismo e historiador, a destruição da escultura reforça uma discussão sobre o próprio conceito de patrimônio.

Em seu relato sobre o episódio, ele lembra que a obra foi criada por Francisco Telles e entregue à cidade em 2010. Em pouco tempo, passou a integrar a paisagem e a memória de quem circulava pelo local.

Mario define a Feiticeira como “um patrimônio cultural não oficial, mas reconhecido e apropriado pela população”.

A observação amplia o debate. O patrimônio cultural pode incluir bens protegidos formalmente, mas o reconhecimento social também ajuda a explicar por que determinados lugares e símbolos ganham valor para uma comunidade.

Uma escultura pode acompanhar a vida de um bairro, integrar histórias familiares ou se tornar uma referência para quem visita a cidade. Esses vínculos não surgem necessariamente por meio de uma decisão administrativa.

Foto: Julio Domingues 

Isso não significa que todo elemento querido pela população tenha automaticamente proteção jurídica específica. O reconhecimento afetivo e o tombamento são coisas diferentes, embora possam se complementar.

A questão levantada por Mario está justamente nessa distância entre o valor que as pessoas atribuem a uma obra e a forma como a cidade organiza sua preservação. Em sua reflexão, ele observa que a perda deve levar a uma discussão sobre aquilo que se entende como patrimônio, inclusive quando não existe reconhecimento oficial.

A ideia merece atenção em São Vicente, município cuja identidade turística e histórica se relaciona com monumentos, paisagens costeiras e narrativas transmitidas entre gerações.

A cidade não precisa esperar que uma obra desapareça para discutir o que ela representa. Inventariar bens culturais, documentar suas histórias, cuidar de sua conservação e planejar medidas de proteção são caminhos para reconhecer esse valor antes que ele esteja ameaçado.

O Ipupiara já havia deixado essa pergunta em 2016

A história da Feiticeira não é o primeiro episódio desse tipo na memória recente de São Vicente. Na madrugada de 24 de fevereiro de 2016, o monumento ao Ipupiara, instalado na Praça 22 de Janeiro, no Centro, foi atingido por um incêndio. A escultura ficou quase inteiramente destruída.

O Ipupiara representa outra narrativa tradicional ligada à cidade. A criatura marinha aparece em relatos históricos associados à antiga Vila de São Vicente e atravessou gerações como parte do imaginário local.

A estátua transformava essa história em presença física na praça, perto da Biquinha de Anchieta. Assim como aconteceu com a Feiticeira, o monumento conectava uma narrativa cultural a um espaço público frequentado por moradores e visitantes.

O incêndio de 2016 também deixou dúvidas sobre suas circunstâncias. Até hoje não se sabe se o fogo foi acidental ou criminoso.

Claro que essa informação exige uma comparação cuidadosa. Não há base, neste momento, para afirmar que os dois incêndios tiveram a mesma motivação ou que os episódios resultaram de uma mesma falha de segurança.

Memória Vicentina

O que os aproxima é a destruição de duas esculturas públicas pelo fogo, em momentos diferentes, ambas ligadas à memória cultural de São Vicente. E existe ainda uma questão que merece ser investigada: o que aconteceu com o Ipupiara depois daquele incêndio?

O histórico disponível confirma a destruição do monumento em 2016, mas ainda não permite estabelecer, com segurança, quais medidas preventivas foram adotadas depois do episódio nem se houve mudanças permanentes na proteção de esculturas ao ar livre.

Essa lacuna não comprova que nenhuma providência tenha sido tomada. Porém ela indica a necessidade de recuperar documentos, manifestações oficiais e registros da época para entender os desdobramentos.

Quando uma escultura desaparece desse cenário, a perda alcança também a maneira como a história é apresentada no espaço público. Por isso, o caso merece ser acompanhado para além do registro de que houve um incêndio.

O que foi investigado? Houve reconstrução ou substituição? Algum protocolo de proteção foi revisto? Essas respostas ajudariam a compreender se a experiência de 2016 produziu mudanças que possam contribuir para a proteção de outros monumentos.

Perguntas que ficaram sem resposta

No caso da Pedra da Feiticeira, a Prefeitura de São Vicente nos informou em nota que pretende reconstruir o monumento e está levantando os custos dos danos.

A administração também declarou que colabora com a Polícia Civil nas investigações. Entretanto, a nota encaminhada não esclarece pontos específicos sobre o monitoramento do local, o patrulhamento e as medidas permanentes de proteção ao patrimônio público.

A Prefeitura de São Vicente informa que, imediatamente após a ocorrência registrada no fim da tarde desta quarta-feira (30), passou a colaborar com a Polícia Civil nas investigações do caso.

A Administração Municipal já está levantando os custos dos danos causados pelo ato de vandalismo e adotará as providências necessárias para a reconstrução do monumento, preservando sua identidade cultural e seu significado para a Cidade.

A Prefeitura lamenta e repudia veementemente o ato, que representa um dano ao patrimônio público e cultural de São Vicente. A Administração Municipal reforça que não vai desistir de trabalhar pela reconstrução, valorização e transformação da cidade, tornando São Vicente cada vez mais atrativa, segura e desenvolvida.

A manifestação confirma o compromisso anunciado de reconstrução e a colaboração com a investigação. Contudo, não responde diretamente a cinco grupos de questões encaminhadas.

Foi questionado se o local conta com câmeras do sistema municipal, se as imagens do incêndio foram recuperadas e se já foram repassadas às autoridades policiais. Também onde estavam as equipes da Guarda Civil Municipal no momento da ocorrência e se houve chamados anteriores de moradores sobre atitudes suspeitas na região.

Outro ponto foi a eventual investigação de uma possível motivação relacionada à intolerância religiosa, hipótese que precisa ser apurada pelas autoridades, sem antecipar conclusões.

Por fim, a Prefeitura foi questionada sobre as medidas preventivas permanentes adotadas para proteger monumentos culturais ao ar livre, considerando o precedente do Ipupiara.

A nota não detalha esses aspectos. Também não apresenta prazo, orçamento ou definição sobre o material que será utilizado na reconstrução da Feiticeira.

Essa distinção importa. A falta de resposta a uma pergunta não prova que inexista uma medida de segurança ou que nenhuma providência tenha sido tomada. Significa que a informação não foi esclarecida na manifestação encaminhada à reportagem.

O compromisso de reconstruir é um primeiro posicionamento. Para que a população acompanhe os próximos passos, também será necessário esclarecer o que a investigação apurou e quais medidas poderão prevenir novos episódios.

Segurança do patrimônio precisa entrar na conversa

O incêndio da Feiticeira aconteceu em um espaço público à beira-mar. A obra ficava sobre as rochas da Praia do Itararé, em uma área que integra a paisagem cotidiana e turística de São Vicente.

O Corpo de Bombeiros recebeu o chamado às 17h53 de 30 de setembro de 2026. O atendimento mobilizou oito bombeiros e três viaturas, sem registrar vítimas. Segundo as informações divulgadas sobre a ocorrência, as autoridades ainda não haviam identificado a causa do fogo.

Na noite do incêndio, o prefeito Kayo Amado esteve no local e declarou que a Prefeitura buscaria reunir imagens das câmeras de monitoramento da região para tentar esclarecer o ocorrido.

Por isso, ganha importância saber se as câmeras registraram o momento do incêndio, qual área os equipamentos cobrem e se os registros podem contribuir com a investigação.

Essas informações, contudo, não permitem concluir nada sobre a eficiência do sistema de monitoramento. Para avaliar esse ponto, a investigação precisa considerar o que os equipamentos registraram, a qualidade das imagens e as condições de funcionamento das câmeras.

Além disso, nenhuma solução serve para todos os monumentos. Cada medida precisa considerar as características do espaço, os materiais utilizados na obra e os riscos identificados em cada local.

No caso da Feiticeira, a reconstrução abre uma oportunidade para discutir essas condições antes de instalar uma nova escultura.

O episódio também pode estimular uma avaliação mais ampla do patrimônio cultural público de São Vicente. A cidade reúne monumentos em praças, áreas históricas, espaços turísticos e ambientes expostos às condições naturais do litoral.

Por fim, a preservação exige recursos, planejamento, acompanhamento e responsabilidades claras. Quando a cidade discute esses elementos apenas depois de uma destruição, perde uma oportunidade importante de agir de forma preventiva.

O que a cidade pode fazer antes que outro símbolo desapareça?

A reconstrução da Feiticeira pode devolver à Praia do Itararé uma referência conhecida. Para isso, a Prefeitura ainda precisa definir os custos, o projeto e os próximos passos da obra.

Além disso, o episódio abre espaço para medidas que vão além da reconstrução. Um levantamento dos monumentos públicos, por exemplo, pode ajudar o município a identificar quais bens precisam de manutenção, documentação histórica ou medidas específicas de proteção.

Outra possibilidade é tornar mais acessíveis as informações sobre esses patrimônios. Ao registrar autoria, história, significado cultural e condições de conservação, a cidade facilita o acesso de moradores, pesquisadores e visitantes à própria história.

Nesse sentido, o caso do Ipupiara reforça a necessidade de recuperar o histórico das providências adotadas em 2016. Com esses registros, a população poderá entender o que a cidade aprendeu com aquele episódio e quais medidas podem ser aprimoradas agora.

Da mesma forma, a administração municipal precisa manter a população informada sobre a investigação e os próximos passos da reconstrução. Afinal, a transparência permite acompanhar compromissos públicos e manter o debate baseado em fatos.

Por isso, a preservação do patrimônio exige continuidade. A cidade precisa cuidar das obras enquanto elas permanecem expostas, registrar suas histórias e planejar formas de protegê-las.

Mario Rodrigues lembra que o valor cultural da Feiticeira também nasceu da relação construída com a população. Daniela Marino, por sua vez, mostra como essa presença ganhou um significado particular em sua vida.

São experiências diferentes. Juntas, porém, ajudam a dimensionar o que aquela escultura representava para quem encontrava a Feiticeira na paisagem do Itararé.

São Vicente pretende reconstruir a escultura. Ao mesmo tempo, o incêndio amplia a discussão sobre como a cidade protege seu patrimônio. O caso do Ipupiara oferece um precedente que merece ser revisitado, enquanto as perguntas sobre a segurança da Feiticeira ainda aguardam respostas.

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