Em Santos, uma bike com dois lugares está ajudando a cidade a ficar mais acessível
Bora pedalar?
Bike, magrela e até camelo. Ela está nos cartões-postais, na rotina corrida da semana, no passeio livre de domingo e principalmente naquele santista que falou “vou só ali” e volta meia hora depois porque resolveu pedalar.
Mas existe uma pergunta que quase nunca entra nessa conversa: quem consegue, de fato, participar desse movimento?
Lá na Fonte do Sapo, uma resposta começa a surgir e uma vez por mês, bicicletas também percorrem a orla de Santos com duas pessoas em cada uma. Na frente, um voluntário conduz e descreve o caminho. Atrás, uma pessoa com deficiência visual pedala junto.

O Pedalando às Cegas transforma um hábito tão santista quanto caminhar pelos jardins da praia em uma experiência possível também para quem não enxerga.
Mais do que colocar uma bicicleta na ciclovia, o projeto cria uma oportunidade para ocupar a cidade, conhecer pessoas, recuperar autonomia e simplesmente fazer uma coisa que muita gente faz sem pensar duas vezes: sair para pedalar.
Pedalando até Santos
Antes de ganhar a orla santista, o projeto nasceu de uma experiência vivida fora do Brasil. Adriane Araújo conheceu no México o Paseo a Ciegas, iniciativa que levava pessoas com deficiência visual para passear em bicicletas duplas. Depois, decidiu trazer a proposta para Santos.
Bruno Passarelo, um dos coordenadores, descreve o projeto em nota para a Prefeitura de Santos como uma ação voltada à mobilidade, inclusão social e qualidade de vida.
Desde então, a ideia ganhou novos voluntários, participantes e histórias.
Entre os coordenadores também estão pessoas que mantêm o projeto ativo ao longo dos anos e estão ligados à iniciativa em diferentes funções de voluntariado e coordenação.
Essa continuidade diz bastante sobre o projeto. Afinal, fazer uma ação pontual de inclusão é uma coisa. Criar uma rotina para que ela continue existindo é outra.
A bike tem dois lugares. E agora?
A tandem exige uma parceria que vai além de simplesmente sentar e sair pedalando.
Quem ocupa o banco da frente conduz a bicicleta, orienta o trajeto e descreve o que acontece pelo caminho. A pessoa com deficiência visual fica atrás, mas também pedala e participa ativamente do passeio.
Isso significa que existe trabalho dos dois lados.
A comunicação precisa ser constante e o movimento sincronizado. E a confiança também entra nessa conta.
Nos encontros realizados em Santos, os voluntários acompanham os participantes durante os passeios pela orla. Em uma atividade recente, 28 pessoas participaram, incluindo 10 pessoas com deficiência visual, 14 voluntários e quatro coordenadores.
Ao todo, foram cerca de 20 passeios de aproximadamente 15 minutos. Somados, eles chegaram a 60 quilômetros de pedal inclusivo.
E quando a pessoa não está pedalando?
O projeto vai além de uma atividade esportiva. Os encontros também viram ponto de encontro.
Algumas pessoas aparecem mesmo quando não vão pedalar. Elas chegam para conversar, rever amigos ou simplesmente participar daquele espaço.
Isso ajuda a mudar uma ideia ainda bastante comum sobre acessibilidade: a de que a inclusão acontece apenas quando existe uma adaptação física.
Claro que uma bicicleta adequada faz diferença. Uma ciclovia também.
Mas o acesso à cidade envolve poder sair de casa, encontrar pessoas, experimentar atividades, construir autonomia e ocupar espaços públicos sem que a deficiência determine até onde alguém pode ir.
Santos, afinal, tem uma relação histórica e cotidiana com a bicicleta. A cidade possui uma extensa rede cicloviária e a bike faz parte da rotina de muita gente.
Porém, essa cidade sobre duas rodas está conseguindo levar todo mundo junto? Projetos como o Pedalando às Cegas ajudam a responder que existe caminho.
A orla também pode ser um lugar de autonomia
A Fonte do Sapo não foi escolhida por acaso.
O ponto fica na Avenida Bartolomeu de Gusmão, na Aparecida, e faz parte de uma das áreas mais conhecidas da orla santista. A fonte foi inaugurada em 1943 e ocupa um espaço tradicional de lazer da cidade.
É justamente nesse cenário cotidiano que o projeto acontece.
Não existe uma cidade paralela para pessoas com deficiência. Existe a mesma Santos, com seus jardins, ciclovias, calçadas, praias, praças e desafios.
Por isso, ocupar a orla de bicicleta também tem um significado que ultrapassa o exercício físico.
A cada encontro, voluntários e participantes dividem não apenas uma tandem. Eles dividem a cidade.
Quem guia também aprende
Ser voluntário no projeto não significa simplesmente sentar na frente da bicicleta e apertar o pedal.
É preciso conduzir com atenção, conversar durante o trajeto e entender que a pessoa no banco de trás não está ali como passageira.
Essa dinâmica cria uma relação de confiança entre duas pessoas que, muitas vezes, não se conheciam antes do encontro.
Além disso, o projeto mostra que voluntariado não precisa significar apenas doação de dinheiro ou participação em grandes campanhas. Às vezes, pode significar reservar uma manhã, aprender uma dinâmica nova e emprestar disposição para que outra pessoa também possa pedalar.
Santos ainda pode pedalar melhor
A existência do Pedalando às Cegas não significa que a cidade tenha resolvido todos os seus desafios de acessibilidade.
Muito pelo contrário. A iniciativa evidencia justamente como atividades simples podem depender de estrutura, voluntariado, equipamentos adequados e disposição coletiva para acontecer.
Ainda assim, existe uma diferença enorme entre apontar o problema e criar uma alternativa.
O Pedalando às Cegas escolheu a segunda opção.
E talvez Santos precise de mais iniciativas assim: algumas institucionais, outras comunitárias, algumas grandes, outras pequenas. Todas capazes de fazer a mesma pergunta na prática.
Quem ficou de fora da cidade até agora?
Enquanto a resposta não for “ninguém”, ainda existe espaço para abrir caminho.
Como participar do Pedalando às Cegas
Os encontros acontecem mensalmente na Fonte do Sapo, na orla de Santos.
Quem quiser participar como pessoa com deficiência visual, voluntário ou conhecer melhor o projeto pode acompanhar as informações pelo Instagram @pedalandoascegas ou pelo site oficial.
O projeto também é signatário do Movimento ODS Santos.
Instagram: @pedalandoascegas
Site: Pedalando às Cegas
Local dos encontros: Fonte do Sapo, Avenida Bartolomeu de Gusmão, Aparecida, Santos.
Esta iniciativa contempla os itens 3, 10 e 16 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU: Saúde e Bem-Estar; Redução das Desigualdades e Paz, Justiça e Instituições Eficazes.